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REVISTA DO VILLA

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Villa de Rei: Uma viagem literalmente ao centro

31 de ago.
3 min de leitura

Entre serras, paisagens e silêncio, Vila de Rei revela um Portugal central que continua muitas vezes esquecido pelo olhar urbano e litoral.


Pedro Ramos - Arquivo pessoal
Pedro Ramos - Arquivo pessoal

Existem as viagens que se fazemos para fugir. Outras, para mostrar que se foi. E há aquelas, bem mais raras, que nos obrigam a parar e a perguntar se ainda sabemos onde estamos.


A minha levou-me a Vila de Rei, numa espécie de peregrinação ao Centro Geodésico de Portugal Continental. Sim, ao centro. Não ao centro onde acontecem os grandes concertos, onde abrem os restaurantes impossíveis de reservar ou onde se acumulam as inaugurações, os congressos e as coisas da moda. Ao centro verdadeiro. Aquele que a geografia decidiu assinalar, entre serras, árvores e uma tranquilidade que, para muita gente urbana, começa por ser quase suspeita. Literalmente uma viagem pelo centro do país ao lugar que é MESMO o centro de Portugal.


Chegar ali tem qualquer coisa de declaração de princípios. É sair das rotas automáticas, desligar por momentos do mapa mental que faz de Lisboa, Porto e Algarve uma espécie de triângulo amoroso nacional, e admitir uma evidência incómoda: Portugal não termina onde acaba a nossa agenda.


No alto do Picoto da Melriça (nome do lugar do cimo do monte de Vila de Rei) está uma torre geodésica. Não é uma obra feita para impressionar pelo excesso. Não há uma arquitetura extravagante a pedir prémios internacionais, nem uma sucessão de ecrãs a explicar-nos o que devemos sentir. Há pedra, há altitude, há horizonte. E há um marco que nos diz, com uma objetividade difícil de contestar, que estamos no ponto central de Portugal Continental.


Literalmente no meio.



Pedro Ramos - Arquivo pessoal


Confesso que há algo deliciosamente provocador nisso. Num país que vive tantas vezes inclinado para o litoral, onde o interior só costuma entrar na conversa quando há incêndios, eleições, promessas ou reportagens de Natal, o centro geográfico está em Vila de Rei. Não está numa grande avenida. Não está ao lado de uma sede de poder. Não tem trânsito permanente, nem uma multidão a provar que é importante.


E, talvez precisamente por isso, seja importante.


Do Centro Geodésico, a paisagem abre-se como uma resposta longa a quem pensa que Portugal é pequeno. Pequeno é, muitas vezes, o nosso olhar. Porque reduzimos o país aos lugares onde estamos, aos sítios onde o telemóvel toca mais vezes, às cidades onde a urgência parece uma medalha profissional. Depois falamos de coesão territorial como quem cita uma expressão elegante num painel de conferência, antes de regressar rapidamente à capital, ao aeroporto ou à próxima reunião online. 


Pedro Ramos - Arquivo pessoal
Pedro Ramos - Arquivo pessoal

Vila de Rei não pede licença para existir. Também não faz barulho para ser descoberta. Está ali, com a segurança de quem sabe que a sua relevância não depende de uma tendência de Instagram. E isso, nos tempos em que tudo parece precisar de ser validado por likes, é quase revolucionário.

A subida ao Picoto da Melriça é, no fundo, uma viagem em duas direções. 

Fazemo-la por estrada, claro, atravessando uma paisagem onde o verde, a serra e a água lembram que o país ainda tem espaços capazes de nos devolver a escala. Mas fazemo-la também por dentro. Porque é difícil chegar ao centro sem perceber quantas vezes vivemos deslocados do essencial. 

 

No Centro Geodésico de Portugal, percebe-se que centralidade não é sinónimo de visibilidade. Há pessoas, comunidades e territórios decisivos para o equilíbrio do país que continuam afastados da atenção mediática, política e económica. Estão no meio, mas são tratados como se estivessem nas margens. 

 

Essa é talvez a maior contradição portuguesa: chamamos “interior” a uma vasta parte do nosso centro. 

 

Vila de Rei, com as suas paisagens, os seus trilhos, as praias fluviais e a proximidade ao Zêzere, não é apenas uma coordenada. É uma proposta. A proposta de viajar mais devagar, de olhar para além do óbvio e de reconhecer que há um país inteiro entre os destinos que aparecem nos suplementos de fim de semana. 

 

A viagem a Vila de Rei é, por isso, literalmente uma viagem ao centro. 

E talvez seja também uma viagem ao que ainda nos falta centrar. 

 

Pedro Ramos


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