Viva o regresso: o privilégio de partir e ter sempre para onde voltar
Depois de uma semana em São Paulo, Pedro Ramos regressa a Lisboa e reflete sobre a importância de voltar, pertencer e redescobrir a cidade onde se sente em casa.

Viva o Regresso!
Gosto muito de conjugar o verbo “ir”. Ir é movimento, descoberta, reunião, avião, agenda cheia, encontros improváveis, cidades que nos desafiam e pessoas que nos obrigam a sair de nós próprios.
Mas gosto ainda mais de conjugar o verbo “voltar”.
Voltar é um verbo de pertença. Não é recuo. Não é saudade passiva. É, muitas vezes, a mais inteligente forma de confirmar quem somos, de onde vimos e onde queremos estar.
Depois de uma semana em São Paulo, no Brasil — essa cidade intensa, gigantesca, contraditória, vibrante, onde tudo acontece ao mesmo tempo e onde ninguém parece ter tempo suficiente para tudo — regressei a casa… a Lisboa. A minha terra. A cidade que não precisa de “fazer barulho” para ser inesquecível.
E foi num domingo, depois do regresso, que percebi novamente o privilégio quase absurdo de viver onde vivo: num bairro mesmo atrás do Paço do Lumiar, uma aldeia dentro de Lisboa.
Sim, uma aldeia. Dentro de uma capital europeia.

Uma aldeia chamada Lisboa
Há quem fale de Lisboa como destino turístico, investimento imobiliário, postal ilustrado, cidade das sete colinas, elétricos amarelos e filas para comer pastel de nata. Tudo isso existe. Mas Lisboa, para quem cá vive — e, sobretudo, para quem aprende a vivê-la a pé — é outra coisa.
É uma cidade feita de pequenos regressos.
É sair de casa num domingo, caminhar pelos jardins do Paço do Lumiar, respirar com tempo, ouvir as folhas, cruzar vizinhos, famílias, cães, crianças e pessoas que ainda dizem “bom dia” sem terem uma reunião marcada para dali a dez minutos.
É perceber que se pode viver numa cidade de milhões de histórias sem perder a escala humana.
E talvez seja esse um dos maiores luxos contemporâneos: não ter de fugir da cidade para encontrar silêncio, árvores, memória e humanidade.
“Nas nossas ruas, ao anoitecer, / Há tal soturnidade, há tal melancolia”, escreveu Cesário Verde, o grande poeta que viveu exatamente aqui, no Paço do Lumiar, e por cuja porta hoje tenho a possibilidade de passar a pé…
Lisboa mudou muito desde o seu tempo. Mudaram as ruas, os sons, os prédios, os transportes, os ritmos e até os idiomas que se escutam nas esplanadas. Mas permanece uma certa melancolia luminosa, uma identidade difícil de explicar a quem chega e impossível de esquecer para quem parte.
Cesário, Lisboa e as pessoas
Passear pelo Paço do Lumiar é também passar pela memória. É passar à porta da casa de Cesário Verde e sentir que a cidade não é apenas aquilo que se vê: é aquilo que foi vivido, escrito, sentido e deixado como legado.
Cesário soube olhar Lisboa sem a maquilhagem dos postais. Viu a cidade real: a desigualdade, o trabalho, os corpos cansados, a noite, a burguesia, a rua, a doença, a modernidade que chegava sem pedir licença.
“Eu, que nas lombas dos passeios / Chuto as pedras, magoando as canelas”, escreveu ele, com aquela capacidade rara de transformar o quotidiano em literatura.
Talvez nos faça falta reler Cesário Verde justamente agora, quando tantas cidades parecem disputar a atenção do mundo, mas tantas pessoas se sentem invisíveis dentro delas.
Porque viver Lisboa não pode ser apenas consumir Lisboa.
Não pode ser só reservar mesa, encontrar estacionamento, fotografar uma vista, comentar o preço das casas ou queixar-se do trânsito. Viver Lisboa é reconhecer os seus contrastes. É valorizar quem a mantém viva: quem limpa as ruas antes de amanhecer, quem conduz, atende, ensina, trata, constrói, serve, cria, acolhe e resiste a todos os desafios…
Uma cidade não são os edifícios. Uma cidade são as pessoas que regressam diariamente a ela e a fazem engrandecer todos os dias.
São Paulo ensina, Lisboa acolhe
São Paulo tem uma força extraordinária. É uma cidade que nos acorda. Ensina-nos sobre escala, ambição, diversidade, empreendedorismo, cultura, velocidade e capacidade de fazer acontecer.
Em São Paulo, há sempre uma próxima reunião, uma próxima ideia, um próximo negócio, uma próxima conversa que pode mudar tudo.
Crédito fotográfico - Pedro Ramos
Mas Lisboa tem uma outra sabedoria.
Lisboa recorda-nos que nem tudo o que importa precisa de ser urgente. Que há conversas que precisam de tempo. Que uma caminhada sem objetivo pode ser produtiva. Que um jardim, uma árvore antiga, uma porta histórica ou uma frase de um poeta podem reorganizar-nos por dentro mais do que uma agenda preenchida.
“E eu sonho o mundo em que vivo”, parece dizer-nos Cesário Verde, através da atenção profunda que ofereceu à realidade.
Hoje precisamos desse olhar. Um olhar menos distraído, menos apressado e menos ansioso por chegar ao próximo lugar sem habitar verdadeiramente aquele onde estamos.
Voltar não é parar
Vivemos obcecados pelo verbo ir.
Ir mais longe. Ir mais depressa. Ir para fora. Ir para cima. Ir conquistar. Ir crescer. Ir publicar. Ir aparecer. Ir ganhar.
E é mesmo bom ir. Eu gosto de ir. Gosto da viagem, do encontro, da diferença, do Brasil, da intensidade de São Paulo e de tudo aquilo que nos obriga a ampliar a nossa perspetiva.
Mas voltar é o que dá sentido à partida.
Voltar é reencontrar os nossos lugares. É olhar novamente para a nossa cidade e perceber que ela também mudou enquanto estávamos fora. É reconhecer que nós próprios regressamos diferentes. É ter uma casa, uma rua, um bairro, uma memória e pessoas que nos devolvem uma parte essencial de quem somos.
O Paço do Lumiar — na minha Lisboa! —, com os seus jardins, as suas casas, as suas histórias e a sua serenidade quase improvável, recorda-me isso mesmo: Lisboa ainda pode ser cidade e aldeia; cosmopolita e intimista; moderna e profundamente histórica.
E talvez viver bem seja isto: poder partir com entusiasmo e regressar com gratidão.
Viva São Paulo. Viva o Brasil. Vivam as viagens.
Mas, hoje, domingo, entre os jardins do Paço do Lumiar e a sombra literária de Cesário Verde, digo-o sem hesitação: viva o regresso. Viva Lisboa. Viva a nossa terra.
Pedro Ramos


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