Vida da ativista e prostituta Gabriela Leite, criadora da grife Daspu, no teatro
- Alex Gonçalves Varela

- 21 de mar.
- 8 min de leitura
A atriz Fernanda Viacava leva à cena a obra e a vida da
ativista e prostituta Gabriela Leite (1951-2013)
no solo
Gabri, texto de Caroline Margoni | direção de Malú Bazán

Estudante da USP e frequentadora da turma da contracultura nos anos 70, durante a ditadura militar, Gabriela Leite trocou a faculdade de Filosofia pela prostituição. Entre os anos 1990 e 2000, criou a ONG Davida e a grife DASPU, escreveu dois livros e foi a primeira ativista prostituta brasileira, junto com Lourdes Barreto, a organizar a classe no Brasil e na América Latina.
O espetáculo passeia com humor e irreverência por episódios marcantes de sua vida. A peça tem pesquisa e curadoria de Elaine Bortolanza, pesquisadora na área, ativista do movimento de prostitutas e diretora da DASPU de 2013 a 2022, e Lourdes Barreto, prostituta ativista e grande parceira de Gabriela na criação do Movimento Brasileiro de Prostitutas.
No carnaval deste ano, ao lado de Lourdes Barreto, Fernanda Viacava foi destaque como Gabriela Leite no desfile da escola de samba Porto da Pedra, cujo enredo foi “Das mais antigas da vida, o doce e amargo beijo da noite”, que abordou a história das trabalhadoras sexuais.
ESTREIA: dia 08 de abril (4ªf), às 19h
LOCAL: Casa de Cultura Laura Alvim – Espaço Rogério Cardoso (Porão)
HORÁRIOS: quartas e quintas às 19h /
INGRESSOS: R$30,00 (meia) e R$60,00 na bilheteria de terça a sexta de 16h às 20h, feriados de 15h às 20h e domingos de 15h às 19h e em funarj.eleventickets.com /
CAPACIDADE: 53 lugares / DURAÇÃO: 75 minutos /
GÊNERO: comédia dramática / CLASSIFICAÇÃO 16 anos / TEMPORADA: até 23 de abril
VÍDEO: https://youtu.be/xnPGzrDcZbA
A identificação e as inquietações de da atriz Fernanda Viacava com a figura de Gabriela Leite (1951-2013), a primeira mulher a lutar pelos direitos das prostitutas no Brasil, é mote do solo Gabri, que chega ao Rio depois de temporadas de sucesso em São Paulo e circulação nacional.
O solo reaviva a memória da ativista e prostituta Gabriela Leite ultrapassando a barreira das ruas e do estigma, ao falar sobre prostituição na perspectiva do desejo e da autonomia sexual de todas as mulheres. Gabriela, criadora da ONG Davida (hoje Coletivo Puta Davida) e da grife DASPU (*), é personagem dessa ficção que se apropria de sua trajetória para criar um ensaio sobre a mulher e a luta pela liberdade.
(*) A Grife Daspu foi criada em 2005 como uma passarela de luta para dialogar com a sociedade sobre os estigmas relacionados às mulheres que exercem o trabalho sexual. O nome era uma provocação à Daslu, então famosa loja de artigos de luxo do Brasil, pertencente à empresária Eliana Tranchesi (1955-2012).
“É uma alegria enorme chegar no Rio de Janeiro, trazer esse espetáculo para uma cidade que é tão importante para a trajetória da Gabriela. Todo movimento político, todos os grandes passos na vida da Gabriela foram muito ligados ao Rio, a cidade que ela escolheu. Gabri fala de escolhas, do direito de ir e vir da mulher, dos nossos desejos em movimento.”, reflete a diretora, Malú Bazán.
