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Revista do Villa

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A Companhia dos Grandes Hotéis Centrais: o velho negócio dos grandes eventos

Em 30 de novembro de 1912, desembarcou em Paris a poetisa Jane Catulle Mendés. Regressava de uma temporada de férias no sul do Atlântico. Em entrevista à imprensa local, a viajante falou da estadia na Argentina e no Brasil. Disse que, ainda em trânsito, começou a escrever dois livros sobre essas experiências. Em relação à velha capital, deu uma declaração que marcaria a história da cidade para sempre. Essas palavras foram reproduzidas, em parte, na primeira página do jornal Gazeta de Notícias: “Passei dois meses e meio no Rio. Que cidade maravilhosa! Parece-me que ela foi feita para o encanto dos poetas. Será brevemente a cidade de vilegiatura mais frequentada do mundo!”


Foto 1. Mme. Jane Catulle Mandés. 1911. Revista Fon Fon. Fotógrafo desconhecido. Acervo BIblioteca Nacional do Rio de Janeiro
Foto 1. Mme. Jane Catulle Mandés. 1911. Revista Fon Fon. Fotógrafo desconhecido. Acervo BIblioteca Nacional do Rio de Janeiro

Há quem diga que esse foi o verdadeiro “mito fundador” do epíteto “Cidade Maravilhosa”. Não foi a primeira vez que se referiram ao “novo Rio” dessa forma, mas é o meu “causo” favorito. Para o nosso objetivo, precisamos dizer que o Rio de Janeiro visitado por Mme. Catulle Mendés foi o resultado de transformações urbanas que mudaram a percepção dos estrangeiros. Por outro lado, bagunçou a vida dos moradores do centro velho da cidade e expulsou parte dessa população para áreas distantes e encostas dos morros. Tradicionalmente, o Rio era somente uma das paradas rumo a Buenos Aires e muitas tripulações de navios evitavam o desembarque, pela má fama de insalubridade da urbe.


Foto 2. Construção da Avenida Central. Obras de Demolição e preparação. 1904. Foto Torres. Acervo Brasiliana Fotográfica.
Foto 2. Construção da Avenida Central. Obras de Demolição e preparação. 1904. Foto Torres. Acervo Brasiliana Fotográfica.

A companhia Grande Hotéis Centrais é filha dessas grandes transformações. O “civilizou-se" e, para isso, foi preciso destruir a cidade colonial, as ruas estreitas e demolir as estalagens, as pensões e os “pardieiros”. Substituí-las por avenidas largas, prédios modernos e uma rede hoteleira de excelência. Mas, principalmente, temos que entender o contexto das grandes comemorações do primeiro quarto do século XX.


Foto 3. Pardieiros da rua da Saúde. 1910. Jornal A Imprensa. Fotógrafo desconhecido. Acervo BNRJ
Foto 3. Pardieiros da rua da Saúde. 1910. Jornal A Imprensa. Fotógrafo desconhecido. Acervo BNRJ

Foto 3.1. Demolição do Morro do Castelo. 1922. Foto Augusto Malta. Acervo Brasiliana Fotográfica.
Foto 3.1. Demolição do Morro do Castelo. 1922. Foto Augusto Malta. Acervo Brasiliana Fotográfica.

Duas efemérides movimentaram o mundo econômico, político e cultural da velha capital. A Exposição Nacional de 1908, em comemoração ao Centenário da Abertura dos Portos às Nações Amigas, requereu o esforço modernizador e autoritário do governo do presidente Rodrigues Alves e seu prefeito indicado, Pereira Passos. A implementação de uma nova rede hoteleira se fazia urgente, gerando incentivos fiscais, como o Decreto 1.160, de 1907. O mesmo aconteceu com os preparativos para o Centenário da Independência, em 1922. Carlos Sampaio, prefeito indicado pelo presidente Epitácio Pessoa, deu início à transformação da cidade para receber o público de todo o mundo.


