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Revista do Villa

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Eu não quero ser a próxima: o feminicídio como urgência social no Brasil


A frase, repetida silenciosamente por mulheres de diferentes idades, classes sociais e regiões do Brasil, deixou de ser apenas um desabafo. Tornou-se um reflexo do tempo em que vivemos.


Em 2025, os recorrentes casos de feminicídio e violência de gênero, expostos diariamente nos noticiários, revelam uma realidade alarmante: uma crise silenciosa, constante e profundamente enraizada. Ser mulher no país passou a exigir não apenas coragem, mas vigilância permanente.


Mais do que números, trata-se de um problema estrutural que atravessa o cotidiano, impacta comportamentos, escolhas e a forma como ocupamos espaços — dentro e fora de casa. Os casos que se acumulam nas manchetes não se restringem às estatísticas: eles atravessam conversas, influenciam rotinas e moldam, de maneira quase invisível, a forma como lidamos com sentimentos como: medo, vergonha, insegurança e inadequação.


Muitas mulheres deixam de denunciar situações de violência por receio do julgamento social. A desaprovação, o preconceito e uma cultura ainda profundamente machista contribuem para o silenciamento das vítimas. Frases como “ela não percebeu os sinais antes?” ou “no começo todo agressor dá indícios” seguem sendo repetidas com naturalidade, deslocando a responsabilidade para quem sofre a violência e reforçando uma lógica persistente de culpabilização.

Nesse contexto, “eu não quero ser a próxima” deixou de ser apenas uma frase de impacto para se tornar um sentimento coletivo — um alerta que expõe uma urgência social impossível de ignorar.


Uma matéria publicada pela revista Marie Claire ao longo deste ano destacou dados de uma pesquisa do Instituto Ipsos, segundo a qual o Brasil ocupa a quinta posição entre os países onde as mulheres mais temem sofrer agressão física. O levantamento aponta que 56% das brasileiras têm receio de se tornar vítimas de violência — percentual inferior apenas ao de países como Indonésia (73%), Itália (63%), Turquia (59%) e Canadá (58).


O estudo, realizado em 30 países, também revela um aumento na conscientização sobre a violência de gênero e os direitos das mulheres — ainda que essa consciência, por si só, não seja suficiente para garantir segurança.


Dados pesquisados pela WGH Brazil, braço nacional da organização internacional Women in Global Health — rede global que atua pela igualdade de gênero na liderança e na saúde — reforçam que a violência de gênero no Brasil é atravessada por marcadores raciais e sociais. Dados do Mapa Nacional da Violência de Gênero (2024) indicam que 48% das brasileiras já sofreram violência doméstica ou familiar; desse total, cerca de 14 milhões são mulheres negras. Ainda segundo o estudo, 61% das vítimas não procuraram a polícia, evidenciando o impacto do medo, da desconfiança institucional e do julgamento social. Essa análise foi compartilhada nas plataformas digitais da WGH Brazil, organização da qual faço assessoria de imprensa.

 

No estado do Rio de Janeiro, apenas em 2025, 79 mulheres foram assassinadas vítimas de feminicídio — uma média de quase oito mortes por mês. Outras 242 mulheres escaparam da morte, números que expõem a dimensão da violência e, ao mesmo tempo, a fragilidade das redes de proteção. Vale lembrar que muitos casos seguem subnotificados, já que inúmeras mulheres não denunciam agressões físicas, psicológicas ou financeiras. A coação emocional, em especial, permanece invisível na maioria das estatísticas.


No último mês, a cidade de São Paulo tornou-se holofote nacional diante de sucessivos casos de violência contra a mulher. Foram mais de 53 registros entre janeiro e outubro, e o episódio mais recente gerou uma comoção tão grande que mulheres foram às ruas em um coro único:


 “Parem de nos matar.” O grito ecoou em diversas manifestações pelo Brasil, especialmente nos protestos realizados em dezembro de 2025, denunciando o feminicídio e exigindo o fim da violência de gênero.