O espetáculo passeia, com humor e irreverência, por episódios marcantes de sua vida. A pesquisa partiu da leitura das duas autobiografias de Gabriela Leite - "Eu, mulher da vida" (1992) e "Filha, mãe, avó e puta" (2009) -, e da "Puta Autobiografia”, de Lourdes Barreto (2023), além de uma série de conversas com companheiras de luta, ex-companheiro de Gabriela, irmãs, filha e amigos próximos.
“Tenho muita alegria, muito orgulho de contar a história dessa mulher guerreira para diversos públicos de maneira intensa e divertida. Sabe quando o ator encontra a SUA personagem da vida? Pois é, encontrei Gabriela, um encontro que mudou meu jeito de olhar e me colocar na vida”, revela Fernanda Viacava.
“Uma prostituta destemida, inteligente e que fala! É ousadia demais. Para ela, não é profissional do sexo, é puta. Não é garota de programa, é puta. Não é prostituta, é puta. Quatro letras que, quando unidas, se aproximam do objetivo pelo qual Gabi sempre lutou: domar o estigma.", completa Caroline Margone, autora do texto.
SINOPSE
Com humor e irreverência, Fernanda Viacava, ora como Gabriela, ora como ela mesma, relembra o legado da ativista e prostituta Gabriela Leite, e reflete sobre pontos de identificação entre ambas, que podem se estender a todas as mulheres.
AS FONTES
O grupo “Mulheres da vida” acessou os arquivos de vídeo dos encontros nacionais e estaduais, fotografias, áudios do acervo histórico e atual do movimento, além de promover encontros com amigos, familiares de Gabriela e companheiras de luta que fizeram parte da sua trajetória de vida e de luta.
As criadoras se embrenharam na memória e no acervo histórico da ONG Davida, que integra desde 2012 o Arquivo Estadual do Rio de Janeiro (APERJ), junto ao Observatório da Prostituição - projeto de pesquisa e extensão do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IPPUR-UFRJ).
Entre os personagens que contribuíram para a pesquisa dramatúrgica, estão Flávio Lenz, parceiro de vida com quem Gabriela se relacionou por mais de 20 anos e com quem fundou a ONG Davida e o Jornal Beijo da Rua; Maurício Toledo, amigo mais antigo e companheiro da ONG Davida; Thaís Helena Leite, e Regina Leite, irmãs; Alessandra Leite, filha; Tatiany Leite, neta, com quem tinha uma relação muito próxima; Lourdes Barreto, amiga e a maior companheira de luta, fundadora do Grupo de Mulheres Prostitutas do Estado do Pará - GEMPAC (1990); Vânia Rezende, prostituta e ativista da região Nordeste, coordenadora da Associação Profissionais do Sexo de Pernambuco - APPS, parceira de luta da RBP; Soraya Simões, professora do IPPUR/UFRJ e coordenadora do Observatório da Prostituição; e Laura Murray, professora do Núcleo de Políticas Públicas e Direitos Humanos na UFRJ e Diretora do filme Um Beijo para Gabriela.
QUEM FOI GABRIELA LEITE?
Nascida em 1951, em São Paulo, Gabriela se tornou a principal referência na luta em defesa dos direitos das prostitutas no Brasil. Estudante da USP e frequentadora do Bar Redondo com a turma da contracultura nos anos 70, durante a ditadura militar, trocou a faculdade de Ciências Sociais pela prostituição, primeiro em sua cidade, depois em Belo Horizonte e no Rio de Janeiro, onde viveu até a sua morte em 2013.
Gabriela foi a primeira mulher a se apresentar publicamente como prostituta. Isso aconteceu no I Encontro de Mulheres de Favelas e Periferia, organizado em 1983 pela vereadora Benedita da Silva, do PT. “Foi um rebu! Uma prostituta que se diz prostituta! Aí começou toda uma onda”, disse a ativista em sua autobiografia.