Foto 4.  Exposição do Centenário de 1922. Pavilão da Itália. 1922. Foto Thiele e Kollien. Acervo Brasiliana Fotográfica.
Foto 4. Exposição do Centenário de 1922. Pavilão da Itália. 1922. Foto Thiele e Kollien. Acervo Brasiliana Fotográfica.

Foto 4.1. Visão Geral da Exposição Nacional. 1908. Foto Augusto Malta. Acervo Brasiliana Fotográfica.
Foto 4.1. Visão Geral da Exposição Nacional. 1908. Foto Augusto Malta. Acervo Brasiliana Fotográfica.

Ainda em 1899, existia na rua dos Andradas, número 15, o Grande Hotel Familiar do Globo, sob a firma de Francisco Gonçalves & Francisco Ribeiro. Passou pelas mãos de Nogueira & Souza, dos sócios Domingos da Silva Nogueira e José Ignacio de Souza, em 1908, já com o nome definitivo de Hotel Globo. Então, em 1909, o hotel passou para as mãos de José & Companhia, tendo como gerente do estabelecimento Manoel José Carneiro Júnior. O endereço era na rua dos Andradas, 19, junto ao Largo de São Francisco de Paula e tinha 110 quartos.


Foto 5. Hotel Globo 1915. Revista Fon Fon. Fotógrafo desconhecido. Acervo BNRJ
Foto 5. Hotel Globo 1915. Revista Fon Fon. Fotógrafo desconhecido. Acervo BNRJ

O Hotel Avenida foi o maior, mais luxuoso e mais importante hotel de sua época, no Brasil. Tinha 500 quartos. Começa a funcionar sob a firma de J. Souza, Cabral & Companhia, dos sócios José Ignácio de Souza, Francisco Cabral Peixoto e do coronel Virgílio Augusto Fontes, que era o sócio comanditário. Em uma sociedade em comandita, o comanditário entra somente como investidor, com o aporte financeiro, mas não pode imiscuir-se na administração e sua responsabilidade é limitada ao capital empregado.


Foto 6. Hotel Avenida. Ao fundo o prédio da Imprensa Nacional. c.1912. Foto Marc Ferrez. Acervo Brasiliana Fotográfica
Foto 6. Hotel Avenida. Ao fundo o prédio da Imprensa Nacional. c.1912. Foto Marc Ferrez. Acervo Brasiliana Fotográfica

Francisco Cabral Peixoto, em 1900, era sócio da firma Magalhães, Curty, Cabral & Companhia, de comissões de café e outros gêneros, localizada na rua dos Ourives, número 116. Um comissário era um intermediário, um financiador ou consignatário de gêneros, entre o produtor rural e o comprador. Foi também interessado na empresa Herdy & Companhia, de 1902, do mesmo ramo de comissões. A formação dessas sociedades varia com o tempo e os interesses se entrelaçam. Abílio Herdy Alves também foi comissário de gêneros. Ele foi gerente do hotel por alguns anos e interessado na firma Souza & Cabral, que funcionava no número 156 do Avenida. O hotel Avenida teve como projetista o arquiteto Francisco de Azevedo Caminhoá. A firma tinha sede, originalmente, na rua das Laranjeiras, número 519, com capital social de 60 contos de réis. No térreo, funcionava um pátio de manobras da Companhia de Carris de Ferro Jardim Botânico e a famosa Galeria Cruzeiro, local de encontro de poetas, sambistas, diplomatas e políticos. Funcionava na Avenida Central, 156 a 162.


Foto 7. F. Cabral Peixoto, M. J. Caneiro Jr. e A. Herdy Alves. 1915. Revista da Semana. Fotógrafo Desconhecido. Acervo BNRJ
Foto 7. F. Cabral Peixoto, M. J. Caneiro Jr. e A. Herdy Alves. 1915. Revista da Semana. Fotógrafo Desconhecido. Acervo BNRJ

Mais um hotel se juntou à rede. O Fluminense Hotel, da praça da República, números 207 e 209, foi inaugurado em 1912, com 100 quartos e um jardim interno. Ele ocupou o prédio construído pelo conde Modesto Leal, especialmente para o ramo de hotéis. A firma de Manoel Joaquim Carneiro Júnior era a proprietária. O hotel era o preferido dos viajantes do Brasil, por estar próximo à Estação Central do Brasil e em frente à Praça da República. Foi reformado em 1916, ganhando mais 20 quartos.


