Santarém: uma hora de Lisboa e vários séculos à frente
A apenas uma hora de Lisboa, Santarém oferece horizonte, património, gastronomia e séculos de História, num ritmo tranquilo que contrasta com a pressa e a agitação da capital.

Vivo em Lisboa e gosto de viver em Lisboa. Gosto da luz, do Tejo, dos bairros, dos amigos, dos restaurantes e até daquela ilusão colectiva de que um café marcado na Baixa exige uma operação logística semelhante à organização de uma cimeira internacional. Mas chega o verão e a cidade revela o seu lado menos fotogénico: o calor sobe do alcatrão, o trânsito deixa de ser trânsito para se tornar residência permanente e há sempre alguém de chinelos a arrastar uma mala de cabine sobre a calçada como se estivesse a partir para uma missão humanitária.
Nesses dias, não preciso de consultar um motor de busca para encontrar “uma escapadinha autêntica, perto de Lisboa, com gastronomia e experiências”. Preciso apenas de entrar no carro, sair da cidade e conduzir durante uma hora até Santarém. Uma hora. Em Lisboa, é praticamente o tempo que algumas pessoas demoram entre a garagem e uma reunião em Cascais, dependendo da meteorologia, de uma obra e da decisão incompreensível de alguém parar em segunda fila.
Ao fim dessa hora, há uma mudança de cenário e, sobretudo, de atitude. Santarém não tenta vender-nos uma experiência imersiva com pulseira, promoção e desconto para a próxima visita. Está ali, no alto, a olhar para o Tejo e para a lezíria com a tranquilidade de quem já viu passar reis, exércitos, comerciantes, peregrinos e, provavelmente, mais do que uma geração de lisboetas convencidos de que tinham descoberto um segredo.

Uma cidade acima do ruído
Chegar a Santarém é subir. Literalmente. E, numa época em que tantas cidades apostam em nos obrigar a descer a parques de estacionamento ou a subir ao vigésimo piso de um hotel para encontrar uma vista, Santarém oferece logo o essencial: horizonte.
Nas Portas do Sol, o Tejo deixa de ser apenas aquele rio que atravessa Lisboa e aparece nas fotografias do pôr do sol. Aqui é vasto, lento, imenso. Espalha-se pela lezíria com uma elegância que não precisa de filtros, hashtags ou música ambiente escolhida por algoritmo. É um daqueles lugares que fazem o visitante guardar o telemóvel (celular) ou, pelo menos, baixar o braço durante trinta segundos.
Do alto, percebe-se que Santarém não é uma cidade que se explique numa fotografia. É uma cidade de escala, de camadas e de tempo. Pode não ter a ansiedade turística de Lisboa, nem a obrigação de parecer permanentemente jovem, criativa e disponível para uma selfie. E ainda bem.
A capital do Gótico, sem complexos
Chamar Santarém “Capital do Gótico” não é um slogan inventado numa reunião de marketing a pedir “uma frase curta, impactante e com potencial para redes sociais”. É uma constatação histórica, arquitectónica e, para quem gosta de cidades com substância, francamente irresistível.
A Igreja da Graça é uma paragem obrigatória. Não apenas pela imponência do edifício, mas porque é ali que repousam D. Pedro I e D. Inês de Castro; talvez o casal mais célebre da história portuguesa e, certamente, a prova de que Portugal fazia dramas amorosos intensos muito antes de as plataformas de streaming os transformarem em séries de seis temporadas.
A Igreja de São João de Alporão, a Igreja de Marvila, o Convento de São Francisco e tantos outros edifícios fazem de Santarém um verdadeiro mapa vivo da nossa História. Cada pedra parece ter mais memória do que muitas das nossas discussões públicas. E, ao contrário de certos debates televisivos, estas sobrevivem ao tempo com dignidade.
Há cidades que restauram o património para o transformar num cenário. Santarém, felizmente, ainda deixa que o património seja património: imperfeito, grandioso, silencioso e muito mais interessante do que uma fachada pintada para gerar partilhas
.
Crédito fotográfico - Pedro Ramos : Arquivo Pessoal
O Tejo não é decoração
Em Lisboa, tratamos o Tejo como uma espécie de parente ilustre: gostamos de o mostrar a quem nos visita, fotografamo-lo em dias de boa luz e prometemos ir mais vezes até à beira-rio. Depois voltamos para a agenda, para as filas e para as urgências que julgamos inadiáveis.
Em Santarém, o Tejo tem outra presença. É paisagem, fronteira, estrada antiga, fonte de riqueza e espelho de uma região inteira. Visto das Portas do Sol, ajuda a entender a importância estratégica da cidade e torna evidente uma verdade que, por vezes, esquecemos: Portugal não se construiu apenas na costa.
A lezíria, verde e ampla, lembra-nos que há um país rural, produtivo e profundamente sofisticado no seu saber, mesmo quando não aparece com frequência nos roteiros de fim de semana de quem vive entre a Foz, o Chiado e os mercados gourmet.

Comer com seriedade
Mas nenhuma crónica sobre Santarém fica completa se não se sentar à mesa. E sentar à mesa no Ribatejo exige respeito. Não é o território ideal para a dieta de castigo, para a culpa calórica ou para a fotografia de um prato onde três folhas de rúcula ocupam mais espaço do que o almoço inteiro.
Aqui come-se com densidade cultural. Há carnes, enchidos, pão, queijos, azeites, doces conventuais e vinhos que merecem mais atenção nacional do que algumas modas importadas com nomes impronunciáveis. A sopa da pedra, embora tenha em Almeirim a sua morada mais celebrada, pertence por inteiro ao espírito da região: generosa, honesta e incapaz de fingir que alimenta alguém com espuma de couve-flor.
E há os vinhos do Tejo. Durante demasiado tempo, foram tratados como uma espécie de segredo bem guardado ou uma escolha prudente numa carta onde outros nomes monopolizavam o prestígio. Felizmente, essa ideia está a mudar. Há produtores, castas, identidade e uma relação com a terra que se sente à mesa. Convém prová-los sem pressa até porque a viagem de regresso merece algum sentido de responsabilidade.
Para terminar, os celestes de Santa Clara. Não são uma sobremesa para partilhar por educação. São uma prova de carácter. Amêndoa, açúcar, tradição conventual e uma intensidade capaz de reconciliar qualquer pessoa com a ideia de que a felicidade não precisa necessariamente de ser sem glúten.
O privilégio de não ter pressa
Santarém tem uma qualidade rara: não pede licença para ser ela própria. Não procura desesperadamente ser “cool”, não se mascara de destino internacional e não parece interessada em transformar cada esquina numa activação de marca.
Talvez seja essa a razão pela qual deve ser visitada. Porque, num país cada vez mais obcecado em converter tudo em produto turístico, Santarém ainda oferece espaço para caminhar, observar e conversar. Oferece igrejas que não cabem numa legenda curta, paisagens que pedem silêncio e uma mesa que não se mede em likes.
Numa tarde de verão, sair de Lisboa e chegar a Santarém é quase um exercício de higiene mental. Troca-se a pressa pelo horizonte, o alcatrão pela lezíria, o ruído por pedra antiga e a tirania do “temos de aproveitar tudo” pelo prazer muito mais inteligente de aproveitar bem.
Uma hora de carro. Vários séculos de História. E uma lição simples para nós, lisboetas: por vezes, para encontrar Portugal, não é preciso ir muito longe. Basta sair da cidade.
Pedro Ramos


Comentários