Crítica do Livro Casas Cariocas
- Flavio Santos

- há 2 dias
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Em seu livro “Casas Cariocas”, o amigo Luis Villarino faz uma panorâmica do que considera os redutos mais importantes de uma parte da memória afetiva do Rio de Janeiro: seus bares, confeitarias e boates. Porém, acerta precisamente quando nos relembra da convivência e da importância intelectual e artística da Cidade Maravilhosa.
Com sua prosa leve, Villa revisita a Casa Villarino, da rua Calógeras, comércio construído por seu avô, Luis Villarino. É o Rio, capital da República, engravatado sob o sol de 40 graus, frequentado pelos burocratas, os advogados, que bebericavam aquele uisquezinho antes de enfrentar o trânsito de volta para casa. Mas foi também o recanto dos artistas, dos músicos e compositores. Foi lá que nasceu o termo “Bossa Nova”, local de encontro fundamental para o novo ritmo musical.
O autor recorre às nossas “memórias gustativas”, como diria o memorialista Antônio Carlos Villaça, para relembrar a confeitaria Colombo. As imensas filas de hoje em dia para entrar no estabelecimento, na alta temporada do verão, são o preço a pagar para uma volta ao passado e se impressionar com o Rio Art Nouveau. É ter o prazer de imaginar um Olavo Bilac ou um Lima Barreto degustando seus cafezinhos em uma de suas mesas.
Com a descrição das casas La Fiorentina, Bar Lagoa, Antônio's, visitamos o outro Rio, aquele do “sol, céu e sul”, como diria o povo da Bossa Nova. Fiorentina, “casa” de Ary Barroso, com suas pilastras autografadas, frutos do mar e chopp da Brahma gelado. No Bar Lagoa, uma das reminiscências do estilo Art Déco carioca, um aperitivo para iniciar os “trabalhos” e se perder na noite carioca. À tardinha, no Antônio’s, era hora de você, “simples mortal”, no velho estilo displicente carioca, fingir que não estava a poucos metros de Vinícius e Chico Buarque. Uma tarde normal no Rio daqueles tempos…
Não faltou a lembrança da atmosfera das madrugadas, tempos em que se podia perambular pelas ruas do Rio, à noite… Na boate Le Bateau, no final da década de 1960, quem comandava as “carrapetas” para a juventude da zona sul dançar era o DJ Ademir Lemos. Tudo regado à Cuba Libre e com ar-condicionado bombando. Já no Jirau, da Siqueira Campos, o público frequentador era o beautiful people carioca.
Em tempos mais “caretas”, porém mais elegantes, quem fazia sucesso era o pianista Sacha Rubin, em meados da década de 1950, na sua boate, Sacha’s. Nos anos quarenta, o Rio viu nascer a lendária boate Night and Day, na Cinelândia. Instalada no elegante edifício Serrador, do hotel homônimo, estrelas nacionais e internacionais da música pisaram em seu palco. Grandes planos, conspirações e tramóias foram combinados no seu American Bar. O Fred’s, do Rei da Noite, Carlos Machado, durou pouco, mas deixou sua marca, com grandes espetáculos, em Copacabana.
Uma pequena travessa em Copacabana entrou para a História da MPB. Foi o Beco das Garrafas, apelido dado por Stanislaw Ponte Preta, um dos berços da Bossa Nova, que viu nascer uma estrela de primeira grandeza, Elis Regina, a pimentinha. Pelos seus pequenos palcos passaram astros nacionais e internacionais. Mas antes, na década de 1950, foi o recanto do samba-canção, onde brilharam Miltinho, Elizeth Cardoso, Dolores Duran e tantos outros. É o capítulo mais rico e detalhado. Nada de spoilers por aqui.
O autor finaliza com uma descrição do Canecão, do bairro de Botafogo. De início, no final dos anos sessenta, foi uma cervejaria, como o nome sugere, mas se tornou o grande palco da música nacional. O livro “Casas Cariocas” é um trabalho que junta história oral e memorialismo, uma minienciclopédia para ser consultada.

Flavio Santos

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