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Revista do Villa

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Reflexões III. Filtro, entre o real, o digital e o essencial

Em tempos de  imagens instantâneas e aparências cuidadosamente construídas, o filtro tornou-se um dos símbolos da era digital. Mas o termo, hoje associado a aplicativos e redes sociais, tem uma origem muito mais antiga e concreta do que se imagina.



A palavra “filtro” vem do latim filtrum, que designava o pano de feltro usado para coar líquidos e separar impurezas. Com o passar dos séculos, o conceito se expandiu: passou a significar qualquer meio de seleção — seja física, simbólica ou emocional.


Nas redes sociais, o filtro cumpre o papel de embelezar e editar o olhar. Ele suaviza imperfeições, intensifica cores e constrói uma realidade visualmente idealizada. 


Entretanto, o ato de filtrar não precisa ser sinônimo de falsidade. Longe das telas, o mesmo conceito pode representar sabedoria emocional. Filtrar é também selecionar o que merece permanecer: momentos, pessoas e sentimentos.Em um mundo hiperconectado e cheio de estímulos, aprender a “filtrar” é uma forma de cuidado. Isso significa não permitir que tudo — especialmente o que faz mal — atravesse o campo da atenção e da energia pessoal.

 Precisamos aprender a filtrar situações e pessoas que de alguma maneira, extraem a nossa energia, as vezes, até de maneira imperceptível.


No fim das contas, o filtro é mais do que um efeito visual. É um gesto ancestral de preservação e escolha, das emoções de quem vive o século XXI.


Na arte, fotografia, pintura e cinema, o filtro sempre foi um aliado da expressão. Muito antes dos aplicativos digitais, artistas já utilizavam filtros físicos — lentes, vidros coloridos, camadas de tinta ou iluminação — para manipular a luz e provocar sensações. Na pintura, o uso de véus translúcidos e tonalidades filtradas modificava a atmosfera da obra; na fotografia, filtros de cor e contraste ajudavam a traduzir emoções invisíveis ao olhar cru. No cinema, diretores recorrem a filtros ópticos e digitais para sugerir tempo, memória ou sonho. Em todos esses casos, o filtro não oculta: ele interpreta a realidade, convidando o público a ver o mundo através de um outro olhar — mais sensível, subjetivo e poético.


 No universo das molduras e da decoração, no meu caso, o conceito de filtro também se manifesta — ainda que de forma mais sutil. Ao escolher uma moldura, o artista ou o curador decide como o olhar do público será conduzido até a obra. O filtro, nesse caso, está na cor, na textura, no material e até na espessura do contorno que cerca a imagem. Uma moldura clara pode iluminar e expandir a percepção do quadro; uma escura, ao contrário, filtra a luz e concentra a atenção no centro. Nas molduras contemporâneas, o uso de vidros especiais, filtros UV e películas antirreflexo cumpre dupla função: proteger e valorizar a obra. Assim como nas redes sociais, o filtro aqui não serve apenas para embelezar — mas para preservar e direcionar o olhar.


E ainda, refletindo sobre filtros em crianças:


Diferente do mundo adulto, acelerado e fragmentado, a criança constrói seus filtros internos — emocionais, cognitivos e afetivos — a partir da experiência direta com o mundo real. O uso excessivo e precoce de celulares e telas interfere nesse processo, estimulando respostas rápidas, dispersas e artificiais, antes que esses filtros estejam plenamente formados.


É essencial  oferecer alternativas vivas. Ensinar a criança a habitar o próprio corpo e o próprio tempo. Brincar livremente, correr, pular, subir em árvores, andar de bicicleta, explorar o espaço, observar insetos, nuvens e folhas. Nessas experiências, a criatividade floresce e a imaginação se fortalece.


O contato com os livros, os museus, o teatro e outras manifestações culturais amplia o repertório simbólico da criança, criando vínculos profundos com a arte, a escuta e o pensamento crítico. Ao invés do estímulo contínuo das telas, a infância precisa de pausas, silêncio, descobertas e encantamento.


Preservar a infância é garantir que a criança viva plenamente cada etapa, com tempo para sentir, criar e sonhar — antes de ser convocada a responder ao mundo digital que, cedo ou tarde, chegará.


Por SUSI SIELSKI CANTARINO

Artista visual, produtora, diretora da Galeria Metara


Susi Cantarino


 
 
 

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