“Imagens de um c(ego)” estreia no dia 26 de fevereiro, no Teatro Glauce Rocha
- Alex Gonçalves Varela

- há 2 horas
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Espetáculo lança desafio ao público: a percepção do outro e o respeito às diferenças

O espetáculo Imagens de um c(ego) estreia no dia 26 de fevereiro, quinta-feira, no Teatro Glauce Rocha, espaço da Funarte no Centro do Rio de Janeiro. O desafio de enxergar o outro naquilo que ele é constitui o eixo central da proposta lançada ao público. Ele é convidado a um exercício de autocrítica e de revisão de seus próprios conceitos e atitudes, o que funciona como fio condutor da peça. Ela fica em cartaz até 22 de março, de quinta a sábado, às 19h, e aos domingos, às 18h.
O texto e direção de Imagens de um c(ego) são de Paula Wenke, artista multimídia e criadora do Teatro dos Sentidos, e também atriz da montagem. Esta apresenta a história de dois personagens profundamente contrastantes: Óscar, vivido pelo ator cego Oscar Capucho, é um personagem igualmente cego — e dotado de grande capacidade perceptiva. Já Boca Berreiro, interpretado por Kakau Berredo, é psicologicamente cego, narcisista e incapaz de enxergar o outro para além de si mesmo.
Eles se encontram em uma sala de testes, aguardando uma seleção para o próximo projeto da enigmática Godiva, artista superpatrocinada, que se torna famosa ao ter encontrado Elvis Presley vivo nas ilhas da Polinésia e com ele ter tido um filho. A personagem chega ao Brasil para montar um novo espetáculo musical, inspirado em seu manifesto “A naditude é a todificação do nada”, e busca atores para sua nova criação. Sua figura dá impulso aos desejos e expectativas desses dois indivíduos, cada um deles suspenso na esperança de finalmente “ganhar vida” por meio de um papel.
Apesar do objetivo comum, Óscar e Boca Berreiro rapidamente percebem o quanto pensam de modo distinto. A partir disso, são estabelecidos polos opostos, que se confrontam, em uma relação marcada por um conflito contínuo e áspero. Ela caminha das divergências mais simples às mais profundas – por exemplo, as crenças no divino. Cheio de ironias e contradições, o texto constrói um diálogo intenso — ora divertido, ora denso e, por vezes, aterrador — sobre deficiência, identidade e percepção. Tudo ocorre enquanto ambos esperam Godiva, estabelecendo uma referência direta à obra “Esperando Godot”, de Samuel Beckett.
A compreensão das diferenças
“O aspecto mais instigante de uma autora, diretora e atriz, que retorna a um espetáculo dez anos após sua estreia é perceber que não apenas a encenação se transforma, mas que os próprios personagens também evoluem. A personagem feminina, antes marcada por uma boemia que se ancorava na lembrança do poeta Baudelaire — ‘Embriagai-vos, embriagai-vos sem cessar: de vinho, de poesia ou de virtude’ — ressurge, em 2026, transfigurada em uma Guerreira Viking. São os mistérios do teatro: um território onde o tempo não apaga as figuras, mas as reescreve sem mudar as falas à luz das experiências acumuladas”, comenta a produção.
Escrita em 2016, Imagens de um c(ego) nos provoca a perceber que, na vida, as limitações impostas não têm proporção em si mesmas: todos somos, ao mesmo tempo, protagonistas e antagonistas de nossas próprias vivências. Diagnosticada com autismo nível 1 de suporte e altas habilidades, em 2024, nas áreas de criatividade, inovação e pensamento divergente, Paula Wenke imprime ao texto um mergulho em uma mente de processamento diferenciado. Por esse motivo, a obra realiza um forte apelo ao respeito às diferenças, transformando a cena em um espaço de reflexão ética, poética e humana.
“Depois desta descoberta, tudo passa a ter um outro sentido: autistas são introspectivos, têm o seu mundo particular, imagético. Por necessidade, o mundo da pessoa cega também é assim, em face da condição de privação da visão. Pessoas cegas utilizam os outros sentidos para se situarem; pessoas no espectro autista têm processamento sensorial particular, muitas vezes sendo mais sensíveis a estímulos. Em Imagens de um c(ego), nossos universos particulares e distintos dialogam através da autoria e direção de uma mulher autista e de um ator cego no elenco. Aqui, nossas percepções entram em colaboração”, reflete a diretora. Ela prossegue: “O Brasil tem 18,6 milhões de pessoas com deficiência, o equivalente a seis vezes a população do Uruguai, duas vezes a população do Paraguai ou uma vez e meia a da Bélgica. Se cada pessoa com deficiência tiver dois familiares, são 54 milhões de brasileiros diretamente ligados à vivência com deficiência — um número capaz de decidir uma eleição presidencial. Essa revelação acende a reflexão: onde estão essas pessoas no nosso dia a dia? O quanto ainda precisam lutar por acessibilidade e inclusão? Esta é uma luta de todos. Afinal, podemos nos tornar parte desse universo: a idade, um acidente ou qualquer circunstância pode nos transformar”.
Um alerta contra o capacitismo