No Brasil, o crime de feminicídio foi tipificado como lei federal em março de 2015, passando a ser contabilizado separadamente de outros tipos de homicídio. A legislação considera feminicídio quando o assassinato envolve violência doméstica ou familiar, bem como menosprezo ou discriminação à condição de mulher da vítima. As penas variam de 12 a 30 anos de prisão.


Esse silêncio, no entanto, não atravessa apenas mulheres cis. Mulheres trans também são vítimas de violência de gênero e doméstica, muitas vezes enfrentando camadas adicionais de vulnerabilidade: o preconceito institucional, a dificuldade de acesso à rede de proteção e o medo de não serem acolhidas ou levadas a sério. A violência, nesses casos, não se limita ao corpo — ela atinge a identidade, a dignidade e o direito básico de existir com segurança.


Crianças e adolescentes também estão entre as principais vítimas da violência no ambiente doméstico. Em muitos casos, o lar — que deveria ser espaço de cuidado — se transforma no lugar onde o medo se instala. Por isso, mecanismos como o Disque 100 integram essa mesma rede de proteção, reconhecendo que a violência doméstica e de gênero raramente atinge apenas uma pessoa: ela se espalha, silencia e deixa marcas profundas em toda a estrutura familiar.


O cenário internacional também acende alertas. Em Portugal, segundo dados divulgados pelo canal She Rise Consulting, comandado por Luciene Mello, um relatório da APAV Associação Portuguesa de Apoio à Vítima, revelou um aumento de 13,4% nos casos de violência doméstica em relação a 2023. Nesse contexto, a violência doméstica representa 76% dos registros, englobando mulheres, crianças e idosos, evidenciando que a violência doméstica atinge diferentes grupos, embora a maioria das vítimas apoiadas seja composta por mulheres.



Na Itália, em novembro deste ano, o Congresso aprovou por unanimidade uma nova lei que tipifica o feminicídio de forma autônoma no Código Penal, estabelecendo a prisão perpétua como pena máxima. A medida entrou em vigor como resposta direta ao crescimento dos crimes de gênero no país.


Em conversa com a advogada e escritora Drª Renata Soares, pedi que ela explicasse, A Lei Maria da Penha como Instrumento Preventivo e Estruturante no Enfrentamento do Feminicídio


A aplicação da Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006) nos casos de Feminicídio é fundamental para a compreensão e o enfrentamento dessa modalidade criminosa em sua expressão mais extrema. Tal diploma legal atua de forma preventiva e estruturante, uma vez que incide diretamente sobre o histórico de violência doméstica e familiar que, em grande parte dos casos, antecede o crime.


Na prática, a Lei Maria da Penha possibilita a identificação do ciclo de violência — psicológica, moral, patrimonial, sexual ou física — que, não raras vezes, culmina na morte da mulher. Quando esse histórico é devidamente reconhecido e comprovado nos autos, passa a constituir elemento essencial para a caracterização do Feminicídio, nos termos da Lei nº 13.104/2015, que através da Lei 14.994/24 alterou o Código Penal Brasileiro (Art. 121-A) ao classificar essa conduta como crime autônomo, com uma pena maior e mais severa, refletindo a gravidade da violência de gênero, além de promover a modificação da Lei nº 8.072/1990, incluindo o Feminicídio no rol dos crimes hediondos.


Nesse sentido, dispõe a Lei nº 8.072/1990:

Art. 1º São considerados hediondos os seguintes crimes, todos tipificados no Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 — Código Penal, consumados ou tentados: I-B — feminicídio (art. 121-A).


A classificação do feminicídio como crime hediondo decorre de sua extrema gravidade e elevada repulsa social, implicando tratamento jurídico mais rigoroso, sendo inafiançável e insuscetível de graça, indulto ou anistia, além de submeter o condenado a critérios mais severos para a progressão de regime.


