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Revista do Villa | Entrevista: Atriz Andréia Ribeiro

Nesta edição, conversamos com Andréia Ribeiro, atriz, produtora cultural e pesquisadora, que compartilha sua trajetória artística, os desafios da profissão e sua profunda conexão com o teatro, a literatura e a memória cultural brasileira.


Imagem: Andréia Ribeiro/Divulgação
Imagem: Andréia Ribeiro/Divulgação

DM: Quando você percebeu que a atuação era mais do que um interesse e se tornaria parte da sua vida?

Andréia: Quando tento buscar na memória o início de tudo, a imagem que me vem é a de uma criança muito sensível, de olhar triste, mas ao mesmo tempo profundamente lúdica. Eu transformava a casa em palco.

As brincadeiras aconteciam entre móveis arrastados, figurinos improvisados e um olhar muito atento aos detalhes. Desde pequena, havia em mim uma necessidade quase instintiva de criar atmosferas, inventar cenas e contar histórias. Lembro que, mesmo sem compreender exatamente o que era teatro ou atuação, eu montava pequenas peças infantis e chamava minha mãe e os vizinhos para assistir. Eu tinha apenas sete anos.

Também amava assistir novelas e uma que me marcou profundamente foi Escrava Isaura.

Quando vi Léa Garcia interpretando Rosa, fiquei completamente impactada pela força do seu olhar e pela intensidade da sua presença em cena.

Minha mãe, Marisete, uma mulher silenciosa e observadora, percebeu isso antes mesmo de eu conseguir nomear meus sonhos. A vida foi conduzindo tudo de forma muito bonita. Tive a sorte de encontrar mestres fundamentais no meu caminho, como Sérgio Britto e Hamilton Vaz Pereira. Depois, segui minha formação na Casa das Artes de Laranjeiras (CAL), onde compreendi definitivamente que a atuação não era apenas um interesse: era a minha vida.


DM: Qual personagem, espetáculo ou trabalho mais marcou sua trajetória até agora?

Andréia: Tenho uma trajetória da qual me orgulho profundamente. Quando olho para trás e vejo a menina que fui, as dificuldades que enfrentei e todo o esforço da minha mãe para investir nos meus sonhos, sinto uma emoção muito grande.

Na televisão, destaco a personagem Zita, da minissérie Memorial de Maria Moura, meu primeiro trabalho na TV Globo. Foi uma experiência inesquecível ao lado de atrizes extraordinárias como Glória Pires, Cristiana Oliveira e Zezé Polessa.

Mas foi no teatro que vivi um dos encontros mais transformadores da minha vida artística: a obra de Carolina Maria de Jesus. Há mais de uma década estou em cena com o solo Carolina Maria de Jesus – Diário de Bitita, assumindo não apenas a função de atriz, mas também de pesquisadora e produtora.

Aprendo com Carolina todos os dias. O que mais me atravessa é sua capacidade de transformar dor em literatura e realidade em poesia. Essa personagem me permite algo raro: amadurecer junto com ela. Cada ano vivido acrescenta novas camadas à interpretação.

Hoje vivemos uma fase muito bonita de internacionalização da obra, levando a história de Carolina para novos públicos e novos países.


DM: Como funciona o seu processo de preparação para interpretar uma personagem?

Andréia: Sempre fui uma atriz que compreendeu muito cedo que o corpo é o território de onde nascem minhas ações em cena. Meu processo de criação parte, antes de tudo, do corpo. Antes da palavra, vem o gesto, a respiração, a presença e a memória corporal.

Essa percepção me levou à formação técnica em dança contemporânea e posteriormente à pós-graduação em Preparação Corporal para as Artes Cênicas na Escola e Faculdade Angel Vianna.

O encontro com Angel Vianna transformou profundamente minha vida e minha percepção sobre o corpo.

Aprendi a escutar os pequenos territórios do movimento, os silêncios, as tensões e tudo aquilo que o corpo revela antes mesmo da fala existir.

