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LUSO-BRASILEIRA

REVISTA DO VILLA

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Bhering: a história da fábrica que marcou o café e o chocolate no Rio

Café Globo, chocolate, cacau e uma fábrica que se tornou parte da paisagem industrial do Rio: a história da Bhering revela também um capítulo da própria história econômica brasileira.


A fábrica Bhering.
A fábrica Bhering.

Foi no mês de janeiro de 1873 que Antônio José Ribeiro Bhering abriu um pequeno comércio de compra e venda de mantimentos, na rua Sete de Setembro, números 63 e 65, no centro do Rio de Janeiro. A partir daí, Antônio e sua família ajudaram a construir uma das principais indústrias do ramo de exportação de café e manteiga de cacau da América Latina. Na reta final do Império Brasileiro, a firma A. Bhering, com maquinaria a vapor, propagandeou ser a fornecedora da Casa Imperial Brasileira e entrou no ramo de chocolates, moagem de pimentas, canela, milho, arroz e outros cereais. Em abril de 1888, casaram-se Antônio Bhering e a pianista Dona Maria Thereza Franzen.


Rua 7 de setembro esquina com rua dos ourives. 1903. Foto Augusto Malta. Acervo Brasiliana fotográfica.
Rua 7 de setembro esquina com rua dos ourives. 1903. Foto Augusto Malta. Acervo Brasiliana fotográfica.

Entre os anos de 1904 e 1906, mudanças significativas foram implementadas. Em setembro de 1904, Antônio José Ribeiro Bhering e seu filho, o Dr. Francisco Bhering, com mais um sócio, Antônio Teixeira Lopes, mudaram o nome da firma e montaram uma nova sociedade com o nome de A, Bhering & Cia., com capital de 500 contos de réis. Infelizmente, Antônio José Ribeiro Bhering morreu em fevereiro de 1905, deixando a viúva Maria Thereza Franzen Bhering, agora nova sócia da firma. Em 1906, veio uma nova mudança. Os sócios sobreviventes, Francisco Bhering, Antônio Lopes e Dona Maria Franzen, como sócia comanditária, abrem a nova firma Bhering & Cia, para o comércio de café moído, sob a marca de fantasia “Globo”, e a fabricação de artefatos de folha de flandres, com a planta industrial montada na rua 13 de maio, números 22 e 23, depósito na rua 7 de setembro, n.º 85. Os artefatos de folhas de flandres podem ser reconhecidos hoje em dia pelas tradicionais caixas de metal para embalagens de biscoitos finos.


Instalações da Bhering da rua 13 de maio. 1925. Jornal Correio da Manhã. Fotógrafo desconhecido. Acervo BNRJ
Instalações da Bhering da rua 13 de maio. 1925. Jornal Correio da Manhã. Fotógrafo desconhecido. Acervo BNRJ

Em 1914, a família Darke de Mattos entra no negócio. Alberto David Pereira Braga, Darke David de Oliveira Mattos e Julio Kanitz eram sócios da fábrica do “Perfumador Vlan”, (famoso lança-perfume), com indústria na rua Visconde da Silva, números 106 e 108. O negócio foi fundado em 1910 para a exploração de produtos químicos. Completando a lista de sócios e interessados, Manoel Bhering Garcia da Silva (da firma Garcia, Nogueira, de São Paulo), os já citados Darke de Mattos (da firma David & Cia, do Rio de Janeiro), Alberto David Pereira Braga (da mesma firma do Rio), Ernesto Máximo Bhering Nogueira (da firma Garcia, Nogueira, de São Paulo), e o sócio comanditário Antonio Teixeira Lopes Bhering, ex-sócio solidário da antiga firma de mesmo nome Bhering & Cia. Uma curiosidade: os sócios, para fins comerciais, passaram a incorporar o nome da fábrica em suas assinaturas.


