Direita: O delírio de Quixote no Corredor das Havaianas
- Gilson Romanelli

- 22 de dez. de 2025
- 3 min de leitura

Se Miguel de Cervantes estivesse vivo e morasse no Brasil, ele não escreveria sobre as planícies da Mancha, mas sobre as redes sociais brasileiras.
O Cavaleiro da Triste Figura não precisaria de armadura; bastaria um celular na mão e uma capacidade inesgotável de ver gigantes onde existem apenas chinelos de borracha. O episódio recente envolvendo a atriz Fernanda Torres e a marca Havaianas é o "suco" da paranoia nacional. Na campanha de fim de ano, Fernanda sugere que o brasileiro entre em 2026 com os "dois pés" — uma metáfora batida sobre garra e proatividade.
Mas, na mente do Quixote de Teclado, "pé direito" virou uma patente ideológica e "os dois pés" tornou-se uma convocação revolucionária para o extermínio da oposição.Em uma peça publicitária leve e bem-humorada, a atriz sugere que os brasileiros não entrem em 2026 com o "pé direito", mas sim com os "dois pés" — uma metáfora clara para determinação, coragem e entrega ("pé na porta", "pé na estrada").
Contudo, para uma ala barulhenta da extrema direita, a semântica deu lugar ao delírio. Políticos e influenciadores bolsonaristas interpretaram a fala como um "ataque ideológico" contra a "direita", ignorando que a expressão "pé direito" é uma superstição milenar e não uma patente partidária. O resultado? Vídeos de parlamentares jogando chinelos no lixo e convocando boicotes, em mais um ato de devaneio que beira o cômico. Essa paranóia não é isolada,recentemente, o cantor sertanejo Zezé di Camargo, figura ligada ao bolsonarismo, protagonizou um episódio de puro radicalismo. Após a inauguração do SBT News — evento que contou com a presença institucional do Presidente Lula, do Ministro Alexandre de Moraes, do governador Tarcísio de Freitas e outras autoridades — Zezé se revoltou.O cantor, em um vídeo onde afirmou que a emissora estava se "prostituindo" por receber as autoridades vigentes do país, pediu que seu especial de Natal gravado fosse retirado do ar.
A recusa em aceitar a convivência democrática e institucional é o sintoma de uma doença que cega: para esse grupo, se não há exclusão do "inimigo", há traição. Ao tentarem "cancelar" marcas como Havaianas ou atacar veículos de comunicação por cumprirem seu papel institucional, os extremistas acabam isolando-se ainda mais da maioria da população, que busca apenas consumir produtos de qualidade e viver em um país estável. É fascinante observar como a extrema direita se tornou o principal cabo eleitoral de Lula para 2026.
Cada vez que o grupo se perde em pautas lunáticas, eles empurram o eleitor de centro e o cidadão comum para longe Como na obra original, Quixote culpava o Mago Frestão por transformar gigantes em moinhos para lhe tirar a glória da vitória. Hoje, a extrema-direita criou o seu próprio "Frestão": as agências de publicidade e a "classe artística globalista". Para esse grupo, não existe roteiro, existe código. Não existe trocadilho, existe conspiração. Atacar as Havaianas por causa de uma expressão milenar de sorte é o equivalente moderno a avançar de lança em riste contra uma pá de madeira girando ao vento.
O moinho (as havaianas) continua girando, sendo exportadas e calçando o mundo, enquanto o cavaleiro termina no chão,soluçando, esbravejando contra um inimigo que ele mesmo fabricou. Não é um fato isolado, é um método de desconexão com a realidade. O histórico recente de "lutas épicas" da direita radical beira o folclore: A Fé nos Pneus: Militantes orando para pneus de caminhão,o contato Imediato com celulares no topo da cabeça buscando ajuda extraterrestre.
Ao politizar o sagrado direito de usar um chinelo sem ser chamado de "comunista", essa ala se isola em um deserto semântico. O brasileiro médio, o nosso Sancho Pança, olha para tudo isso com o cansaço de quem só quer chegar ao fim do mês sem ter que interpretar mensagens cifradas em comerciais de sandália.
A ironia final desta tragicomédia é que a paranoia se tornou a estratégia de derrota perfeita. Ao focar em "combater" Fernanda Torres e marcas de calçados, a direita abdica de discutir o país real — a economia, a segurança, o futuro.Enquanto os extremistas jogam chinelos no lixo e pedem intervenção alienígena, eles pavimentam a estrada para a esquerda em 2026.
Afinal, entre o governo atual e um grupo que declara guerra a uma metáfora de ano novo, o eleitor tende a escolher o lado que não o obriga a usar ''chapéu de alumínio''.
O bolsonarismo radical ainda não percebeu que, para derrubar moinhos, é preciso primeiro entender que eles não são gigantes. No Brasil de 2025-2026, o maior inimigo da direita não é o "sistema", mas a sua própria incapacidade de calçar as Havaianas da humildade e caminhar na realidade.
Gilson Romanelli-Jornalista

Reflexão perfeita. Essa gente está doente. Não é possível, isso foge da nossa compreensão.
Excelente reflexão...
Viva a Democracia!
Somos livres não cercadinho de partido ou político
meu pensamento, é que ,tanto a mídia quanto os eleitores, deveriam esquecer as eleições de 2022, e focar em 2026.
Eliminar por vez , o estigma de LADRÃO do atual presidente e o autoritarismo de um certo capitão. O ideal para nosso " esquecido" Brasil, é surgir uma milagrosa TERCEIRA VIA.
Quem sabe ,essa via alternativa, não do cerrado (planalto central), e vestida de chapéu,botina e de origem rural, NÃO SERIA NOSSO CAVALEIRO ANDANTE,SEM ARMADURA E MUNIDO , NÃO DE ESPADA,MAS DE UMA CANETA PODEROSA E INTENÇÕES INOVADORAS, E QUE NÃO VENHA ACOMPANHANDO DE NENHUM SER , DESPROVIDO DE MADEIXAS.......