A construção de uma personagem começa justamente aí: na observação da energia, do ritmo, da respiração, da forma de caminhar, olhar e ocupar o espaço. Aos poucos, a palavra encontra seu lugar dentro dessa arquitetura interna.


DM: Quais são os maiores desafios enfrentados atualmente pelas atrizes no cenário artístico?

Andréia: Acredito que um dos maiores desafios seja a falta de incentivo e de políticas culturais que tenham compromisso com a continuidade dos projetos.

A arte no Brasil muitas vezes sobrevive graças à resistência de quem a produz. No meu caso, manter vivo, desde 2013, o espetáculo Carolina Maria de Jesus – Diário de Bitita sempre foi um exercício diário de persistência.

Ao longo dessa trajetória, precisei aprender todas as etapas da produção cultural: elaboração de projetos, leis de incentivo, editais, captação de recursos e construção de parcerias.

Também acredito que ainda existe pouca valorização da trajetória das mulheres artistas ao longo do tempo.

Muitas atrizes precisam lutar constantemente para continuar produzindo, pesquisando e sendo vistas com profundidade, especialmente aquelas que escolhem caminhos ligados à literatura, ao teatro e à preservação da memória cultural.

Investir em cultura deveria ser entendido como um compromisso permanente com a transformação da sociedade.


DM: Que mensagem ou sentimento você busca transmitir ao público através da sua arte?

Andréia: O teatro, para mim, é um lugar de transformação.

Existe algo de profundamente arrebatador na arte. Ela tem a capacidade de tocar as pessoas, provocar reflexão, despertar emoções, curar feridas invisíveis e gerar mudanças.

Acredito na arte como encontro. Um encontro capaz de produzir empatia, consciência e sensibilidade.

Quando estou em cena, desejo que o público saia dali atravessado de alguma forma: mais conectado consigo mesmo, com o outro e com o mundo.

Através da minha arte, procuro transmitir conforto, amor e coragem. Quero colaborar para a construção de indivíduos mais humanos, mais lúcidos e de uma sociedade mais justa.

Talvez essa seja a missão que mais me move: usar a arte não apenas para entreter, mas também para criar memória, pertencimento e transformação.


Imagem: Andréia Ribeiro/Divulgação
Imagem: Andréia Ribeiro/Divulgação

Sobre a entrevistada:

Andréia Ribeiro

Atriz, produtora cultural e pesquisadora, nasceu no Rio de Janeiro

e construiu uma trajetória sólida no teatro, cinema e televisão.

É formada em Teatro pela Casa das Artes de Laranjeiras (CAL), possui formação técnica em Dança Contemporânea e pós-graduação em Preparação Corporal para as Artes Cênicas pela Escola e Faculdade Angel Vianna.

Também é graduada em Comunicação Social – Relações Públicas pela Universidade Gama Filho.

Participou de importantes montagens teatrais, entre elas O Alienista, Bonitinha, Mas Ordinária,

Os Sete Gatinhos, Yerma e Cai o Pano.

É sócia-diretora da Casa Forte Produções Culturais e Esportivas e desenvolve, desde 2013, projetos de relevância artística e social.

Seu trabalho de maior projeção é o espetáculo solo Carolina Maria de Jesus – Diário de Bitita, do qual é atriz, pesquisadora e produtora. A montagem percorreu importantes festivais, teatros e eventos literários no Brasil

e no exterior, incluindo apresentações na Alemanha e participação no Festival Internacional de Teatro Sommerwerft, em Frankfurt.

Na televisão, participou de produções como Memorial de Maria Moura, Tocaia Grande, Mulheres Apaixonadas,

A Grande Família, Pé na Jaca e Chiquinha Gonzaga.

No cinema, integrou o elenco do longa-metragem A Suspeita (2023), estrelado por Glória Pires e dirigido por Pedro Peregrino.

Também participou do documentário Carolina, exibido pelo Canal GNT, além de ministrar oficinas de teatro para crianças, jovens e adultos em diferentes regiões do Brasil.



Conteúdo digital

Delcio Marinho & ChatGPT 

Delcio Marinho

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