top of page
FB_IMG_1750899044713.jpg

Revista do Villa

Revista do Villa

Revista do Villa

Revista luso-brasileira de conteúdo sobre cultura, gastronomia, moda, turismo,

entretenimento, eventos sociais, bem-estar, life style e muito mais...

Rezidentura: um braço de espionagem da KGB no Brasil

Rezidentura: um braço de espionagem da KGB no Brasil.


Imagem 1. Imagem ilustrativa gerada por IA
Imagem 1. Imagem ilustrativa gerada por IA

“Absolute cinema” é a expressão de um meme popular da internet e da cultura pop dos nossos tempos. Pois bem, imagine o Rio de Janeiro das décadas de 1950 e 1960 como cenário de um filme de espionagem. Adicione encontros furtivos entre agentes do serviço secreto estrangeiro no antigo restaurante Baalbek, em Copacabana, ou na churrascaria Los Brazos, no Humaitá. Tudo isso com direito a gestos combinados e trocas-relâmpago de materiais confidenciais.


Muito foi dito e especulado sobre a influência dos Estados Unidos da América e de suas agências governamentais no Brasil. Principalmente da participação da malfadada C.I.A. (Central Intelligence Agency) em momentos cruciais da História brasileira do século XX, como no golpe que instaurou a ditadura militar no Brasil, em março de 1964. Em contraste, pouco ou quase nada foi revelado sobre a atividade das agências de inteligência do antigo bloco de países comunistas em terras brasileiras.


Vladimír Petrilák é jornalista, escritor e tradutor. Escreveu artigos e livros que esclarecem cabalmente a ação dos serviços secretos dos países comunistas em países latino-americanos. Petrilák pesquisou nos Arquivos dos Serviços de Segurança localizados nas cidades de Praga e Brno, atual República Tcheca. Especialmente, os documentos organizados pelo extinto serviço de inteligência da polícia secreta da Tchecoslováquia - a Stb, sigla que significava “Segurança de Estado”, em tcheco.


Publicou dois bons livros: A Traição Invisível: brasileiros nos arquivos do serviço secreto comunista, de 2022. Anos antes, em parceria com Mauro Abranches Kraenski, tradutor e pesquisador, escreveu o livro: 1964, o Elo Perdido, do ano de 2017. Ambos publicados pela Vide Editorial. Os documentos analisados estavam interditados à pesquisa pública até 1989, quando passaram por reorganização e, finalmente,  foram disponibilizados ao público em geral, em 2007.


A Stb era um braço subalterno da KGB e atuava na América Latina, campo de influência americana, com o objetivo final de combater o grande inimigo: o imperialismo dos EUA. Além de sabotar o adversário principal, queriam informações sobre a política externa do Brasil, apoiar a Revolução Cubana e espalhar desinformação por meio de uma luta diversionista. Pelo cotejamento da documentação, os pesquisadores verificaram que a KGB e o SB (Serviço de Segurança polonês) também conheciam colaboradores no Brasil.


Imagem 2. Foto da Antiga sede da StB em Praga. 2011. Sem autor. Imagem de internet.
Imagem 2. Foto da Antiga sede da StB em Praga. 2011. Sem autor. Imagem de internet.

Até 1964, apenas as representações cubana e soviética eram consideradas automaticamente suspeitas. A embaixada da Tchecoslováquia só entrou realmente no radar do SNI - Serviço Nacional de Informações, após a destituição do presidente João Goulart, em 1964. A KGB e o GRU (Diretório Estatal de Inteligência soviético) abriram sua rezidentura no Rio de Janeiro assim que as relações diplomáticas foram restabelecidas, em 1961. No início da década de 1960, o serviço secreto da Tchecoslováquia gastava 6 mil dólares americanos em sua operação no Brasil. Em contrapartida, os soviéticos gastavam cerca de 200 mil na mesma moeda. Por analogia, temos uma ideia da presença soviética no país da Bossa Nova.


Imagem 3. Embaixador Jaroslav Kuchlavec da Tchecoslováquia no Brasil. Diário de Notícias. 1960. Fotógrafo desconhecido. Acervo Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.
Imagem 3. Embaixador Jaroslav Kuchlavec da Tchecoslováquia no Brasil. Diário de Notícias. 1960. Fotógrafo desconhecido. Acervo Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.