Casa David. Fabricante do lança perfume Vlan. Jornal A Noite. 1920. Arte do Jornal. Acervo BNRJ
Casa David. Fabricante do lança perfume Vlan. Jornal A Noite. 1920. Arte do Jornal. Acervo BNRJ

Numa segunda-feira, dia 20 de agosto de 1917, a firma Bhering & Companhia inaugurou sua nova loja de vendas no varejo, na rua 7 de Setembro, n.º 103. No anexo, foi aberta a seção de venda de latas e caixas redondas de folhas de flandres para fornecimento aos estabelecimentos do Rio de Janeiro, como a Confeitaria Colombo, ou para armazenagem de filmes cinematográficos. A fábrica estava produzindo de 15 a 20 mil quilos de café moído, diariamente. O consumo do Café Globo na capital da República era de 5.500 quilos, e 2.000 quilos de chocolate eram enviados para os outros estados da federação. A Primeira Grande Guerra na Europa abriu a oportunidade de exportação de manteiga de cacau para os EUA, França, Holanda e Inglaterra, apesar dos problemas logísticos inerentes ao conflito.


Propaganda do Fermento Bhering. 1931. Jornal A Noite. Arte do jornal. Acervo BNRJ.
Propaganda do Fermento Bhering. 1931. Jornal A Noite. Arte do jornal. Acervo BNRJ.

O novo chefe da indústria, Darke David Bhering de Oliveira Mattos, era dono dos terrenos marginais à Lagoa Rodrigo de Freitas, entre a chácara 121, da rua Fonte da Saudade, e a propriedade de Antônio Fernandes Lomba. Era um esportista, velejador, nadador amador e remador ligado ao Clube de Regatas Boqueirão do Passeio. Darke casou-se com Beatriz Seabra Muniz de Mattos. Teve os filhos Darke Mattos Junior, Jorge Mattos, Adelia de Oliveira Mattos Martins e Astréa Matos da Rocha.


Trecho da praia José Bonifácio, ilha de Paquetá, atual Parque Darke de Mattos, 1925. Fotógrafo desconhecido. Acervo BF.
Trecho da praia José Bonifácio, ilha de Paquetá, atual Parque Darke de Mattos, 1925. Fotógrafo desconhecido. Acervo BF.

O novo chefe da indústria, Darke David Bhering de Oliveira Mattos, era dono dos terrenos marginais à Lagoa Rodrigo de Freitas, entre a chácara 121, da rua Fonte da Saudade, e a propriedade de Antônio Fernandes Lomba. Era um esportista, velejador, nadador amador e remador ligado ao Clube de Regatas Boqueirão do Passeio. Darke casou-se com Beatriz Seabra Muniz de Mattos. Teve os filhos Darke Mattos Junior, Jorge Mattos, Adelia de Oliveira Mattos Martins e Astréa Matos da Rocha.


Darke de Mattos. c.1932. Jornal A Noite. Foto de divulgação. Acervo BNRJ
Darke de Mattos. c.1932. Jornal A Noite. Foto de divulgação. Acervo BNRJ

Darke de Mattos morreu em 1932. Em seu testamento, mandou  fazer na Praia da Guarda, n.º 175, na ilha de Paquetá, um abrigo para pescadores, doando à colônia dos pescadores Z-9. Um ano antes, em dezembro, foi lançado no mercado o Fermento Bhering e aconteceu a abertura do capital da empresa, agora chamada Bhering Companhia S/A. No ano de 1933, os sócios abriram uma filial no estado da Bahia, perto da produção cacaueira, outra em São Paulo, na rua da Mooca, n.º 261, e a CBTM, Companhia Brasileira de Torrefação e Moagem, para cafés locais, em Minas Gerais.


Galpão da Gamboa. 1925. Fotógrafo desconhecido. Acervo BNRJ.
Galpão da Gamboa. 1925. Fotógrafo desconhecido. Acervo BNRJ.

Toda a família Darke sempre esteve ligada aos esportes. O chefe da família foi presidente do Botafogo Futebol e Regatas e aviador. Por esse hobby, sofreu um acidente e faleceu em setembro de 1942. Darke Bhering Junior e sua família eram ligados à Imobiliária Higienópolis e ao comércio da marca de achocolatado Toddy no Brasil. Jorge Bhering assume o comando da holding.



Darke de Mattos Junior. 1933. Revstista Vida Doméstica. Fotógrafo desconhecido. Acervo BNRJ // Filial de São Paulo. 1933. Jornal

A Gazeta, de São Paulo. Fotógrafo desconhecido. Acervo BNRJ


Até o mês de junho de 1945, a ditadura Vargas, por meio do Departamento Nacional do Café, uma autarquia federal, subvencionou de alguma forma a indústria de café torrado e moído. Começam alguns solavancos nos negócios. A filial da Bahia, que por muitos anos deu lucro ao grupo, passou a produzir exclusivamente matéria-prima para a  matriz do Rio de Janeiro, dada a diminuição das encomendas dos mercados europeus e a baixa do preço do cacau em grão, em 1948. A Companhia Brasileira de Torrefação e Moagem (CBTM), também continuou trabalhando para terceiros, industrializando café, empacotando e  vendendo outras marcas.



