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Revista do Villa

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Entrevista com Luiz Braga - fotógrafo internacional

Foto 1: Luiz Braga fotografando Casa em estilo colorido
Foto 1: Luiz Braga fotografando Casa em estilo colorido

1 - Após cinco décadas de uma carreira tão marcante, qual é o balanço afetivo e artístico que você faz da sua trajetória? Quais foram os momentos decisivos que moldaram seu olhar?


Depois de cinquenta anos de carreira, acho que posso ter o privilégio de ter sido escolhido pela fotografia para fazer o que eu faço. Acho que, ao contrário do que podem pensar, eu não escolhi a fotografia, eu fui escolhido. Ela é o que dá sentido e propósito à minha vida, pois é através dela que eu me encontro comigo mesmo e me encontro com o mundo, com o outro. É através dela que eu consigo me expressar e tentar entender o outro, o olhar afetivo. Isso faz toda a diferença.


Sobre os momentos marcantes, eu diria que o primeiro, foi ver, na banheira, no porão da casa dos meus pais, a primeira imagem surgir, sendo revelada sob a luz vermelha do laboratório que eu improvisei no porão. Depois a descoberta da cor, bem mais tarde. A cor me ajudou a formar um repertório, a criar um alfabeto e, através dele, conseguir ter uma marca própria, que era uma coisa que eu sempre me cobrei. Mais tarde, a descoberta da possibilidade do infravermelho, através do qual eu pude me aproximar da floresta, e criar um mundo ficcional e subjetivo, que eu intitulei de Mapa do Éden.



2 - O que despertou seu interesse pela fotografia? Houve alguma imagem ou evento específico que o fez escolher esse meio?


Pois é, ao contrário do que as pessoas pensam, “...existiu um momento, uma coisa que despertou você para a fotografia...“. Na verdade, como eu disse anteriormente, eu acho que a fotografia me escolheu. Porque a minha infância foi cercada do amor pela arte que os meus pais tinham. Pelas artes visuais, pela música, pelo cinema. Fui cercado de arte desde muito cedo. Isso obviamente moldou meu caráter. Minha mãe queria muito ter um filho artista. Eu acho que isso também, talvez, tenha me impulsionado mais. Eu acho que fui escolhido.


Agora, houve, claro, em evento: não sei se eu demonstrei esse interesse ou se foi uma coincidência do destino – um amigo do meu pai me presenteou com uma câmera aos onze anos de idade. Esse fato com certeza foi um ponto de início da minha fotografia.



3 - Fale um pouco sobre a sua formação como fotógrafo.


A minha fotografia é basicamente movida pela intuição, pela curiosidade, então eu, na verdade, sou autodidata. Claro que obtive ajuda de muitas pessoas, como o senhor Oscar, que com onze anos eu procurei para saber como eu usava a câmera que eu tinha ganhado de presente. Eu não sabia de nada daqueles números que apareciam na frente da lente. E ele me deu as primeiras dicas de como colocar o filme na máquina. Daí por diante eu saía perguntando, me informando, num tempo que não havia YouTube, nem Internet. E assim eu fui. Mais tarde, eu procurei me aperfeiçoar, fazer oficinas, fui participar de seminários, das famosas semanas de fotografias da FUNARTE, onde havia uma troca muito intensa e que, de certa forma, moldou toda uma geração de fotógrafos no Brasil.  Mas, basicamente, eu sou autodidata.



4 - Suas obras carregam uma identidade visual muito forte. Quais artistas (não apenas fotógrafos), movimentos ou outras formas de arte (literatura, música, cinema) você considera suas principais referências conceituais e estéticas?


Eu vivia cercado dos livros sobre os museus, os fascículos da editora Abril dos grandes artistas como Rembrandt, Van Gogh, Degas, Monet, entre outros. Todos esses estavam lá atrás, na minha infância, adolescência. O cinema do Fellini, a poesia de Fernando Pessoa, de Walt Whitman mais adiante. A música, o rock. A MPB do Caetano, do Gil. Era uma salada de referências que me segue até hoje. Na fotografia, Eugene Smith é uma referência. Joel Meyerowitz, na fotografia em cor. No Brasil, eu tinha pouca informação sobre os fotógrafos brasileiros, porque, na verdade, era mais fácil, uma pessoa como eu, que vivia em Belém, ter acesso aos livros que vinham de fora, da Europa, dos Estados Unidos, do que propriamente da fotografia brasileira, que eu só vim a conhecer através das semanas nacionais de fotografia. Na fotografia temos Robert Frank, que é uma coisa maravilhosa, Josef Koudelka, um grande e maravilhoso fotógrafo, mais adiante Maureen Bisilliat! São esses basicamente os grandes nomes que lá na minha adolescência eu pontuava.


