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Revista do Villa

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O que fazer quando ganhamos uma garrafa de vinho

Ganhei um vinho de presente, mas não sei em que ocasião devo abrir a garrafa


Aventura em uma garrafa: desvendando o Ripasso della Valpolicella

 

Nos últimos dias, fui pego de surpresa por uma situação curiosa: uma amiga ganhou um vinho de presente e me perguntou em que ocasião ela poderia abrir a garrafa.

 

A resposta óbvia, "abra e desfrute", me pareceu primária demais. Em razão do meu temperamento que não gosta de coisas simples, resolvi complicar um pouco e, de quebra, apresentar a Ana Paula ao fascinante mundo do vinho.

 

Para tanto, pedi uma foto da tal garrafa. Em instantes, recebi a imagem de um tinto imponente: um Ripasso della Valpolicella. Nada mal para um presente. E que presente ela ganhou, mal sabia ela dos detalhes desse vinho.



Puxa vida, não poderia ter sido uma garrafa menos emblemática? Agora, eu tinha que ir além de respostas corriqueiras, acompanhando-a pelos caminhos a serem explorados por este vinho e pela amizade que nos une.

 

Na verdade, comecei a pegar o fio que conduzia tudo isso – ela ganhou o vinho da agência de turismo que está cuidando de tudo relacionado à próxima viagem que ela tem planejada com o esposo. Nada menos que a terra do vinho. Para minha surpresa (e responsabilidade), a Ana Paula, curiosa por natureza, revelou que ela e o marido têm planejada uma viagem à Itália no ano que. Então, ela queria muito mais que uma ocasião para beber o vinho – ela queria entender a história daquele vinho para saborear com uma peculiaridade de futura expert no assunto.

 

De repente, a tarefa simples de sugerir um "abra e beba" se transformou na chave para desvendar e explicar uma história milenar de forma simples, objetiva e bonita para um leigo. Afinal, eu não acredito em um mundo onde a beleza é desprezada.

 

O BERÇO DO RIPASSO: VALPOLICELLA

 

Comecei a compartilhar meu conhecimento sobre a região italiana do Vêneto, onde esse vinho, notável por sua técnica, é elaborado. A sub-região é a Valpolicella.

 

Conta a lenda que os romanos, ao conquistarem as colinas do Nordeste italiano, depararam-se com inúmeras vinícolas dispostas nos vales entre o rio Adige (que corta a cidade Verona) e a cadeia pré-alpina. Foi assim que batizaram o local de "Vales das muitas vinícolas": valli (vales), poli (muitos) e cella (lugar onde se faz ou se guarda o vinho). Isso demonstra que a região, super-adaptada a uvas de qualidade, produz vinho há mais de dois mil anos.

 

O terroir da Valpolicella é singular: as colinas, o frescor dos ares alpinos, a pureza da água que desce das montanhas e um solo de ótima drenagem. A exposição solar pode ser controlada com vinhedos nas encostas leste ou oeste. Este cenário abrangente oferece aos produtores a possibilidade de criar uvas da mais alta qualidade.

 

A TÉCNICA ÚNICA: O "RIPASSO" 


As uvas Corvina, Molinara e Rondinella são as responsáveis pela criação do Ripasso. O que o torna especial é a sua técnica de vinificação, que é, de forma muito sucinta, o aproveitamento digno das cascas e sementes do seu "irmão mais velho" e nobre: o Amarone della Valpolicella.


O Amarone é feito com esse mesmo trio de uvas, mas que são secadas em esteiras ou pequenas caixas por meses em galpões ventilados, para concentrar açúcar e sabor, antes de serem fermentadas.

 

O método Ripasso é uma segunda fermentação: logo após a retirada do vinho Amarone das cascas ele é colocado nos barris para amadurecimento, então o vinho "fresco" da Valpolicella é posto em contato com elas. Em contato se entende que serão misturadas nos tonéis de aço. Esse procedimento de "repassagem" (daí o nome Ripasso, que significa "repassar" ou "reprocessar") aproveita o açúcar residual, os taninos e os sabores remanescentes nas cascas do Amarone.

 

Degustação e harmonização

 

Fico pensando na pessoa que presenteou a Ana Paula. Essa agência de turismo tem um sommelier entre os colaboradores e não sabe. Um Ripasso, especialmente no Brasil, denota um ótimo gosto e um cuidado em tornar o presente exclusivo. É um gesto que reforça os laços de amizade com uma sutileza que permanece na memória.


O que esperar na degustação?


  • Aromas: um desfile de frutas vermelhas, como cerejas maduras e amora, misturado a notas mais complexas para os narizes treinados, como frutas secas, couro e tabaco.

  • Na boca: é um vinho amável e aconchegante, relativamente mais doce e fácil de gostar. As frutas vermelhas maduras criam uma festa, mas o retrogosto revela a potência marcante do Ripasso. Este ligeiro amargor, mixado com as notas doces, é o seu grande charme.


Harmonização: por ser um vinho com certa robustez, ele pede pratos mais fortes.

  • Na Itália, eu iria de cordeiro.

  • No Brasil, sugiro carne assada ou pratos robustos e temperados, como uma costela assada por horas ou um delicioso mignon ao molho funghi.


O que importa, no fim, é o momento em que esta garrafa será aberta. Qual "besta" sairá deste conjunto de trabalhos e retrabalhos: um ser domesticado, dócil e refinado, ou um brutamontes desengonçado? Qual monstro será criado com toda as tramas e engenhosidade que essa demanda requer?


Essa curiosidade, somente minha amiga e seu esposo vão saber. Vou torcer para que ela me convide para o dia em que, finalmente, toda essa saga descritiva tenha fim e ela então prove que tudo que contei é a mais pura das verdades. De fato, eu gostaria é de beber com eles, mas ser invasivo não é o meu forte!


Viva de modo intenso e beba lentamente.

 

Evandro Martini

 
 
 

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