Uma rezidentura era o tentáculo da agência de inteligência que funcionava na representação diplomática. Os oficiais de espionagem estavam lotados na embaixada, mas nem todos os funcionários eram membros da Stb. Apenas o embaixador, se fosse um agente, sabia diferenciar os dois grupos. Oficialmente, ele era um membro da legação, que era usada como camuflagem, chamada de “legalização”. Essa estratégia russa era a aplicação da “política externa de dois andares”, termo cunhado pelos historiadores russos Alexander Niekricz e Michail Heller no livro Utopia no poder, de 1982. Basicamente, a política externa tinha sua parte formal, oficial, comandada pelo Ministério das Relações Exteriores, e a parte secreta e subversiva, que era chefiada pelo Comintern, a Internacional Comunista.

Imagem A. Um país deslumbrante. Política externa de dois andares. 1962. Correio da manhã. Arte do jornal. Acervo BNRJ.
Imagem A. Um país deslumbrante. Política externa de dois andares. 1962. Correio da manhã. Arte do jornal. Acervo BNRJ.

A rezidentura do Rio de Janeiro começou a funcionar em 1952. Teve seu pico de trabalho em 1962, com o número recorde de 12 agentes atuantes no Brasil. Continuou a funcionar, de forma menos ousada, após 1964. Passou por reformulação e troca de quadros após os expurgos em decorrência do esmagamento da “Primavera de Praga” (1968) e foi desativada em terras brasileiras em 1971. Mas eles não desistiram.


Imagem B. Brizola e o embaixador Jaroslav Kuchlavek da Tchecoslováquia. Diário Carioca. Fotógrafo
Imagem B. Brizola e o embaixador Jaroslav Kuchlavek da Tchecoslováquia. Diário Carioca. Fotógrafo
Imagem C. Um país de portas abertas. Reportagem chapa-branca sobre a Tchecoslováquia. Revista Jóia. 1959. Fotógrafo desconhecido. Acervo BNRJ
Imagem C. Um país de portas abertas. Reportagem chapa-branca sobre a Tchecoslováquia. Revista Jóia. 1959. Fotógrafo desconhecido. Acervo BNRJ

Como um brasileiro era cooptado para se tornar um colaborador? Os agentes da Stb observavam pessoas de interesse, que poderiam ser “trabalhadas”. Normalmente, funcionários do Itamaraty, deputados, jornalistas, pessoas com acesso à embaixada dos EUA e intelectuais do campo dito “progressista”. Todavia, os agentes preferiram não trabalhar com membros conhecidos do PCB - Partido Comunista Brasileiro, preferindo alinhados ideologicamente, sem vinculação tão óbvia. O objetivo, como já foi dito, era prejudicar os EUA e não se intrometer nos esforços dos partidos comunistas da América Latina. Os seus interesses incluíam todo tipo de informação secreta que pudesse ser subtraída da embaixada dos EUA, do gabinete presidencial brasileiro, do Congresso, do Itamaraty, da Confederação da Indústria e da polícia, nesta ordem.


Com paciência e simpatia, o agente da StB cortejava o escolhido, “trabalhava” o futuro colaborador em almoços e jantares nos restaurantes da cidade, com regabofes e mostras culturais na embaixada, além de presentinhos: maços de cigarro e garrafas de whisky. Então, marcavam encontros particulares, onde os assuntos se tornavam menos aleatórios, mais específicos, para ver a reação do “figurante". Uma vez cooptado, tornava-se um DS - contato confidencial. O DS era um idiota útil, um agente incompleto, ainda não formalizado. Faltava perguntar com franqueza, seguindo o método formal da Stb,  se era do desejo do DS colaborar com a agência de modo conspirado. Em caso de resposta afirmativa, o DS ganhava um oficial condutor, que era o agente da Stb que o trabalhou. Os “condutores” da Stb preferiam encontros no Restaurante da Mesbla, no Passeio Público.


Imagem 4. Edifício Mesbla da rua do passeio. 1953. Revista Rio. Fortógrafo desconhecido. Acervo BNRJ.
Imagem 4. Edifício Mesbla da rua do passeio. 1953. Revista Rio. Fortógrafo desconhecido. Acervo BNRJ.