Foto 2: Um  estilo de fotografia: A simplicidade 
Foto 2: Um  estilo de fotografia: A simplicidade 

5 - Seu trabalho é profundamente ligado às cores e à cultura amazônica. Atualmente, quais são os temas, sentimentos ou rituais que continuam a mobilizar seu olhar e sua câmera?


Embora eu seja muito ligado à Amazônia como um território, eu considero que o meu grande território é a fotografia, e a possibilidade que ela tem de criar e recriar o mundo. Por exemplo, o meu trabalho atual com infravermelho é monocromático. É uma forma de criar o mundo, através do infravermelho, da subversão do real, de me aproximar da floresta, de me aproximar das pessoas que sempre estiveram presentes. Claro que eu nunca abandonarei a cor. Assim como preto e branco é o alicerce do meu trabalho. Não acho que a Amazônia é tudo no trabalho. Eu acho que o trabalho tem muitas camadas. Tem técnica. Tem essa questão do olhar do outro, do olhar para o outro, da cumplicidade com o fotografado. Tem essa questão de olhar para aquilo que normalmente as pessoas não olham, que está no canto, que está à margem. Acredito que é tudo isso que forma essa poética.



6 - Qual é o conceito curatorial de “Arquipélago Imaginário”, mostra emblemática que celebra seus 50 anos de carreira? Que narrativa principal essa exposição busca construir para o público?


As perguntas seis e sete talvez pudessem ser respondidas pelo Bitu (Cassundé, curador). Da minha parte, o que eu posso dizer é sobre o trabalho que ele realizou a partir do que eu apresentei para ele. Eu apresentei inicialmente mil e oitocentas imagens para que ele trabalhasse dentro desse universo. Acho que o conceito que ele utilizou de arquipélago – ilhas de pensamento, que interagem entre si, porque, na verdade, é tudo o mesmo homem, o mesmo olhar interagindo – esse critério foi fundamental. Tanto que o nome é muito feliz, abraça completamente o conceito que foi desenvolvido. Na verdade, são ilhas, mas poderiam até mudar de lugar. Elas poderiam interagir, e elas interagem. Porque é um pensamento espalhado. No só ao longo do tempo, como da técnica, dos interesses. Mas você sempre vê que tem afinidades. Então eu acho que a maneira como o Bitu desenvolveu este conceito, especialmente na questão espacial, no espaço expositivo, foi muito feliz. Porque ele privilegiou janelas que existem no espaço expositivo, uma característica muito presente desde a minha infância, que é aquela vontade de espiar, de olhar pela janela, de olhar para o outro, de olhar para o mundo. Isso está muito pontuado na expografia.



7 - A mostra reúne obras de diferentes momentos. Como foi feita a seleção das séries e fotografias?

E qual é o significado particular de uma obra ou série específica que você destacaria nela?


O Mapa do Éden, porque acho que lá existe uma terra sem males, uma ficção, subjetiva, uma fotografia que subverte o real através da técnica do infravermelho. Foi a maneira que encontrei de enfim colocar a floresta que até então não aparecia na minha obra. Foi a maneira que eu consegui trazê-la para dentro da obra sem ser estereótipo, sem ser clichê. Então eu gosto muito dessa série. Eu continuo trabalhando nela.


8- Você poderia revelar quais são os projetos futuros? Existe alguma nova técnica que você planeja investigar?


A técnica que tenho desenvolvido e sigo trabalhando é a do infravermelho, da série Mapa do Éden, que segue em construção, mas eu pretendo fazer vídeos com essa técnica,  sugestão de uma pessoa que me visitou esse ano, um performer Colombiano que esteve comigo, me sugeriu isso e eu gostei da ideia. Quero trabalhar com uma coreografia a partir das minhas imagens. Estou trabalhando nisso com a coreógrafa. E sigo trabalhando num grande ensaio sobre a Ilha de Marajó, que tem mais de sessenta mil imagens, e apenas uma parte pequena está na exposição Arquipélago Imaginário. Também quero publicar um livro sobre as histórias das fotografias, as histórias que permeiam algumas fotos que foram feitas. Enfim, um pouco da história das fotos. São alguns projetos.


Foto 3: Da janela Braga faz sua posse
Foto 3: Da janela Braga faz sua posse

Fotos : Arquivo pessoal/Divulgação 

Chico Vartulli


 
 
 

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