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Entrevista: Sergio Luiz Ribeiro, cientista social

Entrevista com o cientista social e Jornalista Sérgio Luiz Ribeiro da Silva.


Exclusiva para coluna do cientista social Sérgio Luiz Ribeiro
Exclusiva para coluna do cientista social Sérgio Luiz Ribeiro

1- Olá Luiz! Você poderia comentar sobre a sua obra, que está no prelo, A Construção Étnica do Povo Brasileiro Vista Pelo Olhar do Futebol...Até o Jogo dos 7 a 1?

 

O livro – que começou como uma pesquisa por causa da vergonhosa derrota de 7 a 1 da Seleção Brasileira diante da Seleção Alemã na Copa do Mundo de Futebol Masculino de 2014 – não se limitou a investigar apenas os motivos daquela derrota, aumentando o seu campo de pesquisa para entender como é jogado o futebol brasileiro, buscando uma análise vista pelo olhar étnico, cultural, social, político e histórico. Mas para seguir esse roteiro, obviamente, foi preciso estudar a história e a construção social do próprio povo brasileiro. O livro está em busca de parceiros para publicação.

 

Na primeira parte do livro a pesquisa mergulha na construção étnica, cultural, política ehistórica do Brasil, estruturada nas três raças (indígena, branca e negra). Essa base demiscigenação é a matriz da brasilidade, e é a brasilidade que faz o brasileiro jogar futebol como só ele joga.

 

Esse arcabouço étnico e sociocultural do Brasil fica ainda maior com a chegada mais tarde dos povos asiáticos e de origens árabes, e mais europeus, como italianos e alemães. Resumindo, a pesquisa analisa a construção étnica, cultural e histórica do Brasil pelo olhar do futebol, mas também analisa o futebol pelo olhar étnico, histórico e sociocultural. Ainda na primeira parte é apresentado ao leitor uma investigação do futebol desde a Antiguidade, mostrando que esse tipo de esporte é praticado a milênios e em todos os continentes, pelos mais diversos povos e etnias.

 

Além de analisar a habilidade do jogador brasileiro, tendo a Seleção Brasileira de futebol masculino como referência, a pesquisa também analisou os modelos de futebol jogados pelos outros sete países campeões em copas do mundo de futebol masculino, sempre sobre o olhar cultural.

 

Quanto ao jogo do 7 a 1, o livro identificou uma ruptura inédita no modus operandi da convocação da Seleção Brasileira para a Copa do Mundo de 2014, fugindo de um padrão nacional que existia desde a Copa do Mundo de 1950, o que causou um hiato cultural, técnico e tático pelo qual a Seleção nunca tinha passado antes, ocasionando o jogo do 7 a 1. Ainda assim, o livro também é uma celebração do país Brasil e do futebol, celebrando o melhor dos povos que deram origem ao nosso povo (sem deixar de reconhecer as injustiças e atrocidades), mas focando no que nos há de melhor, a fim de enobrecer a autoestima do povo brasileiro, e colocar de vez uma pá de cal no que restou do viralatismo, propondo uma visão decolonial protagonizada pela brasilidade (um modo comportamental que envolve

ancestralidade, características históricas, sociais e culturais). Por isso, mesmo sendo uma pesquisa, o texto é o menos técnico possível, priorizando pela linguagem comum e pela leveza, além de caminhar pela história do futebol e pela história do Brasil com bom humor. é um livro para quem gostam de literatura, para quem gosta de futebol, para acadêmicos, e para todos os gêneros.

 

Diante do que falei acima e do que direi abaixo, vou me dar o direito de não detalhar os resultados da pesquisa que dão originalidade ao livro. Isso fica para os leitores, rs.

 

2- Quais sâo os projetos de pesquisa que você desenvolve?

 

A minha linha de pesquisa é: Juventude; Educação; Cultura Urbana; Sociedade; Políticas Públicas; Tecnologias e suas intervenções; Transições; Brasilidades. Já desenvolvi pesquisas em cada uma dessas áreas, ligado a governos estaduais, prefeituras, universidades, terceiro setor e UNESCO. Outra pesquisa que desenvolvo no momento é sobre o comportamento da Juventude dentro do processo educacional, abordando a cultura juvenil e como ela se transforma para entrar no mercado de trabalho.

