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REVISTA DO VILLA

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Gestão de talento: Quando a empresa acha que talento é encontrar. E esquece-se que é também manter

há 1 dia
4 min de leitura

Entre Portugal e Brasil, gerir talento vai muito além de atrair, desenvolver ou reter pessoas: exige reconhecer potencial, compreender contextos e criar condições para que ele possa crescer sem ser aprisionado.


Imagem gerada por IA
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Toda a gente fala de talento. Poucas organizações, porém, sabem realmente o que fazer com ele. Fala-se em atrair, desenvolver, reter, potenciar, identificar, mapear. Tudo muito bonito. Mas, na prática, muitas empresas continuam a tratar o talento como se fosse um recurso raro que aparece sozinho e fica por gratidão. (Fica aqui a minha oposição à expressão “retenção de talento”. Continuo a pensar que quem retém pessoas são os presídios, e as empresas não são prisões.)


O talento é sensível. Tem memória. Reage à forma como é tratado. E, entre Portugal e Brasil, a gestão de talento revela diferenças muito interessantes — não só na forma de o reconhecer, mas também na forma de o justificar, desenvolver e sustentar.

E nós continuamos à procura de identificar as diferenças entre Portugal e o Brasil nestes temas da gestão e da gestão de pessoas.


Em Portugal, a gestão de talento tende a estar mais associada à consistência, à competência demonstrada, à seriedade da entrega e à previsibilidade do desempenho. Há uma forte valorização de quem faz bem, mantém a qualidade e não cria ruído desnecessário. É uma leitura mais estrutural e, muitas vezes, mais prudente. O problema é que prudência em excesso pode tornar a organização lenta para reconhecer potencial antes de ele já estar visível para toda a gente.


No Brasil, a gestão de talento tende a incorporar de forma mais evidente a energia relacional, a capacidade de mobilização, a leitura de contexto e a presença humana. Não basta ser bom. É preciso conseguir gerar adesão, influenciar, envolver e fazer com que os outros queiram trabalhar consigo. O risco aqui é o oposto: confundir carisma com talento sustentado ou visibilidade com profundidade.

E aqui está o primeiro ponto provocador: muitas organizações dizem que fazem gestão de talento, mas, na verdade, fazem gestão de simpatias, de impressões ou de urgências.

Talento não é só performance. Também não é só potencial. E muito menos é só proximidade ao poder. Talento é a combinação de capacidade, aprendizagem, adaptação, consistência e impacto futuro. O problema é que muitas empresas só reconhecem talento quando ele já está a render no presente. E, nesse momento, estão a gerir o passado, não o futuro.


Entre Portugal e Brasil, isso ganha um sabor ainda mais interessante. Em Portugal, valoriza-se muito quem sabe fazer, quem entrega com rigor, quem demonstra maturidade operacional. Há uma espécie de meritocracia silenciosa: a pessoa prova-se e, depois, é reconhecida. No Brasil, há uma leitura mais dinâmica do talento, muitas vezes ligada à visibilidade da contribuição, à capacidade de articulação e ao efeito que a pessoa tem sobre a equipa e o ambiente. Um lado procura profundidade. O outro procura tração. E os dois lados podem falhar se não forem capazes de perceber o que falta ao seu próprio modelo.


Porque talento sem contexto não se sustenta. E contexto sem talento não produz diferença.

Nas organizações, uma das maiores falhas é tratar todas as pessoas com o mesmo pacote de desenvolvimento.

Não funciona. Há talento que precisa de método. Há talento que precisa de exposição. Há talento que precisa de confiança. Há talento que precisa de desafio. Há talento que precisa de chão. E há talento que precisa de espaço. A gestão de talento não é uma receita universal. É uma leitura fina de onde está o potencial e do que o pode fazer crescer.


Em Portugal, esse crescimento tende a ser mais facilmente associado à estrutura de carreira, aos marcos de progressão e à consistência de resultados. Isso pode ser uma vantagem, porque cria critério. Mas também pode ser uma armadilha, porque faz com que a organização espere demasiado tempo para investir em alguém que ainda não “cumpre o padrão completo”, quando, precisamente, esse investimento seria o que o ajudaria a chegar lá.

No Brasil, a gestão de talento tende a ser mais sensível ao dinamismo relacional e à capacidade de se mover em contextos diversos. Isso pode ser uma vantagem enorme, porque revela rapidamente quem tem presença, adaptabilidade e influência. Mas também pode ser uma armadilha, porque faz com que a organização promova energias fortes sem testar suficientemente a sua sustentação em cenários de maior complexidade.

A provocação, portanto, é esta: talento não é o que a pessoa faz quando tudo corre bem. É o que ela sustenta quando o contexto muda.


É por isso que a verdadeira gestão de talento começa muito antes da promoção, da retenção ou da sucessão. Começa com perguntas simples, mas difíceis: esta pessoa aprende depressa? Esta pessoa sustenta a pressão? Esta pessoa cresce sem perder o alinhamento? Esta pessoa amplia o efeito dos outros ou apenas o seu próprio? Esta pessoa consegue ser excelente sem depender de estar sempre confortável?

E há outra questão ainda mais incómoda: a organização sabe distinguir talento de afinidade? Porque, muitas vezes, confunde-se talento com pessoas que pensam como nós, falam como nós e nos deixam confortáveis. Isso não é gestão de talento. Isso é gestão de semelhança.


Talento real, em contextos luso-brasileiros, é aquele que consegue navegar entre códigos diferentes sem perder autenticidade. É aquele que sabe quando ser direto e quando construir uma relação. Quando entregar com precisão e quando mobilizar com presença. Quando agir com estrutura e quando improvisar com inteligência.

E isso, curiosamente, é o que muitas organizações ainda não sabem medir.

Talvez por isso a gestão de talento seja uma das áreas onde mais se fala e menos se pensa com profundidade. Reter, desenvolver e promover são verbos bonitos. Mas, sem critério, tornam-se slogans.

O verdadeiro desafio é criar sistemas que reconheçam talento antes de ser óbvio, o desenvolvam enquanto ainda está em expansão e o mantenham sem o aprisionar.


No fundo, gerir talento é isto: perceber que a empresa não está apenas a selecionar quem já brilha.

Está a decidir quem vai brilhar mais e em que condições.

E, entre Portugal e Brasil, essa decisão continua a ser um dos testes mais sérios à maturidade organizacional.



Pedro Ramos


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