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Quanto mais se conhece o vinho, melhor se bebe?

7 de out.
8 min de leitura

Entre sabores, histórias e descobertas, o conhecimento transforma a relação com o vinho sem tirar

a leveza e o prazer de beber.


Crédito da imagem: ©Gemini/Gerado por IA
Crédito da imagem: ©Gemini/Gerado por IA

Há um momento instigante e curioso na vida de quem gosta de vinho. No começo, escolhemos a bebida pela uva, pelo país, por uma indicação de um amigo ou por aquela etiqueta sóbria e elegante que parece prometer alguma coisa especial. Depois de algum tempo, isso já não basta – porque refinamos nossa capacidade de escolha. Queremos saber quem fez aquele vinho, em que condições foi engarrafado, de onde ele veio, como foi aquela safra e por que duas garrafas produzidas com a mesma variedade podem ser tão diferentes. O mundo do vinho parece ter um imã para especificidades.


É quando percebemos que beber vinho pode ser também uma maneira de conhecer histórias, lugares, pessoas e até as transformações do nosso tempo, tudo isso se torna ainda mais fascinante. Pegando a deixa dessa última palavra, tenho o hábito de usar a palavra “alucinante” quando me refiro a algo que me deixa perplexo – então noto que o interesse pelo vinho abre portas cada vez mais interessantes e descortina outros interesses que dão cor e sabor ao nosso cotidiano e jornada. Você pode conferir no livro “A minha taça cheia” (escrito por mim Evandro Martini) o quanto o vinho vai requerendo mais a cada dia – de palavras a decisões.


Voltando ao nosso tópico, neste post da Revista do Villa, vamos ver que há dezenas de milhares de rótulos disputando espaço no mundo. Para quem está diante de uma prateleira de oferta de vinhos, porém, a abundância nem sempre facilita a escolha – experimente paras um dia perto do setor de vinhos em um supermercado ou adega – de vez em sempre haverá alguém com muitas dúvidas rondando o local de exposição das garrafas – numa indecisão como se estivesse em frente a uma vitrine de um produto desconhecido. Certamente aquela pessoa estará num momento de incerteza – escolho pelo rótulo ou pela beleza da garrafa? Para os iniciantes – o começo é algo parecido com isso. Quanto maior a oferta, mais difícil distinguir o que realmente merece atenção. É justamente aí que informação e conhecimento fazem diferença.

Não se trata de transformar cada consumidor em sommelier. Trata-se de descobrir o que existe além da garrafa – mostrar o que de fato deve ser considerado ao escolher um vinho independentemente do objetivo ou ocasião.


O VINHO COMEÇA ANTES DA ROLHA

Uma das maneiras mais interessantes de conhecer um vinho é olhar para aquilo que normalmente não aparece na taça – o que está velado – não perceptível – importa captar o que está “implícito”. 

Uma vinícola familiar que atravessou quatro gerações, um produtor que decidiu recuperar uma variedade quase esquecida, uma colheita antecipada por causa de uma onda de calor ou uma pequena parcela de vinhedo que recebe tratamento diferente das demais podem explicar muito mais sobre um vinho do que uma longa sequência de descritores aromáticos – com termo tão técnicos que veriam trazer um glossário da área no pacote da compra.

O vinho é resultado de escolhas.

Quando colher? Quanto produzir por planta? Fermentar em aço inoxidável, concreto ou madeira? Usar barris novos ou antigos? Interferir mais ou menos durante a vinificação?

Conhecer essas decisões não diminui o prazer. Frequentemente, acontece o contrário. A bebida deixa de ser apenas um produto e passa a carregar uma narrativa – vinho e leitura parecem manter uma relação de interdependência. Mas convenhamos – normalmente bom gosto e bom senso caminham juntos mesmo. 


APRENDER SEM TRANSFORMAR A MESA EM SALA DE AULA

O universo do vinho detém um vocabulário próprio, e ele pode ser instigador. Acidez, tanino, corpo, terroir, fermentação malolática, bâtonnage, estágio sobre as borras...

O problema começa quando o conhecimento vira instrumento de intimidação – quando acua a pessoa interessada em vez de gerar proximidade.