 

3- Quais são as suas referências (teóricas e práticas)?

 

Me formei em ciências sociais pela UFRRJ, onde a formação inclui Antropologia, Sociologia e Ciência Política, além de outras matérias em menor escala, mas que ajudam a estruturar o cientista social. Em geral, para cada tema de pesquisa se escolhe teorias, teóricos e referências que têm a ver com tal tema. Isso varia muito. Para o livro A Construção Étnica do Povo Brasileiro Vista Pelo Olhar do Futebol...Até o Jogo dos 7 a 1, a base teórica é muito vasta, mas os pilares principais são Casa grande e senzala, de Gilberto Freyre, O homem cordial (Raízes do Brasil), de Sérgio Buarque de Holanda, e Homo Ludens: O Jogo como Elemento da Cultura, de Johan Huizinga. Quanto às práticas, que em pesquisa chamamos de metodologia (estudo, estratégia, orientação e justificativa teórica que define o processo) e método (ferramentas técnicas que definem a ação e o trabalho na prática), essa pesquisa foi desenvolvida com entrevistas, suporte bibliográfico, investigação documental, análise de documentários e recortes jornalísticos, além de estudos de outras ciências, como Psicologia, Psicomotricidade, Neurociência, e outras que ajudaram a embasar o livro (principalmente a parte que fala do jogo do 7 a 1).

 

4- Quais são as instituições onde você atua?

 

Atualmente faço parte do Instituto Ideias Vivas, do Coletivo Malungo, e Produtora Etnia Entretenimentos. São instituições que estudam e promovem as raízes culturais do Brasil.


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5- Por que o tema futebol lhe atrai?

 

Por que sou brasileiro? (rsrsrsrs, brincadeirinha). Como pessoa eu sempre fui apaixonado por samba, carnaval e futebol. Como pesquisador eu nunca tinha cogitado o futebol como laboratório, e confesso que foi uma pesquisa incrível, que começou por eu ter ficado inconformado com o jogo dos 7 a 1.

 

6- O futebol está associado à brasilidade?

 

No Brasil nós temos um conjunto cultural chamado brasilidade, que estrutura nosso comportamento, podemos dizer que no Brasil o futebol está associado à brasilidade, pelo fato da brasilidade ser a nossa estrutura cultural.

 

7- A frase: O Brasil é o país do futebol, ainda tem validade? Justifique.

 

O futebol brasileiro é o que tem mais títulos mundiais, cinco Copas do Mundo, e isso com uma administração corrupta e desorganizada (se o futebol brasileiro fosse bem-organizado e sem corrução, quantos copas do mundo o Brasil teria?). O Brasil é o maior exportador de jogadores de futebol de acordo com os rankings do CIES Football Observatory e da FIFA. Segundo a revista Premier Football UK, o PIB brasileiro é (em números absolutos) o mundialmente mais influenciado pela exportação de jogadores (Sérvia e Uruguai tem os PIBs mais influenciados em números proporcionais). Enquanto podemos contar aos dedos os craques de cada geração que os outros países produzem, o Brasil não para de produzir inúmeros craques em gerações seguidas, além disso temos o Rei do Futebol, Pelé e, acredite, ninguém driblou mais do que Garrincha.

 

Somos o país do futebol? Popularmente sim, e é claro que não queremos ser só o país do futebol – e isso é preciso que se diga. Consideremos também que já não sejamos o único país destacadamente à frente dos demais. Outros países hoje conseguem também esse destaque. E o mais curioso é que o futebol brasileiro ficou assistindo os outros países crescerem futebolisticamente e não fez nada para crescer ainda mais. A frase "Ninguém é mais bobo no futebol" nos serviu e nos serve para "justificar" evolução futebolística de países como Equador, Bolívia, Colômbia, México, Honduras, Marrocos, Gana, Nigéria, Austrália, Bélgica, Suíça, países que nos últimos anos nos enfrentam de igual para igual e que, outrora, com todo o respeito, tinham derrotas quase certas ao enfrentarem a Seleção Brasileira.

