Hamnet, a vida antes de Hamlet
- Cláudia Felício

- 29 de jan.
- 2 min de leitura
Por Cláudia Felício, roteirista, escritora best-seller e crítica especializada em cinema
Assisti a “Hamnet, a vida antes de Hamlet” e adorei a abordagem. O filme conta a história de um jeito diferente. Mas não conta só do filho de Shakespeare, Hamnet que morreu; o longa nasce de uma escolha boa de roteiro: a de mostrar a história não a partir do gênio, mas da ausência dele. Aliás, o nome de Shakespeare só é falado uma única vez no final do filme e chamado por “Will”. Baseado no romance de Maggie O’Farrell, o filme tira William Shakespeare do centro e dá o filme à sua esposa, interpretada pela atriz Jessie Buckley. Que coisa fantástica! É uma atuação física, instintiva, quase ancestral, mas sem exagero, é rosto limpo, na medida. Não é que ela conduz a narrativa, ela a sustenta lindamente. A literatura do gênio inglês deixa de ser importante, uma vez que o foco está na nesta mulher, na experiência dela.

Paul Mescal faz um Shakespeare ainda distante do mito e, seguindo a proposta, nem aparece muito. Agora, o menino que interpreta Hamnet é uma potência. Chorei horrores no cinema, ele impressiona pela delicadeza em cena, pela voz bem colocada em diferentes momentos (alegria, dor) e tudo sem qualquer afetação. A relação de Hamnet com a mãe e a irmã é tocante, cheia de afeto. Lindo!

Organizar a partir da esposa do Shakespeare foi uma decisão que reorganiza o filme todo. O roteiro não dá explicações, mas mostra o cotidiano e aposta no silêncio como motor dramático. Nesse lugar do silêncio, poucas falas, ritmo lento, o filme ganha força. Não é uma obra sobre a morte em si, mas sobre o como era a vida antes da perda do menino Hamnet.

A direção de Chloé Zhao acompanha essa proposta do silêncio com sensibilidade. Os enquadramentos, quase sempre centralizados, criam uma sensação de ordem visual em contraste com o desamparo de sentimentos dos personagens, dando beleza à fotografia, principalmente nas cenas da floresta. A iluminação, suave e difusa, carrega um quê de névoa meio de conto de fadas, envolvendo as cenas numa atmosfera suspensa, como se o tempo estivesse em estado de espera.

A reconstituição de época é contida, sem excesso de ornamento, mas muito boa. Ela reforça a ideia central de que antes da obra imortal, houve uma vida comum, atravessada por afeto, rotina e perda.
Hamnet é cinema que se constrói em conjunto com roteiro, direção e interpretações maravilhosas. Cada enquadramento central, cada luz enevoada, cada silêncio aponta para a mesma ideia: a arte nasce da nossa experiência humana, quase sempre daquilo que nos falta e, no caso dele, faltou o filho. Vale a ida ao cinema.
Cláudia Felício

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