Museu do Recôncavo Wanderley Pinho
- André Conrado

- 20 de dez. de 2025
- 4 min de leitura
Instalado no Engenho Freguesia, considerado o primeiro engenho do país, o Museu ocupa um espaço do século XVI marcado pela presença indígena e pela história do trabalho escravizado.

Em 1877, 121 pessoas escravizadas atuavam no local. Herdeiro do casarão, o historiador José Wanderley Pinho — professor, prefeito de Salvador e deputado federal — propôs uma das primeiras iniciativas de proteção ao patrimônio cultural no Congresso. Embora a proposta tenha sido interrompida pela dissolução do Parlamento em 1930, o texto serviu de base para a futura legislação de proteção ao patrimônio cultural e inspirou a criação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em 1937.

O Museu do Recôncavo Wanderley Pinho, localizado às margens da Baía de Todos os Santos, na Enseada de Caboto, em Candeias, reabriu ao público este mês após uma ampla requalificação estrutural e museológica. O espaço inaugura um novo conceito, que privilegia narrativas africanas e indígenas e propõe uma reflexão crítica sobre o período colonial e escravocrata no Recôncavo Baiano.
Na capela de Nossa Senhora da Conceição da Freguesia, uma parada da comitiva para a bênção da imagem da padroeira pelo padre Juarez Machado. O governador visitou a Sacristia, onde estão imagens sacras dos séculos XVII a XIX, restauradas pela equipe do artista plástico, restaurador e professor José Dirson Argôlo.

Instalado no antigo Engenho Freguesia, tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 1940, o Museu foi criado no início da década de 1970 e ocupa um conjunto arquitetônico formado por Casa Grande, capela, antiga fábrica, receptivo náutico e edificações de apoio.

A reabertura marca uma nova fase do Museu do Recôncavo, que assume a missão de ser um espaço de diálogo e reflexão. O projeto propõe recontar a história a partir das vozes da comunidade do entorno, transformando o espaço em referência para a compreensão da diversidade e complexidade da sociedade brasileira.
A partir de um amplo trabalho de pesquisa e concepção realizado pelo IPAC, o Museu passa a contar com cinco núcleos expositivos que estruturam a história, além da Capela de Nossa Senhora da Conceição da Freguesia, com exposição de arte sacra, e o térreo para exposições temporárias de longa duração.

O Núcleo Histórico apresenta uma linha do tempo que revisita os principais marcos do Engenho Freguesia e a trajetória do próprio Museu. No Núcleo dos Povos Originários, o visitante encontra fotografias, vídeo documentário e uma intervenção artística em grafismo feita pelo artista indígena Thiago Tupinambá. O Núcleo dos Povos Escravizados reúne manuscritos do poema “Os Escravos”, de Castro Alves, digitalizados do original preservado no Parque Histórico Castro Alves (PHCA), administrado pelo IPAC em Cabaceiras do Paraguaçu.
Também há documentos históricos e totens para acesso à plataforma Slave Voyages, um banco de dados gratuito sobre o tráfico transatlântico de escravizados.
O Núcleo Doméstico apresenta mobiliário, retratos, pinturas, desenhos e uma cozinha de época, sem janelas e grandes fornos, retratando o espaço onde as mulheres escravizadas trabalhavam, preparavam a alimentação dos seus senhores e articulavam formas de resistência. Em vez de quartos e salas em estilo colonial, devidamente arrumados, a disposição do mobiliário evidencia a mão de obra de artesãos anônimos.

O Núcleo da Memória reúne objetos de suplício e tortura na Sala do Silêncio, convidando o público à reflexão. “Esta reabertura consolida nossa política de preservação e requalificação dos museus do IPAC, ao mesmo tempo em que nos convida a revisitar o passado e escutar as vozes daqueles que moldaram a história do Recôncavo e da Bahia. Aqui vamos recontar a história a partir dessa perspectiva e já estamos preparando uma série de atividades para ocupação do museu”, destaca Marcelo Lemos, diretor-geral do IPAC.
No térreo, o Museu abriga a exposição temporária de longa duração “Encruzilhadas”, que reúne obras de arte negra brasileira e africana dos acervos do Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM-BA) e
do Solar Ferrão. São 40 artistas representados, entre eles Mestre Didi, Pierre Verger, Rubem Valentim, Juarez Paraíso, Emanoel Araújo, Bel Borba, Arlete Soares e Alberto Pitta. A mostra inclui, ainda máscaras da Coleção Cláudio Masella, industrial italiano que reuniu peças de 18 etnias de 15 países.

Acervo e visitação
O acervo original do Museu do Recôncavo conta com 260 peças, entre mobiliário, indumentária, desenhos, pinturas, cerâmicas e fotografias, além de instrumentos de tecnologia rural e industrial e objetos de suplício. Destas, 141 foram restauradas por uma equipe de 15 profissionais coordenada pelo professor Dirson Argolo. Entre elas, 30 imagens sacras.

O Museu oferece visitas guiadas com monitores especializados, áudio-guia em Libras, banheiros acessíveis e áreas de descanso, além de espaços para residências e ocupações. O percurso, que inclui a Capela de Nossa Senhora da Conceição da Freguesia, tem duração média de duas horas. O equipamento funcionará de quarta a domingo, das 10 às 17h, com acesso gratuito.

Fontes:
Museu do Recôncavo Wanderley Pinho
IPAC
IPHAN
Secult
André Conrado

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