Apesar de alguns colaboradores fazerem o serviço por afinidade ideológica, “em prol da causa", geralmente aceitavam remunerações. Era uma forma cínica de ver a questão, pois, para muitos, era traição da Pátria, pura e simples. Para a Stb, era uma necessidade criar vínculos financeiros. Assim, realizavam pagamentos em dólares, financiavam viagens, automóveis e apartamentos. Foi o caso de um famoso filólogo marxista, agente “Honza” nas pastas da StB, que empresta seu nome para um também famoso dicionário de Língua Portuguesa… Recebia regularmente pagamentos da StB, além de cigarros e garrafas de whisky. Foi um dos cassados em 1964 e expulso do Itamaraty. Outros, como o agente brasileiro “Willy”, funcionário festeiro, subalterno lotado na embaixada em Praga, na virada dos anos 1950 para os de 1960, recebiam de bom grado os pagamentos da StB em troca de informações secretas. Foi considerado pela KGB e pela StB como “o mais valioso da América Latina”.


Imagem 5. Fernando Nilo Alvarenga. Embaixador do Brasil em Praga 1954 a 1959. Alvo de Willys.  Diário Carioca. 1952. Fotógrafo desconhecido. Acervo BNRJ
Imagem 5. Fernando Nilo Alvarenga. Embaixador do Brasil em Praga 1954 a 1959. Alvo de Willys. Diário Carioca. 1952. Fotógrafo desconhecido. Acervo BNRJ

Como foi afirmado acima, a Stb foi reformulada após a “Primavera de Praga”, de 1968, sendo mais cautelosa. Já operava com dificuldade após 1964, entrando no radar do SNI, após terem sido identificados, ainda em março de 1963, dois agentes infiltrados na embaixada do Brasil em Praga. Informação essa, repassada aos tchecoslovacos por outro agente da StB, codinome “Lobo”, brasileiro que trabalhava no CSN - Conselho de Segurança Nacional do Brasil…


Imagem 6. Reportagem chapa-branca do ensino na Tchecoslováquia. Revista Jóia. 1959. Fotógrafo desconhecido. Acervo BNRJ
Imagem 6. Reportagem chapa-branca do ensino na Tchecoslováquia. Revista Jóia. 1959. Fotógrafo desconhecido. Acervo BNRJ

Após o fechamento da rezidentura do Rio de Janeiro, a StB passou a monitorar os embaixadores do Brasil nos EUA e na Tchecoslováquia. Em território tcheco, passaram então do Diretório I, de inteligência, para o Diretório II, de contra-inteligência. Esse monitoramento e cooptação durou até 1989. Uma das tarefas do serviço secreto era, além de criar vínculo financeiro, garantir a possibilidade de chantagear e comprometer seus alvos. Estamos falando dos anos de 1950 e 1960, tempos conservadores com seus leques de imoralidades.


Para essa tarefa, a StB tinha uma rede de colaboradores: garçons, funcionários de hotéis, atendentes de postos de gasolina e prostitutas, além de escutas telefônicas e câmeras escondidas. As pastas de documentos da StB revelam, infelizmente, parte da “banda podre” do Itamaraty, nossa “ilha de excelência”: funcionários ligados a contrabando de moedas antigas, de obras de arte, de ouro e pedras preciosas, envolvimento com amantes (mulheres e homens), alcoolismo comprometedor, chantagens e orgia gay. Para informações mais constrangedoras, leiam os livros.


É preciso dizer que muitos dos casos de tentativas de cooptação davam errado ou eram sumariamente abandonados. Por medo, desconfiança, patriotismo ou motivados por seu senso de decência, certos figurantes recusaram ou, assim que notavam o jogo, cortaram o contato abruptamente com os funcionários da embaixada.