Foto 8. Fluminense Hotel. 1923. Revista Leitura. Fotógrafo Desconhecido. Acervo BNRJ
Foto 8. Fluminense Hotel. 1923. Revista Leitura. Fotógrafo Desconhecido. Acervo BNRJ

O Rio-Palace Hotel é de 16 de outubro de 1915, da rua dos Andradas, número 10, ocupou e adaptou o edifício da loja de magazine Parc Royal, junto ao Largo de São Francisco, com 5 andares, com 100 quartos - dapós uma expansão, o número subiu para 220 acomodações. No mesmo mês, é fundada a Companhia Grandes Hotéis Centrais, tendo como diretores e administradores: F. Cabral Peixoto, presidente, Carneiro Júnior, tesoureiro e Abílio Herdy Alves, secretário.


Foto 9. Rio Palace Hotel. 1915. Revista Careta. Fotógrafo desconhecido. Acervo BNRJ
Foto 9. Rio Palace Hotel. 1915. Revista Careta. Fotógrafo desconhecido. Acervo BNRJ
Foto 9.1. Rio-Palace Hotel. Almanaque Eu Sei Tudo. 1922. Foto autor desconhecido. Acervo BNRJ.
Foto 9.1. Rio-Palace Hotel. Almanaque Eu Sei Tudo. 1922. Foto autor desconhecido. Acervo BNRJ.

Qual o padrão dos hotéis?  Primeiramente, tentavam se diferenciar das estalagens e pensões tradicionais. Deixavam claro o padrão de higiene, limpeza e “arejamento” dos quartos, ainda sob influência da “teoria” dos miasmas. A facilidade de locomoção, com a proximidade de pontos de bondes (tramway), de áreas verdes e pontos culturais. A decoração interna, sempre com indicação da procedência do mobiliário, moderno e inglês. O grande hall central, com escadarias de mármore, os vitrais e os painéis decorativos pintados, não podiam faltar. As instalações telefônicas, elétricas e hidráulicas eram valorizadas, os elevadores, pontos de iluminação e energia. Os lavabos, pias e banheiros individuais eram indicadores de luxo. Os locais de convivência acrescentavam comodidades aos hóspedes: o salão de música, de jogos, de leitura e a barbearia.


Foto 10. Rio Palace Hotel. Sala de leitura. 1915. Revista da Semana. Fotógrafo Desconhecido. Acervo BNRJ
Foto 10. Rio Palace Hotel. Sala de leitura. 1915. Revista da Semana. Fotógrafo Desconhecido. Acervo BNRJ

Foto 10.1. Sala de Espera do Grande Hotel de Barbacena. 1918. Fotógrafo desconhecido. Revista Careta. Acervo BNRJ
Foto 10.1. Sala de Espera do Grande Hotel de Barbacena. 1918. Fotógrafo desconhecido. Revista Careta. Acervo BNRJ

Foto 10.2. Sala de palestras do Rio Palace Hotel. Fotógrafo desconhecido. Gazeta de Notícias. Acervo BNRJ
Foto 10.2. Sala de palestras do Rio Palace Hotel. Fotógrafo desconhecido. Gazeta de Notícias. Acervo BNRJ

No dia 23 de março de 1918, os administradores dos Grandes Hotéis Centrais partiram de trem em direção à cidade de Barbacena para a inauguração do Grande Hotel da cidade, sua nova empreitada. O imóvel, inaugurado no dia 26 do mesmo mês, ocupava 621 metros quadrados de área, com prédio no estilo renascentista e 3 pavimentos.