 

Sim, é verdade que todas estas seleções evoluíram, afinal tudo evolui, está no DNA da construção social da Humanidade, e com o futebol não seria diferente, mas na verdade a frase serve para, de forma velada, escondermos um erro gravíssimo: o futebol brasileiro ficou assistindo o futebol dos outros países evoluírem e se organizarem, enquanto o nosso futebol ficou estacionado, apenas produzindo craques (considere que a produção de craques tem origem cultural, e não origem organizacional ou administrativa). O futebol brasileiro só não caiu mais porque, mesmo estacionado, o seu patamar sempre foi altíssimo, mas a falta de evolução organizacional e administrativa deixou o futebol dos outros países se aproximarem.

 

Essa aproximação

aconteceria mesmo se o futebol brasileiro fosse bem administrado e organizado? Não sabemos, o que sabemos é que a desorganização e a corrupção possibilitaram tal aproximação e – em alguns momentos - até a superação. Veja: é como se você fosse um cientista ou um artista bem sucedido, e em vez de continuar se especializando, desenvolvendo ainda mais as suas pesquisas ou as suas habilidades, você para no tempo e fica se achando o máximo. Tem algo de arrogância por trás disso. Na linguagem do futebol "jogar de salto alto" significa soberba, falta de

humildade. Nesse sentido o estacionamento pela falta de organização do futebol brasileiro é o maior "salto alto" da sua história.

 

Tudo isso passa pela falta de organização e investimentos em pesquisas, resgates das tradições e uma teimosia absurda em querer imitar modelos europeus de futebol, o que é ainda um resquício do viralatismo. E ainda assim conseguimos ganhar cinco Copas do Mundo. Aliás, a chegada de um número gigante de treinadores estrangeiros atualmente ao Brasil mostra como essa paralização, esse atraso, essa pouca preocupação em evoluir, afetou inclusive os treinadores brasileiros. A paixão do brasileiro pela Seleção também sofreu um esfriamento, e os preços caríssimos dos ingresos para ver os jogos também ajudaram nisso Sim, o Brasil é o país do futebol popularmente falando, mas paradoxalmente cuida pouco do futebol, e nesse sentido o Brasil não é o país do futebol. O jogo do 7 a 1 foi uma lamentável coroação desse estacionamento, embora aquele placar tenha se dado por uma ruptura no padrão cultural convocatório da Seleção Brasileira.

 

8- Quais são os seus planos futuros?

 

Lançar o livro A Construção Étnica do Povo Brasileiro Vista Pelo Olhar do Futebol... Até o Jogo dos 7 a 1, e para isso estamos procurando parceiros, já que no Brasil o mercado editorial para escritores iniciantes não é algo simples. Uma empresa de marketing já se propôs a taralhar a divulgação do livro quando ele for publicado. Depois outros livros virão, na área de pesquisas, mas também em outros segmentos, como poesia, romance e até infantil (livros que já estão prontos), mas o momento agora é trabalhar pelo livro dos 7 a 1. outrossim, é que continuar absorvendo conhecimento é um dever de todo professor e pesquisador, e isso não pode parar, temos que estudar para sempre. Também tenho recebido algumas ideias para podcast. Vamos ver, rs. Ideias boas são sempre bem-vindas!


Aula de Sociologia na UFRRJ
Aula de Sociologia na UFRRJ

Sergio Luiz Ribeiro da Silva

Cientista Social e Jornalista

Instagram @_sergioluizribeiro


Chico Vartulli


 
 
 

2 comentários


Convidado:
há 2 dias

Parabéns pela escolha do tema. Senti falta da menção do futebol inglês que criou o futebol profissional. O futebol faz parte da nossa cultura, em todos os lugares tem “campinho de futebol “ independente do nível social. Todo garoto quer uma bola, não importa que seja feita de um pé de meia ou de couro. Conheci Garrincha pessoalmente, fizemos propaganda juntos. No item 7 da entrevista uma palavra saiu errada: .., sê bem-organizado e sem “corrução”. Li a entrevista, com muita atenção e o assunto é muito amplo. Em tempo: a copa de 1950, está até hoje no nosso consciente coletivo.

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Sacerdotisa Alana Morgana Pron
há 5 dias

Amei! Entrevista que mostra o povo, a sua cultura pelo olhar do futebol, através de um cientista político social. Excelente!

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