Semente: quando a vida insiste em nascer entre as ruínas
Curta-metragem de Trycia Mello transforma o universo dos zumbis em uma reflexão poética sobre identidade, memória, liberdade e recomeços

Em um mundo onde a morte parece ter vencido e os mortos caminham entre as ruínas de uma civilização esquecida, surge uma personagem que rompe com aquilo que se espera dela. “Semente”, curta-metragem dirigido por Trycia Mello, apresenta uma narrativa pós-apocalíptica que utiliza o universo dos zumbis para falar de algo essencialmente humano: a capacidade de escolher, lembrar e acreditar que ainda pode existir vida depois do fim.
A protagonista é Zumbi Drag, personagem interpretada por Marcelo Macrina, uma drag queen zumbi que imediatamente chama a atenção pela força visual e pela simbologia. Inserida inicialmente em meio à horda, ela carrega consigo a marca de um mundo que já não existe. Entretanto, ao abandonar os demais zumbis, inicia uma trajetória silenciosa e singular.

Mais do que uma fuga, sua decisão representa uma ruptura. A personagem deixa para trás aquilo que parecia ser seu destino para seguir um impulso de preservação da vida. É justamente nessa escolha que o filme encontra uma de suas principais forças: o que significa continuar vivendo quando tudo ao redor parece condenado?
O título, “Semente”, reforça essa ideia. Uma semente representa possibilidade, transformação e continuidade. Mesmo quando plantada em um ambiente aparentemente sem vida, existe nela a potência de fazer algo novo nascer. O curta utiliza essa imagem como metáfora para mostrar que a esperança pode surgir justamente nos lugares onde ninguém mais espera encontrá-la.
A memória também ocupa um espaço importante nessa jornada. Ao recordar experiências de sua vida anterior, a protagonista estabelece uma ponte entre quem foi e quem se tornou. Ela pode ser um zumbi, mas suas lembranças revelam que sua identidade não desapareceu completamente. Há algo dentro dela que permanece — uma espécie de último vestígio de humanidade.
A escolha de uma drag queen como protagonista acrescenta ainda uma camada de representatividade e expressão artística à narrativa. A personagem não está ali apenas como parte de um cenário de horror; sua presença visual e simbólica contribui para construir uma história sobre identidade, isolamento e liberdade.
Trycia Mello conduz essa fábula por meio de uma atmosfera que mistura elementos do cinema de zumbis com uma abordagem mais poética. Em vez de apostar somente no medo e na destruição característicos do gênero, “Semente” abre espaço para a reflexão.

No fim, talvez a pergunta mais importante deixada pelo filme não seja sobre os mortos que caminham, mas sobre os vivos que ainda podem escolher seu próprio caminho.
“Semente” é, portanto, uma história sobre recomeços. Sobre aquilo que permanece dentro de nós mesmo depois das perdas. E sobre a possibilidade de fazer nascer alguma coisa nova quando o mundo parece ter chegado ao fim.
Gabriella Oliveira


Comentários