É perfeitamente possível apreciar vinho sem identificar “notas de grafite, couro e caixa de charuto”. Aliás, duas pessoas podem experimentar a mesma garrafa e perceber aromas diferentes – isso é absolutamente comum. Nossa memória olfativa é construída pelas experiências que acumulamos durante a vida – o mesmo pode acontecer com perfumes e até mesmo aromas no mundo da gastronomia.

Aprender sobre vinho deveria ampliar a curiosidade, não estabelecer uma prova – avaliar não significa colocar prós e contras em uma prancheta avaliativa sob um olhar mais acusador do que compreensivo e aberto a experiências singulares.

Saber que a acidez ajuda a explicar aquela sensação de frescor, compreender por que determinados tintos parecem secar a boca ou perceber o efeito da madeira sobre aromas e textura pode tornar a experiência mais interessante. Mas nada disso deveria eliminar uma pergunta muito mais simples: eu gostei deste vinho? Qual seria a sua resposta diante desse questionamento?

Conhecimento é ferramenta para várias áreas do saber – conhecimento instrumentaliza, não elabora uma sentença. 


UMA VIAGEM TAMBÉM PODE COMEÇAR PELA GARRAFA

Poucos produtos carregam uma relação tão evidente com o lugar de origem quanto o vinho – de fato a origem de um vinho tem muita relevância na escolha deste ou daquele.

Abrir uma garrafa pode ser uma espécie de viagem de mesa – um universo a ser desbravado. Algumas vezes me permito divagar e imagino como seria se cada um de nós tivéssemos uma galáxia para cuidar. Não se preocupe aparentemente estou com a terapia em dia – mas noto que vinhos abrem portas para universos paralelos porque nos permite saber do que gostamos e do que não fazemos questão nenhuma de estabelecer contato ou aproximação.


No que se refere a essa viagem de mesa, Borgonha não é apenas Pinot Noir. Mendoza não é apenas Malbec. Douro não é apenas vinho do Porto. Serra Gaúcha, Campanha, Vale dos Vinhedos, Altos de Pinto Bandeira e tantas outras regiões brasileiras também possuem paisagens, gastronomia, clima, tradições e maneiras particulares de produzir – e a cada nome citado poderíamos ampliar nossa narrativa para histórias intrigantes que poderiam gerar uma série de discussões e até investigação para fatos contados de diversas perspectivas.


Quando conhecemos o território, começamos a entender melhor aquilo que encontramos na taça – isso nos faz perceber as especificidades de tudo que permeia uma das bebidas mais procuradas e desejadas por muitos.

É por isso que uma boa história sobre vinho pode falar também sobre restaurantes, mercados, estradas, arquitetura, famílias, receitas locais e paisagens. O vinho funciona como uma porta de entrada para a cultura de uma região -  ele amplia repertórios.

E há algo especialmente prazeroso nisso: podemos conhecer um lugar antes mesmo de comprar a passagem – de novo, este assunto poderia se desdobrar para mais eventos e diversificar este post blog.


SAFRAS CONTAM HISTÓRIAS

Quem já guardou algumas garrafas sabe que números impressos discretamente no rótulo podem esconder acontecimentos importantes. 

Um ano muito quente não produz necessariamente o mesmo vinho que um ano fresco. Chuvas próximas à colheita podem mudar decisões no vinhedo. Secas prolongadas, geadas, granizo e ondas de calor desafiam produtores e influenciam estilos. 

Por isso, falar de uma garrafa sem falar, às vezes, de seu ano de nascimento é contar apenas metade da história.

Essa perspectiva se torna ainda mais relevante diante das mudanças climáticas. Regiões tradicionais estão revendo práticas, experimentando outras variedades e alterando datas de colheita. Áreas antes consideradas frias demais para determinadas uvas começam a despertar interesse.

O mapa do vinho pode nos levar também a histórias diferentes – no meu caso, muito do que vive aconteceu na Itália. Em meu livro “A minha taça cheia”, há uma história que vivi no final de uma vindima. Foi tão intenso aquele tempo que acabou virando o capítulo do meu livro. Gastei 30 anos da vida pensando em como escrever a obra – e no meio dela um capítulo foi destinado à festa ao final da colheita – tudo porque o vinho pode marcar uma história ou várias delas. 


QUANDO COMIDA E VINHO TRAVAM UMA CONVERSA

Outra maneira de abandonar a solenidade é levar o vinho de volta ao lugar ao qual sempre pertenceu: à mesa.