 Diante desse cenário, a pergunta que permanece é inevitável: como lidar com essa realidade de forma mais consciente e empática? Como construir um olhar menos julgador, mais atento e verdadeiramente acolhedor para uma questão que atravessa camadas íntimas e profundas da experiência feminina?


Ao longo deste texto, trago dados, pesquisas e fontes diversas para reforçar uma verdade incômoda: essa realidade é agora. Pode estar acontecendo com uma amiga, uma prima, uma sobrinha, uma mãe, uma avó — comigo, com você, com tantas outras mulheres que vivem perseguições psicológicas, agressões silenciosas e violências de múltiplas naturezas simplesmente por serem mulheres. Um mundo gerado por nós, afinal, todos viemos ao mundo através de uma mulher.


E é aqui que faço um chamado direto aos homens. Vocês têm um papel crucial nessa discussão. Que ódio é esse que se confunde com amor? Que amor é esse que fere, persegue, ameaça e mata? Estamos construindo juntos um mundo de igualdade, e nele precisamos nos sentir seguras para amar, escolher, existir e viver sem medo.


É fundamental que as mulheres consigam ver, sentir e reconhecer os discursos e, principalmente, as ações dos homens no espaço coletivo, não apenas como declarações em redes sociais, mas como atitudes concretas. Romper o pacto da masculinidade, repreender, denunciar amigos que reproduzem discursos red pill ou incel, agir ao perceber que uma irmã, mãe, filha, amiga ou qualquer mulher esteja sofrendo violência silenciosa seja ela psicológica, financeira ou emocional, é responsabilidade coletiva. Damos sinais. Sempre damos.


Converso sobre isso com meus amigos, com meu pai, com meus irmãos. Vocês precisam caminhar ao nosso lado. Mesmo com os avanços das mulheres em carreiras, posicionamentos e autonomia, sabemos que o feminismo “um movimento social que, sem disparar uma bala, mudou radicalmente a sociedade” Vera Iaconelli  não é algo que pode ou deve retroceder. Mas os homens podem, sim, tornar esse caminho mais leve, entendendo que só queremos que nossas escolhas sejam respeitadas.


Estamos na dor, mas queremos ser ouvidas.


Acho que nós, mulheres, não precisamos ter medo de falar sobre nossas vulnerabilidades. Ao mesmo tempo, é necessário respeitar o tempo da dor, compreender os silêncios e encontrar a voz certa para falar sobre o que nos atravessa e, muitas vezes, nos embarga. Tudo isso tem a ver com confiança, algo profundamente vulnerável, potente e, ao mesmo tempo, frágil. E talvez seja justamente por isso que continuamos dizendo, em uníssono: eu não quero ser a próxima.


Este texto é dedicado a todas as mulheres que foram silenciadas. E a todas aquelas que, neste momento, estejam sofrendo qualquer forma de violência, independentemente de quem seja o agressor.


Não se cale!

Este texto é para você.

Tainara Souza!

 


Ana Paula de Deus


 
 
 

7 comentários


Convidado:
25 de dez. de 2025

Num mundo mais individualista, egoísta e narcisista, o amor e a tolerância são cada dia menores e, direitos e deveres, acabam sendo ignorados, desprezados e abandonados!


A única forma de mudar tudo isso a médio e longo prazo é a educação!

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Convidado:
25 de dez. de 2025

Não quero ser a próxima e que hajam próximas.

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Convidado:
24 de dez. de 2025

Eu não quero ser a próxima, e nem q haja próxima....

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Luiza de Deus
24 de dez. de 2025

Um texto consciente, crítico e necessário que expressa a urgência do nosso tempo em refletir e agir sobre essa cultura destrutiva do feminicidio!! 👏🏾🤎✊🏿

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Convidado:
24 de dez. de 2025

Um texto consciente, crítico e necessário que expressa a urgência do nosso tempo em refletir e agir sobre essa cultura destrutiva do feminicidio!! 👏🏾🤎✊🏿

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