“O Mundo é Uma Ilusão”
- Alex Gonçalves Varela

- 15 de jan.
- 3 min de leitura
Estreou Las Choronas no teatro do CCBB-RIO 2.

O espetáculo é um produto da união das companhias Pigmalião Escultura que Mexe, Cia 5 Cabeças e Mulher que Bufa. Juntos transforma
ram a cena vencedora e mais votada do Festival de Cenas Curtas do Galpão Cine Horto 2022 em um espetáculo teatral inédito.
O texto de Byron O’Neill é contemporâneo, crítico, reflexivo, provocativo, caminhando entre o teatro do absurdo e o surrealismo, não-linear, fragmentário, estruturado em sketches que tratam de diversos temas como epidemias (de dança, de riso), liberdade, exclusão, manipulações, abandono, amor, estética, medo da morte, finitude, fome, entre outros, todos atrelados à uma profunda reflexão sobre a questão do existencialismo humano.
No nosso ponto de vista, o texto fica pouco compreensível quando há cenas apresentadas em outro idiomas que não o português. Quem não tem domínio do francês ou do italiano não consegue entender o que é dito, e acaba perdendo a lógica do texto. Este é um ponto negativo da apresentação.
A direção de Byron O’Neill é competente e bem realizada ao conseguir unir com sucesso atores, teatro de bonecos, dança, música e libras como linguagem dramatúrgica central, em uma experiência sensorial e sensível.
O elenco integrado por Aurora Majnoni, Carol Oliveira, Eduardo Felix, Joyce Malta, Liz Schrickte, Uziel Ferreira e Tom Forato, tem uma atuação comovente e digna de aplausos. Eles interpretam de forma correta, e também emocionam. Eles dançam, cantam, realizam gestos e expressões. Estão coesos, afinados e entrosados. Manipulam os bonecos, e também são manipulados por eles. Dominam o texto, transmitindo com clareza, bem como o palco, se movimentando intensamente e preenchendo todos os espaços. Portanto, uma atuação digna de elogios e aplausos.
Vale ressaltar que a direção incluiu Libras no espetáculo, realizada pelo ator Uziel Ferreira, intérprete de libras e libras musical, procedimento que funciona de forma adequada, e facilita a compreensão para pessoas não ouvintes. Nesse espetáculo o intérprete de Libras não está na parte lateral externa do palco, mas inserido nele junto com os artistas e participando da apresentação.
Além do atores humanos, há os bonecos criados por Aurora Majnoni, Eduardo Felix, Mauro Carvalho e Tom Forato. A produção da bonecaria é bem realizada, criativa e original. Os atores manipulam os bonecos, bem como são manipulado por eles, em um jogo visual instigante e provocador, chamando a atenção do público para as fronteiras entre humano e objeto, entre som e gesto, entre ouvir e ver.
No nosso ponto de vista duas sketches ganham maior expressividade.
A primeira, a da epidemia de dança, por nos presentear com o aspecto visual da Aurora, em toda sua imponência visual. E também por Aurora não conseguir para de dançar e ir à praça pública, para num momento de total liberdade, convidar a todos os agentes sociais marcados pela exclusão, como loucos, mendigos, vadios, meretrizes, ambulantes entre outros, para juntos dançarem. Momento de inclusão, de confraternização.
A segunda sketch que, no nosso ponto de vista, merece destaque foi a das duas amigas na academia de ginástica, mesclando atores e bonecos. Apresentação descontraída e bem humorada.
A cenografia e figurinos são de Eduardo Felix.
Os figurinos são adequados, de bom gosto, imperando os tons preto e vermelho, e facilitam o deslocamento dos atores pelo palco.
A cenografia é composta por um piso que é um tabuleiro de xadrez. Por sua vez, numa imagem visualmente bonita, há uma atriz suspensa inserida num imenso vestido vermelho, e que possui asas. Ela é a Aurora, a manipuladora. Quando ela abre as asas e movimenta-as causa um impacto visual emocionante. Os atores há reverenciam, com frequencia olhando-a, e ela manipula, em uma cena, as meninas Liz e Carol, até o momento em que Aurora corta os fios que as ligavam, e as duas ganham liberdade.
A iluminação criada por Marina Arthuzzi e Wellington Santos apresenta um bonito desenho de luz, realça a interpretação dos atores de seus personagens, e varia de acordo com cada cena e o contexto do assunto.
A trilha sonora criada por Las Choronas é adequada, e cada música selecionada está relacionada ao contexto da cena. Como exemplo selecionaram Cauby Peixoto e a canção Bastidores, com seu famoso verso: “Chorei, Chorei, até ficar com dó de mim...”, para dançar uma valsa e afogar as mágoas.
Ótima produção cênica!
Alex Varela

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