O grito silenciador de Gerson, um em espelho da falência na saúde mental
- Gilson Romanelli

- 3 de dez. de 2025
- 3 min de leitura


O trágico desfecho da vida de Gerson de Melo Machado, o "Vaqueirinho" de 19 anos, no Parque Zoobotânico Arruda Câmara (Bica) em João Pessoa, após invadir a jaula da leoa Leona, é um soco no estômago da sociedade. Não é apenas uma fatalidade; é um sintoma doloroso e visível da invisibilidade a que são relegados tantos jovens com transtornos mentais, marcados pela vulnerabilidade social e pela falta de uma rede de apoio efetiva.

As imagens do rapaz, pouco antes do ocorrido, o seu histórico de 16 passagens pela polícia (dez como menor), os transtornos mentais diagnosticados (esquizofrenia), e o desabafo de quem o acompanhou sobre uma "tragédia anunciada" ecoam como um lamento coletivo. O aperto no peito, a pergunta "Por que eu não fiz nada?", e a vontade de simplesmente abraçar e dizer: "Vamos para casa, menino, nós vamos cuidar de você", são a manifestação crua de um sentimento de impotência que nos invade.

O Fio da Meada Que se Rompeu

Gerson era, segundo os relatos, um jovem que a Justiça havia determinado a internação, que havia frequentado o Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) por vezes, mas que "deixava de frequentar" e retornava à rua. É um ciclo cruel que revela as fissuras profundas do nosso sistema:
A Falta de Cuidado Integral: Não basta o diagnóstico; é preciso um cuidado contínuo, monitorado e, principalmente, ancorado em uma forte rede de suporte social. A vulnerabilidade familiar e a exclusão social agravaram um quadro que, com a assistência adequada e ininterrupta, poderia ter sido gerenciado de outra forma.
O Desafio dos CAPS: Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) são a espinha dorsal da Reforma Psiquiátrica e da Lei Antimanicomial (Lei nº 10.216/2001). Eles representam o modelo de cuidado em liberdade, buscando a reintegração social. No entanto, o caso de Gerson nos força a questionar:
Quantos CAPS estão sobrecarregados?
A atenção oferecida é realmente suficiente e acessível a quem mais precisa, como moradores de rua ou pessoas com vulnerabilidade extrema? A busca ativa e o acompanhamento de quem "evade" estão funcionando como deveriam?
A Urgência da Lei Antimanicomial e a Realidade dos CAPS
A Lei nº 10.216/2001 (Lei da Reforma Psiquiátrica) tem como pilar a proteção dos direitos das pessoas com transtornos mentais e o fim progressivo dos manicômios, substituindo-os por uma Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) centrada nos CAPS, Serviços Residenciais Terapêuticos (SRT), e na Atenção Básica.
A luta antimanicomial não é apenas contra os hospitais psiquiátricos, mas a favor de um cuidado humanizado, em rede e no território. Entretanto, mais de duas décadas após a lei, enfrentamos um cenário de subfinanciamento, descontinuidade de políticas públicas e, por vezes, de retrocessos. O caso de Gerson nos mostra que a existência formal dos serviços não garante, por si só, a eficácia do cuidado, especialmente para aqueles que não possuem laços familiares ou rede de apoio para garantir a adesão ao tratamento.
A Repulsa Social e a Falha Coletiva
O que choca ainda mais são os depoimentos horrendos nas redes sociais, comemorando a morte do jovem. Essa repulsa e a crueldade digital não são apenas falta de empatia, mas o reflexo de um problema maior: a estigmatização e a desumanização da pessoa com transtorno mental e daquele em situação de rua ou com histórico criminal. É fácil julgar e procurar culpados. É cômodo lamentar com discursos bonitos. Mas, a verdade é que Gerson não era apenas um "invasor", mas um jovem doente que não conseguiu ser acolhido e cuidado pelo Estado e pela sociedade em sua totalidade.
O Que Fazer Pelos "Vaqueirinhos" de Hoje?
Não podemos abraçar Gerson agora, mas podemos agir por tantos outros "Vaqueirinhos" que estão pedindo socorro em silêncio ou em crise. O único caminho para honrar sua memória é ir além da comoção passageira:
Fortalecer a RAPS: Exigir mais investimentos e a qualificação dos CAPS, com equipes multidisciplinares completas e capacidade de busca ativa e acompanhamento intensivo para os casos de maior vulnerabilidade.
Combater o Estigma: Promover a educação e a conscientização sobre saúde mental, combatendo o estigma que marginaliza e impede a busca por ajuda.
Responsabilidade Compartilhada: Cobrar políticas públicas Inter setoriais que envolvam Saúde, Assistência Social, Justiça e Habitação, para que pessoas com transtornos mentais e em situação de rua tenham moradia e segurança social. O olhar de Gerson saindo da viatura é o olhar de todos os invisíveis. Ele não precisa de lamentações políticas, mas de uma sociedade que finalmente cumpra sua promessa de cuidado e dignidade. A dor sentida ao escrever sobre isso é a prova de que ainda há humanidade, e é essa dor que deve nos mover da paralisia para a ação urgente.
Gilson Romanelli
Jornalista

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