Adeus a Manoel Carlos (1933 - 2026)
- Gilson Romanelli

- 12 de jan.
- 3 min de leitura
A caneta que transformou o dia a dia em obra de arte se despede, mas suas Helenas se tornam eternas.
Especial para as Artes

O Rio de Janeiro amanheceu com um tom de azul mais nostálgico neste sábado, 10 de janeiro de 2026. Partiu, aos 92 anos, Manoel Carlos, o nosso eterno "Maneco". A notícia, confirmada pela família, encerra um capítulo fundamental da dramaturgia brasileira. O autor, que estava internado no Hospital Copa Star, em Copacabana, lutava contra a Doença de Parkinson, que no último ano havia fragilizado seu desenvolvimento motor e cognitivo. Maneco não apenas escrevia novelas; ele desenhava a alma da crônica cotidiana. Se o Leblon hoje é visto como um lugar quase mitológico, como bem define o crítico Mauro Ferreira, é porque a caneta de Manoel Carlos transformou suas ruas, cafés e a brisa do mar em palcos de dramas universais.
A Força das Helenas
Baila Comigo (1981) Lilian Lemmertz A Matriarca Sofrida. Discreta e contida. Escondeu do filho a existência do seu irmão gêmeo.
História de Amor (1995) Regina Duarte A Helena "Vizinha". Doce, romântica e muito próxima do público. Lutar pelo amor de Carlos contra as vilãs Paula e Sheila.
Por Amor (1997) Regina Duarte A Helena Sacrificada. Talvez a mais famosa e controversa. O sacrifício supremo: trocou seu filho vivo pelo neto morto para poupar a filha.
Laços de Família (2000) Vera Fischer A Helena Solar. Independente, dona de clínica de estética e decidida. Abriu mão do namorado (Edu) e engravidou para salvar a vida da filha (Camila).
Mulheres Apaixonadas (2003) Christiane Torloni A Helena Inquieta. Elegante, questionadora e cansada da rotina. Abandonar a segurança do casamento com Téo para reviver uma paixão do passado.
Páginas da Vida (2006) Regina Duarte A Helena Humanitária. Médica, forte e ligada a causas sociais. Adotou uma menina com síndrome de Down que foi rejeitada pela avó.
Viver a Vida (2009) Taís Araújo.
A marca indelével de sua obra foi, sem dúvida, a figura da Helena. Desde 1981, com Lilian Lemmertz em Baila Comigo, Maneco estabeleceu um arquétipo: mulheres fortes, imperfeitas e movidas por um amor maternal que desafiava qualquer lógica.
Ao longo das décadas, vimos atrizes icônicas darem vida a essas protagonistas:
Regina Duarte: A Helena por excelência em três ocasiões, incluindo a memorável médica de Páginas da Vida (2006).
Taís Araújo: Em 2009, rompeu barreiras como a primeira Helena negra em Viver a Vida.
Júlia Lemmertz: Em um gesto poético, encerrou o ciclo em Em Família (2014), homenageando o legado iniciado por sua mãe.
Para o Público, para quem assistia, a Helena representava um espelho e um ideal: Identificação e Empatia: O público via naquelas mulheres dilemas que poderiam ser seus: traições, doenças na família, crises no casamento e a dificuldade de envelhecer. O Estilo de Vida "Leblon": Havia um fascínio pelo universo aspiracional das Helenas — os cafés da manhã fartos, as caminhadas no calçadão, a bossa nova e a elegância sofisticada, mas simples (o "chic" sem esforço). Julgamento Moral: As atitudes das Helenas geravam debates nacionais. O público muitas vezes se dividia entre apoiar suas decisões éticas duvidosas ou condená-las, o que mantinha as novelas no centro das conversas.
O Legado
Em resumo, a Helena de Manoel Carlos representava a ideia de que toda mulher carrega uma tragédia e uma beleza cotidiana. Ela transformou o papel da "protagonista de meia-idade" em algo central, provando que as histórias de mulheres maduras eram as mais interessantes da TV.
Trajetória de um Mestre
Embora consagrado como autor, Maneco era um homem de televisão completo. Começou nos palcos aos 17 anos e brilhou como ator no "Grande Teatro Tupi". Passou por Record, Excelsior e TV Rio, onde dividiu redações com gênios como Ziraldo e Chico Anysio, além de produzir pérolas como a Família Trapo e O Fino da Bossa. Na TV Globo, sua estreia em 1972 foi como diretor-geral do Fantástico. Mas foi na teledramaturgia que ele encontrou sua voz definitiva. Maneco tinha o dom de tratar temas densos — como doação de medula, alcoolismo e inclusão social — sob a luz clara do Rio. "As tragédias e os dramas acontecem, mas o dia está lindo", dizia ele, justificando a leveza que imprimia mesmo aos conflitos mais amargos.
"O ódio, a inveja, o ciúme... eu retrato só essas coisas. E isso tudo existe em qualquer família." — Manoel Carlos (1933-2026)
O Adeus Silencioso
Aposentado desde 2014, o autor vivia recluso com a família, deixando um legado que se confunde com a própria história da comunicação no Brasil. Ele deixa as filhas Júlia Almeida e Maria Carolina. Em respeito ao seu desejo de privacidade, o velório será restrito a familiares e amigos íntimos. O Brasil se despede hoje do cronista do afeto, do homem que fez do cotidiano uma obra de arte e que, através de suas Helenas, ensinou que o amor — com todas as suas falhas — ainda é a melhor história a ser contada.

Gilson Romanelli









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