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Viagem ao Coração do FOLIO, em Óbidos, e os Desafios da Sociedade Contemporânea

13 de out.
3 min de leitura

Em uma das principais celebrações literárias de Portugal, o gestor português debateu com o psicanalista brasileiro Murari Jr. os impactos da alta performance, os limites humanos e a necessidade de repensar o conceito de sucesso.


Pedro Ramos e Murari Jr. - Folio 2026
Pedro Ramos e Murari Jr. - Folio 2026

Óbidos não é apenas um lugar que visitamos; é um lugar que habitamos. É uma joia medieval encrustada na paisagem portuguesa, onde o tempo parece obedecer a uma lógica própria, mais lenta e reflexiva. Caminhar pelas suas ruas de calçada irregular, entre casas caiadas de branco, adornadas com flores vibrantes e protegidas por muralhas centenárias, é a definição perfeita do que chamamos de "Vila Museu". Contudo, quando o outono se aproxima, esta vila ganha uma nova camada de significado. É quando o FOLIO – Festival Literário Internacional de Óbidos – transforma este cenário histórico no epicentro cultural da lusofonia.


O FOLIO deixou de ser, há muito, apenas um festival literário. Este é, hoje, um catalisador fundamental onde a literatura encontra a vida, a política, a ciência e a filosofia. É um espaço onde as fronteiras se dissolvem, dando lugar a uma língua comum que é, simultaneamente, casa e pontes de intercâmbio. Entre as muralhas que protegem o nosso passado, o FOLIO obriga-nos a discutir o futuro.


Este ano, tive a honra inestimável de não apenas ser espectador desta engrenagem cultural, mas parte integrante dela. Como autor, professor e, fundamentalmente, como gestor, encontrei neste festival o palco perfeito para debater um dos temas mais urgentes e críticos da nossa contemporaneidade: o "Burnout" dado que o grande tema deste ano do FOLIO é “Para além da pele”.


Pedro Ramos e Murari Jr. - Folio 2026
Pedro Ramos e Murari Jr. - Folio 2026

Num mundo que venera a produtividade extrema, falar sobre o colapso físico e mental tornou-se uma necessidade imperativa. No entanto, raramente temos a oportunidade de cruzar perspectivas para entender este fenómeno na sua complexidade. No FOLIO, tive o privilégio de protagonizar esta reflexão ao lado do psicanalista brasileiro e autor best seller, Murari Jr.


Foi um diálogo de espelhos, onde a minha visão, enquanto gestor português focado nos desafios das estruturas organizacionais e na cultura de alta performance, se encontrou com a profundidade clínica e psicanalítica de Murari. Debatemos como o excesso de produtividade não é apenas um problema de gestão de tempo, mas uma ferida aberta na alma do trabalhador moderno. Ao falarmos de Burnout, falámos de humanidade, de limites e da necessidade de redefinir o sucesso no ambiente corporativo.


A magia de Óbidos, neste ambiente de Vila Museu, funcionou como o cenário perfeito para esta desconstrução. A literatura, que aqui é celebrada com fervor, serviu de fio condutor para uma conversa que, embora técnica e reflexiva, foi profundamente humana. O FOLIO provou, uma vez mais, que a literatura não vive apenas nos livros; ela vive nos diálogos que travamos quando paramos, respiramos e nos permitimos pensar juntos. 



Óbidos/Portugal


Saí de Óbidos com a convicção de que festivais como o FOLIO são mais do que eventos; são lugares de cura através da partilha. Entre muralhas e livros, descobrimos que, quer sejamos gestores ou psicanalistas, portugueses ou brasileiros, a nossa maior luta é, afinal, a mesma: a de preservar a nossa essência num mundo que nos pede, constantemente, para sermos máquinas. E, em Óbidos, entre páginas e pedras, conseguimos, por alguns momentos, ser apenas humanos.



Pedro Ramos

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