Foi o caso do diplomata e ex-ministro da Fazenda Rubens Ricupero. O figurante “Loren”, seu codinome nas pastas dos arquivos da Stb, foi “trabalhado” durante o início da década de 1960, em Brasília. Era avaliado como confiante, bem informado e um ótimo candidato a colaborador. Mas, por motivos não esclarecidos, em uma conversa posterior, em um restaurante de hotel em Praga, em 1963 (Ricupero estava trabalhando em Viena), Loren mudou de atitude e, para todos os fins, passou a dizer que não sabia nada do que se passava na representação brasileira. Ricupero/Loren parecia desconfiado, o que foi notado pelo agente. Loren evitou os contatos posteriores, então a Stb “congelou” o contato e, posteriormente, deu o caso por encerrado em 1964. Três anos de trabalho perdidos.


Imagem 7. Ministro Rubens Ricupero. Não se vendeu. Foto Divulgação e Fernando Silveira. 2018. Reprodução Revista Exame
Imagem 7. Ministro Rubens Ricupero. Não se vendeu. Foto Divulgação e Fernando Silveira. 2018. Reprodução Revista Exame

Vejamos o caso de um agente da KGB atuando livremente no Brasil. Tudo está registrado nas pastas da StB, em registros do Arquivo Nacional do Brasil e em livros de especialistas sobre a inteligência soviética, como Vladimir Antonov: o caso do falso Kulda. Um espião russo chamado Mikhail Filonenko, codinome “Firin”, cobra-criada da antiga NKVD e agente da então KGB, entrou no Brasil com sua esposa Anna Fodorovna Filonenko em 1954. Foram registrados com os nomes de Joseph Ivanovich Kulda e Mariya Navotnaya Kulda. Filonenko era um “duplo” ou matrioshkas, por assumir a identidade de outra pessoa. O verdadeiro Kulda nasceu nos EUA, mas de nacionalidade tcheca e tinha ciência do jogo-duplo. O item precioso, que abria possibilidades, era a certidão de batismo verdadeira, emitida nos EUA.


Imagem 8. Mikhail Filonenko. 1941. Então tenente júnior do Depart. de Segurança do Estado da NKVD da URSS. Reprodução da internet
Imagem 8. Mikhail Filonenko. 1941. Então tenente júnior do Depart. de Segurança do Estado da NKVD da URSS. Reprodução da internet

O Kulda impostor começou sua atividade no Brasil em 1959, trabalhando em firmas de serviços elétricos e representações, uma delas na rua Barata Ribeiro, 349, bairro de Copacabana. Se aventurou como empresário, mas seu negócio faliu. Depois do fracasso, resolveu investir no umbigo do capitalismo, em ações da Bolsa de Valores. Em um suposto golpe de sorte, ficou rico. Uma baita ironia para um camarada comunista bem treinado e convicto. Morava na rua Constante Ramos, número 70, apartamento 501. Frequentava o mundo dos magnatas e políticos brasileiros e da América Latina. Convidava o presidente Juscelino Kubitschek para almoços e conhecia de perto o seu círculo íntimo. Ficou até o ano de 1960, quando desapareceu repentinamente. Não há nenhuma foto dele nos jornais do Rio de Janeiro ou menção ao seu nome falso. Voltou para a URSS, onde é considerado um “herói” do serviço secreto.


Imagem 9. Propaganda da União Elétrica. Diário de Notícias. 1951. Arte do jornal. Acervo BNRJ.
Imagem 9. Propaganda da União Elétrica. Diário de Notícias. 1951. Arte do jornal. Acervo BNRJ.

Para finalizar, é preciso enfatizar dois pontos. Primeiramente, ao contrário do que nos fizeram acreditar durante décadas, não se tratava, enfim, de “paranoia anticomunista”, de que fulano estava “vendo comunista debaixo da cama”. Era tudo verdade, mas era tratado como “teoria da conspiração”, como forma de dissimulação, ridicularização e de desconversa. Segundo ponto, alguns colaboradores, agentes “sérios e verificados”, expulsos do serviço público, a despeito de suas traições, foram compensados financeiramente pelo governo brasileiro. As indenizações retroativas custaram aos brasileiros milhões de reais, além de outro tanto de dinheiro em pensões pagas mensalmente, reajustáveis, conhecidas ironicamente como “bolsa ditadura”.

 

_________

BNRJ = Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.

 

 

Flavio Santos


 
 
 

Comentários


©2024 Revista do Villa    -    Direitos Reservados

Política de Privacidade

bottom of page