“O maior preconceito contra a pessoa com deficiência é o capacitismo, que faz alusão à crença equivocada de que ‘não somos capazes’. Se não vemos essa população na proporção em que ela existe em nosso cotidiano, isso significa que ela ainda está, prioritariamente, em casa, na invisibilidade. A Arte é um instrumento de potência incomensurável para a transformação de crenças e de cultura. O pódio e o palco são lugares de virtuosos, de capazes. Urge que ocupemos esses espaços merecidos e de direito, também por uma questão de representatividade e cidadania. O que temos a dizer a partir da nossa percepção de mundo? Que experiências ricas em conflitos e desafios diários podemos mostrar? Os esportes paralímpicos, culminando com as Paralimpíadas, revelam parte destas verdades para seu público. Podemos concluir, então, que a Arte — atividade mais espiritual, mental e emocional do que física — é o trampolim perfeito, onde nem o céu é o limite”, conclui Paula Wenke.
Ela destaca, ainda a base jurídica para esse conteúdo: “trechos da LEI Nº 13.146, DE 6 DE JULHO DE 2015. - Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência). CAPÍTULO IX; DO DIREITO À CULTURA, (...). Art. 42. A pessoa com deficiência tem direito à cultura, (...) e ao lazer em igualdade de oportunidades com as demais pessoas, sendo-lhe garantido o acesso. (...) Art. 43. O poder público deve promover a participação da pessoa com deficiência em atividades artísticas, intelectuais, culturais, (...), com vistas ao seu protagonismo, devendo: I - incentivar a provisão de instrução, de treinamento e de recursos adequados, em igualdade de oportunidades com as demais pessoas; II - assegurar acessibilidade nos locais de eventos (...) ; III - assegurar a participação da pessoa com deficiência em jogos e atividades (...), culturais e artísticas, (...), em igualdade de condições com as demais pessoas. (...)”.
Paula Wenke também é autora do Manifesto da Arte Inclusiva, publicado em 2025 na Revista Interinstitucional Artes de Educar, em uma colaboração da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e a Faculdade de Teatro Martins Pena – https://www.e-publicacoes.uerj.br/riae/article/view/92027/54765. O Manifesto será lançado no Rio de janeiro durante a temporada de Imagens de Um c(ego).
Todas as sessões contam com interprete de Libras e Audiodescrição. Esta ocorre por meio de reuniões no Google Meet: as pessoas cegas utilizam seus próprios celulares e fones de ouvido para o acesso ao serviço. A Produção garante conexão de internet estável e de boa qualidade no teatro. Assim, será testada uma metodologia que reduz muito os custos da audiodescrição, permitindo sua oferta em todas as sessões, sem ser necessário o aluguel de equipamentos de tradução simultânea – tradicionalmente utilizados na audiodescrição convencional.
Sobre Paula Wenke
“Arte Inclusiva no Brasil”
Paula Wenke é uma das principais referências brasileiras em arte inclusiva, com atuação consolidada em mais de três décadas. Dramaturga, diretora de teatro, atriz, produtora, poetisa e professora de teatro, construiu uma trajetória marcada pela pesquisa, criação e difusão de práticas artísticas acessíveis, contribuindo de forma decisiva para a transformação do campo cultural no país.
Há 30 anos, criou o Teatro dos Sentidos, técnica de encenação que visa a possibilitar a compreensão integral da obra cênica por uma plateia composta por pessoas cegas ou de olhos vendados. Para isso, os textos são adaptados ou criados especificamente para essa linguagem, considerando desde a dramaturgia até a encenação. Na abordagem, a experiência teatral é construída a partir da ativação consciente dos sentidos não visuais, com ênfase na audição, no tato, no olfato e no paladar. Tais estímulos sensoriais são integrados de forma orgânica à narrativa apresentada. Isso permite que o público acesse a obra por meio da percepção sensorial, tendo a eliminação da visão como elemento estruturante do desfrute da arte.
O Teatro dos Sentidos tornou-se objeto de pesquisas acadêmicas em várias universidades, sendo analisado por seus impactos artísticos, pedagógicos e sociais; e por sua contribuição para o fortalecimento da arte inclusiva e da acessibilidade cultural no Brasil.
O projeto Imagens de um c(ego) foi contemplado pelo Edital Pró-Carioca, programa de fomento à Cultura Carioca da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, por meio da Secretaria Municipal de Cultura, com apoio da Fundação Nacional de Artes – Funarte.
Serviço
Espetáculo teatral
Imagens de um c(ego)
De 26 de fevereiro a 22 de março
Classificação indicativa: 12 anos
Ingressos: R$ 40 | Meia-entrada: R$ 20
Vendas: online, no site sympla.com.br, ou na bilheteria do espaço – de quarta-feira a domingo, das 14h as 19h
Local: Teatro Glauce Rocha
Av. Rio Branco 179, Centro – Rio de Janeiro (RJ)
Espaço cultural da Fundação Nacional de Artes – Funarte
Assessoria de imprensa
Mauricio Aires e Rogério AlvesAmigos Assessoria de Comunicação55 21 99988-2158 / 55 21 96744-0203
Alex Varela

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