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O Equilíbrio entre a Justiça e o "Fígado": A Transferência de Bolsonaro para a Papudinha


​A política brasileira atravessa um de seus capítulos mais dramáticos. A recente transferência do ex-presidente Jair Bolsonaro para o 19º Batalhão da Polícia Militar, a popular "Papudinha", no complexo da Papuda, não é apenas um movimento logístico de execução penal. É um evento carregado de simbolismo que nos obriga a refletir: onde termina a aplicação rigorosa da lei e onde começa o que muitos percebem como uma "justiça de revanche"?


O Reconhecimento da Culpa e a Necessidade de Punir


​Para analisar este momento com honestidade intelectual, é preciso separar a pessoa da conduta. É legítimo considerar que houve, de fato, uma tentativa de golpe orquestrada pelo ex-presidente e seu entorno. A democracia brasileira foi testada ao limite, e a impunidade seria um convite a futuras aventuras autoritárias. A defesa da não anistia aos envolvidos é, portanto, uma posição em defesa das instituições.


​Entretanto, a justiça deve ser cega, não rancorosa. Punir o erro não exige que o Estado se torne o que ele mesmo combate.


​A Questão da Proporcionalidade: Rigor ou Excesso?


​Embora a condenação de 27 anos e 3 meses em regime fechado seja baseada em crimes graves, a forma como a execução está sendo conduzida levanta sinais de alerta. A transferência para a Papudinha, após sucessivos embates entre a defesa e o STF, é vista por muitos como uma tentativa de humilhação pública que extrapola o caráter educativo da pena.


 Quando as decisões judiciais parecem ser tomadas com o "fígado" — ou, como alguns sugerem, carregadas de "bílis" — corre-se o risco de transformar o réu em mártir.


​O Ministro Alexandre de Moraes, peça central nesse tabuleiro, tem sido o baluarte da resistência democrática, mas a linha entre a firmeza necessária e o excesso pessoal é tênue. Se o objetivo era demonstrar que ninguém está acima da lei e que a dignidade do cargo não protege o infrator, esse objetivo já foi plenamente alcançado.


​Defendo que haja o retorno à normalidade e que o ex-presidente condenado, volte ao regime domiciliar. A punição deve continuar, mas o bom senso sugere uma transição. A concessão do regime domiciliar para um ex-chefe de Estado de idade avançada e com histórico de saúde delicado (agravado pelas sequelas do atentado de 2018) não seria um privilégio, mas uma medida de prudência institucional.


Evita o desgaste desnecessário de um idoso em ambiente prisional comum, ainda que em "Sala de Estado-Maior".

​Reduz os riscos de instabilidade social que uma eventual intercorrência grave na prisão poderia gerar.


​Demonstra que as instituições são fortes o suficiente para serem magnânimas, focando na lei e não na pessoa.

​Concluo meu artigo dizendo que ​o Brasil precisa fechar essa ferida para voltar a discutir o futuro. Manter Bolsonaro na Papudinha pode satisfazer o desejo imediato de justiça de uma parte da população, mas prolonga um estado de tensão que não ajuda o país a caminhar. 


​Se a intenção era humilhar, a missão já foi cumprida. Agora, é hora de a justiça voltar a ser serena, técnica e, acima de tudo, proporcional. O regime domiciliar é o caminho mais sensato para que a pena seja cumprida sem que o Estado perca a sua própria superioridade moral.


Gilson Romanelli-Jornalista


 
 
 

1 comentário


Convidado:
20 de jan.

Gilson, na ditadura estava tudo bem punir das formas mais cruéis possíveis, né? A pandemia não matou ninguém por negligência e sarcasmo? O falso tiro deve render o mais possível? A culpa deve recair toda sobre a aplicação da justiça? O engraçado é que só agora existe o problema de idade avançada. O cara faz e desfaz como bem entende dado país, das pessoas que não compactuam com suas falcatruas, rouba, investe contra o Brasil e tudo bem . Coitadinho

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