Jorge Bhering de Mattos. 1946. Jornal A Manhã. Fotógrafo desconhecido. Acervo BNRJ.// Inauguração Unidade de fabricação de fermento. 1931. Revista Beira Mar. Fotógrafo desconhecido. Acervo BNRJ


Na década de 1950, dependendo dos mercados internacionais, a filial da Bahia começa a dar prejuízo, funcionando apenas como fornecedora de matéria-prima para a matriz carioca. O negócio de exportação de manteiga, massa e torta de cacau tornou-se oneroso. O setor industrial solicitou ao governo federal uma mudança de câmbio para melhorar as vendas internacionais. Para piorar,  ocorreu um incêndio na madrugada do dia 19 de janeiro de 1959, nas instalações comerciais da rua Sete de Setembro, n.º 113, que devastou o prédio. O comércio no varejo do Café Globo foi transferido para o prédio da rua Orestes.


A planta industrial da rua Orestes. Foto de internet.
A planta industrial da rua Orestes. Foto de internet.

Em 1958, a filial da Bahia encerrou suas atividades, sendo negociada com a firma Barreto Araújo & Companhia Limitada. Dois anos depois, a CBTM também terminou suas atividades. Na mesma década, acaba o setor de fabricação de bombons, mas a matriz continua dando lucro.



Propaganda Café Globo. 1953. Correio da Manhã. Arte do jornal. Acervo BNRJ // Propaganda dos Bombons Bhering.

Diário de Notícias. 1950. Arte do jornal. Acervo BNRJ.


O controle sai da família Bhering para o comando do industrial mineiro Ruy Barreto. A empresa começa a fornecer produtos para merenda escolar e rações para as Forças Armadas brasileiras. Passou a se chamar  Bhering Produtos Alimentícios S/A, em 17 de fevereiro de 1978, com capital de 19 milhões de cruzeiros, com sede no mesmo número da rua Orestes, no bairro do Santo Cristo, Rio de Janeiro. A CSB, Café Solúvel Brasília, de Varginha, Minas Gerais, comprou os direitos do Café Globo Solúvel, e a sua comercialização interna era feita pela Bhering. Nesta época, a fábrica era mais conhecida pelo chocolate em pó e pelas balas Toffee.



Torre da fábrica Bhering. 2026. Foto do autor. //. Aspecto da fachada da fábrica Bhering. 2026. Foto do autor.


A matriz da Bhering começa a dar prejuízo. O Grupo Café Solúvel Brasília apresentou um pedido de concordata preventiva em outubro de 1989. A empresa tinha uma dívida de U$ 2,4 milhões, com juros de 12% ao ano, e era uma das grandes devedoras do Banco do Brasil. Após obter lucro em 1990, solicitou a suspensão da concordata que havia pedido em 1989. Pura ilusão. Voltou a dar prejuízo no ano seguinte e começaram os pedidos de “falência requerida” por empresas fornecedoras. Mais de 100 empregados foram demitidos no mesmo ano. O sindicato respectivo da categoria do município do Rio acusou a Bhering Produtos Alimentícios S/A e sua controladora de não pagarem indenizações trabalhistas, recolhimento do INSS e do PIS, além do não pagamento do FGTS dos funcionários.



Fábrica Bhering. 2026. Foto do autor.


A Bhering sucumbiu e encerrou suas atividades em 1999. Pelo Juízo de Direito da 35.ª Vara Cível da Capital do Rio de Janeiro foram leiloados os bens avaliados em cerca de R$ 7.680.000,00, a saber: todo o conjunto industrial da rua Orestes, n.º 28 e das ruas Sara e Atília, no bairro do Santo Cristo, em agosto de 1999. Os imóveis, cinco edificações do complexo e seu terreno, de 16.175 m², foram leiloados pelo Banco do Brasil.


Fábrica Bhering, rua Orestes. 2026. Foto do autor.
Fábrica Bhering, rua Orestes. 2026. Foto do autor.



Imagens de acervo:

  • BNRJ = Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.

  • BF - Brasiliana Fotográfica


Flavio Santos

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