Foto 11. Grande Hotel de Barbacena. 1918. Arte de autor desconhecido. Acervo BNRJ
Foto 11. Grande Hotel de Barbacena. 1918. Arte de autor desconhecido. Acervo BNRJ

O Rio Hotel, de 1919, na praça Tiradentes, junto ao Centro Paulista, precisamente na rua da carioca, faz esquina com a rua Silva Jardim. É um dos prédios que continuam de pé e é um bem “tombado” desde 2013. Construído especialmente para o ramo hoteleiro, tem 7 andares e tinha 108 quartos. Originalmente, o estabelecimento iria se chamar New York Hotel, sob influência da arquitetura dos arranha-céus daquela cidade norte-americana, mas parte do prédio em construção desabou, em 1917.


Foto 12. Rio-Hotel. Almanaque Eu Sei Tudo. 1922. Arte de autor desconhecido. Acervo BNRJ
Foto 12. Rio-Hotel. Almanaque Eu Sei Tudo. 1922. Arte de autor desconhecido. Acervo BNRJ


Foto 13. Projeto do Hotel York. Em destaque A. Herdy Alves, futuro gerente. 1917. Revista Fon Fon. Acervo BNRJ
Foto 13. Projeto do Hotel York. Em destaque A. Herdy Alves, futuro gerente. 1917. Revista Fon Fon. Acervo BNRJ

Foto 14. Bombeiros trabalham nos escombros do Hotel York. 1917. Jornal Gazeta de Notícias. Fotógrafo Desconhecido. Acervo BNRJ
Foto 14. Bombeiros trabalham nos escombros do Hotel York. 1917. Jornal Gazeta de Notícias. Fotógrafo Desconhecido. Acervo BNRJ

O Hotel Vera-Cruz é de 1922, na antiga rua Espírito Santo, número 35, atual Rua Dom Pedro I, perto da Praça Tiradentes. Tinha 120 quartos em 5 pavimentos. Foi mais um prédio adaptado para suprir a demanda por acomodações para a festa do centenário da independência.


Foto 15. Hotel Vera-Cruz. 1923. Revista Leitura. Fotógrafo Desconhecido. Acervo BNRJ
Foto 15. Hotel Vera-Cruz. 1923. Revista Leitura. Fotógrafo Desconhecido. Acervo BNRJ

Com o fim das festas, os negócios tiveram que ser reduzidos. Acrescente-se a isso o deslocamento do eixo econômico do setor hoteleiro, da área central da cidade, local de entretenimento, cultura, negócios e governamental, para a zona sul da cidade e suas praias. A bela construção que abrigou o Rio-Palace era alugada, foi entregue já em 1922, sendo adquirida pelo Banco Hipotecário Lar Brasileiro, que a manteve fechada por alguns anos até ser demolida em 1940. Hoje, o terreno abriga o edifício Patriarca. O mesmo destino teve o Hotel Avenida. O edifício foi demolido em 1957, sob protestos da população, por seu valor histórico e afetivo. No lugar foi erguido o moderno Edifício Avenida Central. Com a abertura do monstrengo chamado Avenida Presidente Vargas, em 1941, foi demolido o Hotel Fluminense. O prédio onde funcionava o Vera-Cruz fechado em 1956, é atualmente um estacionamento. O último registro de negociações de ações dos Grandes Hotéis Centrais foi em 1935, apresentando um capital social de 150 contos. Para se ter ideia, a companhia concorrente, os Hotéis Palace, detinha 12 mil e 600 contos de reis de capital.


Foto 16. Hotel Avenida. despedida. 1957. Jornal A Noite. Fotógrafo desconhecido. Acervo BNRJ
Foto 16. Hotel Avenida. despedida. 1957. Jornal A Noite. Fotógrafo desconhecido. Acervo BNRJ

Foto 17. Hotel Avenida parcialmente demolido. 1957. Jornal A Noite. Fotógrafo desconhecido. Acervo BNRJ
Foto 17. Hotel Avenida parcialmente demolido. 1957. Jornal A Noite. Fotógrafo desconhecido. Acervo BNRJ

Flavio Santos


 
 
 

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