Alguns anos depois, ela conhece Lourdes Barreto nos encontros da Pastoral da Mulher Marginalizada e, juntas, tramam a organização da Rede Brasileira de Prostitutas, o primeiro movimento em rede da categoria, que conta com representantes de todas as regiões do Brasil. A criação deste movimento em rede teve como marco o I Encontro Nacional de Prostitutas: “Mulher da vida, é preciso falar", realizado no Rio de Janeiro, em 1987, que teve o encerramento no Circo Voador com a presença e apoio de vários artistas, como Elza Soares, Martinho da Vila, Lucélia Santos, Norma Bengell, entre outros. A ativista ainda fundou em 1992 a ONG Davida e, em 2005, criou a grife Daspu, uma passarela de luta concebida para dialogar com a sociedade, por meio da arte e da cultura, os estigmas relacionados às prostitutas.
Ela ainda foi a primeira mulher na América Latina a iniciar o trabalho de organização da categoria, a partir da desconstrução de representações socialmente aceitas sobre a prostituição, dando-lhe novos sentidos ao estigma que atravessa todas as mulheres, e buscando o seu reconhecimento como trabalho. Gabriela morreu em 2013, vítima de um câncer de pulmão.
TRAJETÓRIA DA PEÇA
Visto por cerca de 4.500 espectadores, Gabri estreou em janeiro de 2024, no SESC Av. Paulista (SP), e seguiu no circuito cultural com temporadas no Teatro Oficina Uzyna Uzona, Teatro O Andar, Itaú Cultural e Teatro Arthur Azevedo. Também circulou por unidades do SESC no interior paulista e integrou o FestiVale - Festival de Teatro em São José dos Campos. Participou do Festival Cena Cumplicidades (Recife/PE), do Festival Verônica Moreno (DF), Festival de Inverno de Itabira (MG) e do Festival Nacional de Teatro de Passos (MG).
Além do circuito institucional, Gabri realizou ações e apresentações em territórios e contextos diretamente conectados ao tema: em dezembro de 2024, apresentou-se no Parque da Luz para o coletivo Mulheres da Luz; em março de 2025, no Jardim Itatinga (Campinas), integrando a programação do Mês das Mulheres; e em junho de 2025, no auditório da Pinacoteca, a convite do coletivo, para o lançamento do livro Trajetórias de Vidas II – Mulheres da Luz. Em outubro de 2025, realizou apresentação no GEMPAC (Grupo de Mulheres Prostitutas do Estado do Pará).
No Festival Nacional de Teatro de Passos (MG), recebeu o Prêmio de Melhor Atriz e indicação de Melhor Dramaturgia.
FICHA TÉCNICA
Concepção e Idealização: Caroline Margoni, Elaine Bortolanza, Fernanda Viacava e Malú Bazán
Dramaturgia: Caroline Margoni
Direção: Malú Bazán
Elenco: Fernanda Viacava
Pesquisa e Curadoria: Elaine Bortolanza
Memória e Curadoria: Lourdes Barreto
Direção Interpretativa e Preparação Vocal: Lúcia Gayotto
Direção de Arte: Kabila Aruanda
Trilha Sonora: Nina Blauth e Girlei Miranda
Música Original: Nina Blauth
Criação Audiovisual: Cassandra Mello (Teia Documenta)
Assistência de Criação Audiovisual: Ciça Lucchesi
Iluminação: Cristina Souto
Identidade Visual: Manuela Afonso
Operação de Luz: Nara Zocher
Operação de Vídeo e Som: Nara Zocher
Fotos: Cassandra Mello, Paulo Neobeck, Ronaldo Gutierrez e Rogério Alves
Produção Executiva: Fernanda Viacava
Produção Geral: Clotilde Produções Artísticas
Assessoria de Imprensa: JSPontes Comunicação – João Pontes e Stella Stephany
CAROLINE MARGONI - autora
Roteirista formada em Audiovisual, com cursos em Cuba, Brasil e Argentina. Criminóloga formada pela PUC-RS. Escreveu a série “Psi” (HBO), adaptou o livro “Prisioneiras”, de Drauzio Varella (Globo) e roteirizou “Dois Tempos” e “Americana” (Disney/Star+). É roteirista do longa “A Vítima Invisível – O Caso Elisa Samudio” (Netflix) e da série documental “Cinéticas”, da qual também é diretora geral. Adaptou o livro “Sinto Muito”, de Nuno Lobo Antunes, para o ICA/Portugal e escreveu “Our Blood, Our Body” (Fox Lab) vencedor do Emmy Kids 2019. Em 2026, estreia uma série e um longa true crime inéditos (streaming), ambos em produção (Globoplay). Atualmente prepara seu primeiro longa-metragem de ficção com direção de Gabriela Amaral Almeida e chefia a sala de uma série investigativa. Na Criminologia, pesquisa o uso de algoritmos no combate à criminalidade. É autora da peça Gabri.
