Ouro Negro e o Destino Manifesto: A Genética do Petróleo na Alma Americana
- Gilson Romanelli

- 6 de jan.
- 3 min de leitura

A imagem de um cavalo mecânico solitário sob o sol escaldante, ladeada pela bandeira listrada e o horizonte árido do Monument Valley, resume mais do que uma indústria; resume uma mitologia.
A frase "Sempre foi assim" não é apenas um título, é um diagnóstico. Para entender a geopolítica moderna, é preciso dissecar o que parece ser o "DNA" dos Estados Unidos: uma fixação quase biológica pelo petróleo, o combustível que transformou uma ex-colônia na maior potência do planeta.
A Gênese da Ganância: Os Reis do Petróleo
Essa "tara" pelo petróleo não nasceu por acaso. No século XIX, o desabrochar da Revolução Industrial encontrou em solo americano o cenário perfeito para a ascensão de figuras que moldariam o capitalismo moderno.
John D. Rockefeller: O patriarca da Standard Oil não apenas extraiu óleo; ele sistematizou a ganância. Ao controlar 90% do refino nos EUA, Rockefeller estabeleceu o arquétipo do magnata americano: a busca pelo monopólio absoluto sob o pretexto de "ordem" no mercado.
A Corrida do Ouro Negro: Das planícies da Pensilvânia ao Texas, a busca pelo petróleo tornou-se uma extensão do
"Destino Manifesto". Se antes a missão era conquistar terras de mar a mar, agora era perfurar o mais fundo possível para alimentar a fome insaciável de progresso.
Geopolítica de Sangue: O Petróleo como Vetor de Guerra
Com o passar das décadas, a necessidade de garantir o fluxo ininterrupto de energia transformou a política externa americana em uma extensão do departamento de logística das petrolíferas. O século XX e o início do XXI foram marcados por intervenções onde o cheiro de pólvora se misturava ao de hidrocarbonetos:
O Oriente Médio: Da derrubada de Mossadegh no Irã (1953) às invasões no Iraque, o objetivo raramente foi a "democracia", mas sim a estabilidade de preços e o controle das reservas.
Doutrina Carter: A declaração formal de que qualquer tentativa de forças externas de ganhar o controle da região do Golfo Pérsico seria considerada um ataque aos interesses vitais dos EUA.
O petróleo deixou de ser um recurso para se tornar uma razão de Estado, justificando guerras preventivas e alianças moralmente questionáveis.
O Olhar Faminto sobre a Venezuela
A fixação não arrefeceu com o tempo; ela apenas mudou o foco. Atualmente, os olhos das gigantes como ExxonMobil e Chevron estão fixos na bacia do Orinoco, na Venezuela — detentora das maiores reservas provadas do mundo.
As sanções econômicas, as pressões diplomáticas e o apoio a mudanças de regime no país vizinho são vistos por muitos analistas como a versão contemporânea das guerras do século passado. A estrutura está pronta: as petroleiras americanas possuem a tecnologia e o capital; falta apenas a "abertura" política para que o DNA extrativista volte a operar em solo sul-americano, sob a justificativa de "segurança energética ocidental".
Um Instinto que não se Extingue
Dizer que o petróleo está no DNA americano é reconhecer que a própria identidade da superpotência foi construída sobre a queima de combustíveis fósseis. Das fortunas de Rockefeller às manobras de Wall Street, a "ganância" citada não é apenas um pecado individual, mas um motor sistêmico.
Enquanto o mundo discute a transição verde, a infraestrutura — física e psicológica — dos Estados Unidos continua ancorada no cavalo mecânico da imagem. A tara pelo ouro negro não é uma fase; é o alicerce de um império que ainda não aprendeu a existir sem o que extrai das profundezas da terra.
Gilson Romanelli

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