Harmonização não precisa significar uma lista rígida determinando qual garrafa pode acompanhar determinado prato. Há princípios que ajudam — acidez, intensidade, gordura, doçura, sal, textura —, mas existe enorme espaço para experimentar. Você pode conferir parte desse assunto em meu artigo 

“Com o que o vinho branco combina? 


Leia também: Com o que o vinho branco combina? Descubra essa bebida fascinante


Uma receita de família pode ser um ponto de partida tão interessante quanto um prato sofisticado.

Feijoada, moqueca, churrasco, barreado, massas, peixes, queijos ou uma comida simples de domingo oferecem oportunidades para descobrir combinações. Às vezes, inclusive, a experiência mais memorável surge de uma harmonização improvável – de um momento em que algo foi pensado e elaborado rapidamente.

A pergunta deixa de ser “qual é o vinho correto?” e passa a ser “o que acontece quando coloco esses dois sabores juntos?”.


VOCÊ PODE ENCONTRAR PACIÊNCIA EM UMA ADEGA

Com o tempo, muitos apreciadores começam a guardar garrafas.

Então surgem novas perguntas. Quais vinhos realmente melhoram com os anos? Quanto tempo esperar? Qual temperatura é adequada? É preciso ter uma adega climatizada? E, talvez a pergunta mais angustiante de todas: quando abrir aquela garrafa especial? Existe essa proposta de quanto mais antiga a garrafa, melhor o vinho?

Nem todo vinho nasceu para envelhecer. A maioria foi produzida para ser consumida relativamente jovem. Outros, entretanto, podem ganhar complexidade ao longo dos anos.

Guardar vinho é observar o tempo trabalhando. Uma adega pode nos ensinar sobre paciência. 

Mas existe um risco curioso nessa prática: esperar tanto pelo momento perfeito que ele nunca chega. Uma garrafa extraordinária aberta em uma terça-feira qualquer, com alguém de quem gostamos, talvez produza uma lembrança melhor do que aquela guardada indefinidamente para uma ocasião ideal – justamente IDEAL – algo que fica somente no campo das ideias e nunca venha a ser efetivamente vivido. 


O VINHO TAMBÉM ESTÁ MUDANDO

Talvez seja esse o conhecimento mais interessante para quem acompanha esse universo há muitos anos: o vinho não ficou parado.

Sustentabilidade, mudanças climáticas, agricultura regenerativa, vinhos de mínima intervenção, novas regiões produtoras, espumantes brasileiros, variedades pouco conhecidas, embalagens alternativas e vinhos com menor teor alcoólico estão provocando discussões que dificilmente apareciam com a mesma intensidade algumas décadas atrás. Há artigos que estão mostrando como a Geração Z está mudando a forma de consumir vinho. Há combinações extremamente inesperadas – mas que estão formando fila pra distribuição de senha – porque há um crescimento nessa modalidade de consumo das novas gerações.

Até a maneira de falar sobre vinho está mudando.

A velha imagem de um universo cercado de regras, cerimônias e especialistas capazes de determinar aquilo que alguém deveria gostar vem perdendo espaço para uma cultura mais aberta à descoberta. Há quem diga que estão removendo o vinho do pedestal. Algo a pensar! Nunca faço nada, nunca afirmo nada sem antes pensar. 

E talvez essa transformação seja saudável. Sobretudo isso nos permite pensar – pois nos limitemos a pensar sobre – esta é a minha proposta.

Depois de muitos anos bebendo vinho, podemos chegar a uma conclusão aparentemente contraditória: quanto mais aprendemos, menos precisamos demonstrar que sabemos.

Passamos a perguntar mais. Comparamos safras. Procuramos produtores. Descobrimos regiões. Experimentamos uvas desconhecidas. Abrimos aquela garrafa guardada há anos. Erramos harmonizações — e algumas vezes descobrimos que o “erro” ficou delicioso. Já vivi  tantas emoções e engoli outras tantas – que prefiro pensar a afirmar algo. 

Porque conhecimento sobre vinho não deveria servir para tornar a bebida mais complicada.

Deveria fazer exatamente o contrário.

Deveria nos dar mais motivos para abrir uma garrafa.


Evandro Martini


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