MALÚ BAZÁN - diretora
Diretora, atriz e professora. Formada pelo TUCA/PUC (1996). Trabalhou com o Grupo TAPA de 2000 a 2017, onde atuou em diversas peças, ministrou diferentes Grupos de Estudos para atores e dirigiu em 2012 seu primeiro espetáculo “A Noite das Tríbades”, de Per Olov Enquist.
Em 2018 foi indicada ao APCA de melhor direção pelo espetáculo “Aproximando-se de A Fera Na Selva”, de Marina Corazza, espetáculo criado a partir do romance A Fera na Selva de Henry James. Seus mais recentes trabalhos na direção foram Gabri, espetáculo baseado na vida e obra de Gabriela Leite, que estreou em 2024 no Sesc Avenida Paulista; e “Primavera Cega”, solo auto ficcional do artista Igor Iatcekiw, em codireção com Alejandra Sampaio, estreado em 2025.
Alguns dos seus trabalhos anteriores como diretora são: “O Corpo da Mulher Como Campo de Batalha”, de Matéi Visniec (2016); “Alice, retrato de mulher que cozinha ao fundo” (2016), que fez parte do projeto Escritoras na Boca De Cena e participou do Circuito Internacional de Teatro organizado pelo INT da Argentina; e “Soledad – A Terra é Fogo Sob Nossos Pés” (2015), espetáculo realizado em Recife, indicado ao prêmio de melhor direção do Festival Janeiro de Grandes espetáculos 2016, foi contemplado com 4 prêmios Funcultura para realização de duas circulações nacionais e duas internacionais realizando apresentações em 4 estados do Brasil e 3 países da América Latina e que agora acaba de realizar uma circulação pela Espanha (outubro de 2022). No final de 2021, estreou mais dois trabalhos como diretora: “Mulheres Sonharam Cavalos”, de Daniel Veronese e “A Pane”, de Friedrich Dürrenmatt. E ainda em 2022, estreou “Inferno”, de Reafael Spregelburd.
FERNANDA VIACAVA – atriz
No Grupo TAPA atuou nas peças “Gata em Telhado de Zinco Quente”, “Vestir os Nus “e “A Falecida Senhora Sua Mãe”, todas dirigidas por Eduardo Tolentino. Atuou em peças como “O Exercício das Crianças”, dir. Noemi Marinho; e Gabri, dir. Malú Bazán, que lhe rendeu o PRÊMIO DE MELHOR ATRIZ no Festival de Passos.
No cinema, atuou nos filmes “Nossa Vizinhança, Silvio”, de Marcelo Antunez; “Uma Noite em Sampa”, de Ugo Giorgetti; “Volume Morto”, de Kauê Teloli; “Querida Mamãe” e “O Menino da Porteira”, de Jeremias Moreira. Sua atuação no curta “A Página”, de Guilherme Andrade, rendeu-lhe o PRÊMIO DE MELHOR ATRIZ nos festivais Tamoios (RJ) e Pop Corn (SP). No streaming, atuou em séries da Netflix, GloboPlay, Amazon, como “Sintonia”, “Boca a Boca”, “Onisciente” e “Crime Time”.
Alex Varela

Comentários