“Sorry, Baby”: quando a primeira cena já te pede o coração
- Cláudia Felício

- 12 de dez. de 2025
- 2 min de leitura

A primeira cena de “Sorry, Baby” já me ganhou. Há filmes que começam mostrando algo; este começa sentindo. Nesse instante, eu entendi que Eva Victor, em sua estreia como roteirista e diretora, tinha um domínio raro: o de construir emoção sem pressa, sem truque, sem show.
A história, à primeira vista, parece simples. É uma jovem tentando retomar a vida depois do que o roteiro chama apenas de “o ruim”, “o acontecido”, como se nomear fosse diminuir o que houve. Acho que é um filme sobre seguir, mas seguir não como “superação inspiradora”, como vemos em Hollywood. É seguir como um processo irregular, cru, cheio de vitórias pequenas, cheio de tombos silenciosos. É um filme íntimo: a dor existe, mas não define todos os minutos da personagem, e isso transforma tudo numa experiência muito mais humana. E é exatamente aqui que o roteiro brilha. A cena do banho é uma obra de arte! Agnes procura apoio na amiga para ver se ela mesma entende o que houve, qual o limite que ela permitiu até ver a enorme violência que aconteceu.
Eva Victor escreve a vida real: interrompida, contraditória, irônica, engraçada quando não devia, vulnerável quando ninguém está olhando. A estrutura em capítulos funciona como pequenas ilhas emocionais de momentos isolados nos quais vemos Agnes tentando tocar o cotidiano, ensaiando uns afetos, rindo sem querer, adotando um gato, enfim: é gente. Cada capítulo é um fragmento que parece solto, mas o roteiro costura tudo com uma precisão linda de ver, revelando aos poucos o mapa emocional dessa protagonista.
Uma das coisas que me impressionou foi como Eva Victor escolheu não mostrar o que aconteceu com Agnes, mostrou o tempo passando na fachada da casa. Não tem a crueldade na tela, a violência é na fala crua. Essa decisão parece até um respeito de uma mulher, a Eva, por outra, a Agnes. É bonito, narrativo e tão poderoso. A cena mais intensa é justamente verbal: é Agnes contando, aos pedaços, o que viveu. O roteiro controla cada pausa, cada repetição e é nesse controle que surge o impacto. Não é um grito. É um sussurro que rasga. “Sorry, Baby” não é sobre o trauma, e sim sobre o que a gente faz com ele.
Cláudia Felício
Roteirista, escritora best-seller e e crítica especializada em cinema





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