Entrevista: Mariana Azambuja Cardoso - Advogada e autora
- Chico Vartulli

- 16 de nov.
- 4 min de leitura
Entrevista com a advogada e autora Mariana de Azambuja Cardoso.

1- Olá Mariana! Como você alia a carreira de roteirista com a de advogada?
Tem dias que estou no auge da minha criatividade, cheia de ideias, diálogos na cabeça, mas preciso focar na negociação de um acordo ou na elaboração de um contrato. Em seguida, preciso virar uma chave, deixar o juridiquês de lado e entrar de cabeça numa linguagem coloquial, totalmente informal, para os diálogos fluírem com mais naturalidade. Essa transição, às vezes, é meio complexa. Mas sinto que, ainda que a vida me leve mais para o caminho artístico, a advogada seguirá viva e ativa dentro de mim – e vice-versa.
2- Como se deu a sua formação no campo jurídico? Qual é a sua área de especialização?
Entrei na faculdade de Direito com dezessete anos, poucos meses após a perda do meu pai, que era meu maior exemplo e um advogado brilhante. Segui os passos dele. Porém, embora até tenha me aprimorado na área trabalhista – que ele dominava e era imbatível, acabei indo para o Direito de Família e Sucessões, onde tive a chance e o privilégio de aprender com o melhor, Sérgio Calmon. Mais tarde, com anos de Bradesco Seguro na bagagem, me dediquei ao Direito Securitário. Hoje em dia, fujo do contencioso, o que me leva para o mundo dos contratos, bem como dos divórcios e inventários extrajudiciais.
3- Quando você começou a se interessar por escrever textos e roteiros?
Minha paixão por escrever está no sangue. Logo que me alfabetizei, com uns seis anos, já catava milho na minha Olivetti, onde produzia um jornalzinho semanal que era distribuído entre os membros da família. Na adolescência, substituí a terapia pela poesia, na tentativa de abrandar a dolorida perda do meu pai – e, vale dizer, efetivamente me ajudou a lidar com o luto. Paralelamente a tudo isso, desde a infância, tinha o sonho de escrever uma novela. Aliás, Manoel Carlos é inspiração cativa de todos os meus projetos. Veio, então, a oportunidade de criar e roteirizar um espetáculo de teatro musical para adolescentes e, em seguida, a necessidade de adaptar o mesmo para o audiovisual. Foi um caminho sem volta! De lá para cá, fiz cursos e mentorias de roteiro, bem como de escrita criativa, desenvolvi pilotos de séries, escrevi um musical para o teatro, que deu origem a um longa, ambos baseados nas músicas do a-ha, além de ter escrito meu primeiro livro: Coisas Que Me Lembram Você.
4- Existe diferenças entre roteirizar para a televisão, teatro e cinema? Justifique a sua resposta.
Existe, sim. No teatro, o roteiro prioriza o diálogo, enquanto as ações são criadas pela direção, durante a montagem da peça. No audiovisual, as ações têm papel de destaque nos roteiros, muito embora, obviamente, também haja diálogos – ainda que mais econômicos. Os roteiros de televisão e cinema são parecidos em relação à estrutura de escrita. Porém, enquanto nos filmes o foco é a trama do protagonista, nas produções televisivas existem múltiplos arcos narrativos, mais longos (para serem desenvolvidos ao longo de diversas temporadas), além de um número maior de personagens, com questões e conflitos de maior profundidade.

5- Como se deu a criação de Crush?
Uma grande amiga, Lulu Joppert, tinha o sonho de desenvolver um projeto de teatro musical para adolescentes. Sabendo da minha paixão por escrever e da minha vontade imensa de contar histórias, ela me convidou para criar e roteirizar uma peça. Ainda sem qualquer técnica, mas com uma gana enorme de encarar a empreitada, convidei um amigo de infância para ser meu parceiro nessa aventura e aceitei o desafio. Assim nasceu CRUSH!, inspirado nas nossas próprias experiências da época de colégio, nas histórias vivenciadas por nossas filhas, além das preciosas colaborações trazidas pela Lulu, psicóloga com vasta experiência em adolescentes. Sem patrocínio, tratei de adaptar o roteiro para o YouTube – mais uma vez, de maneira puramente instintiva. E deu super certo! Além de mais de 500 mil visualizações, a websérie concorreu ao prêmio de Melhor Série Brasileira e Melhor Série Infantojuvenil no Rio WebFest 2020, além ter sido finalista na categoria de Melhor Websérie no Prêmio Jovem Brasileiro 2021.
6- De que trata o livro Coisas Que Me Lembram Você?
Coisas Que Me Lembram Você fala da trajetória de amadurecimento de Bel, uma adolescente de 17 anos que vê seu mundo de romances, amizades e festas, típico da idade, mudar de perspectiva e ganhar diferentes prioridades, após um baque, que vira sua vida de cabeça para baixo. Para seguir em frente, Bel conta com o apoio de sua mãe e de seus grandes amigos, além do sempre bem-vindo incentivo de velhos e novos amores.
7- Quais são os seus autores preferidos?
O primeiro nome que me veio à cabeça foi Isabel Allende, já que menciono Paula em Coisas Que Me Lembram Você. Orgulho e Preconceito, de Jane Austen, aparece em uma cena solta de CRUSH!. Miguel Sousa Tavares me encantou com Equador. Na poesia, amo Manoel Bandeira, Vinicius e Carlos Drummond de Andrade. Ultimamente, tenho lido muitos títulos para jovens adultos (e adultos jovens) ... Adoro os livros da Emily Henry e da Lynn Painter, além de ser muito fã da Jenny Han – não só pelas obras literárias em si, mas pelo sucesso estrondoso alcançado com suas adaptações para o audiovisual.
8- Quais são os seus projetos futuros?
Coisas Que Me Lembram Você nasceu para ser uma trilogia. Espero que isso se concretize. Adoraria também ver essa história nas telas – aliás, o primeiro tratamento do piloto já está inclusive pronto. Vai que... Fora isso, seguirei na batalha para realizar You Are The One, espetáculo de teatro musical, ao melhor estilo Mamma Mia!, que conta uma história de amor através das músicas do trio norueguês a-ha. A benção da banda, eu já tenho!

Crédito das Fotos: Miguel Sá
Chico Vartulli

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