Quando o silêncio adoece: a dor que homens e pessoas LGBTQIA+ escondem tem nome
- José Gabriel Almeida

- 12 de jul.
- 3 min de leitura
Em pleno século XXI, falar sobre saúde mental tornou-se mais comum, mas isso não significa que todas as pessoas se sintam autorizadas e confortáveis a falar sobre o que vivem. Entre homens e pessoas LGBTQIA+, o silêncio ainda é uma das formas mais presentes de sofrimento.

Durante muito tempo, a masculinidade foi construída sobre ideias de força, controle e resistência. Demonstrar fragilidade, pedir ajuda ou expressar emoções foi, para muitos, interpretado como sinal de fraqueza. Ao mesmo tempo, pessoas LGBTQIA+ frequentemente cresceram lidando com o medo da rejeição, da discriminação e da necessidade constante de corresponder às expectativas de outras pessoas.
Essas experiências deixam marcas que nem sempre aparecem de forma evidente. Ansiedade, depressão, sensação de inadequação, dificuldades nos relacionamentos, baixa autoestima e solidão podem ser apenas algumas das formas pelas quais esse sofrimento se manifesta.
A psicanálise oferece um caminho diferente. Em vez de buscar respostas rápidas ou enquadrar histórias em modelos prontos, ela propõe um espaço de escuta onde cada pessoa pode compreender sua própria trajetória, reconhecer seus conflitos e construir novos sentidos para aquilo que vive, no seu tempo e do seu próprio jeito.
Mais do que tratar sintomas, trata-se de compreender o sujeito em sua singularidade.
Nos últimos anos, cresce também a procura de homens por acompanhamento psicológico. Esse movimento revela uma mudança cultural importante: reconhecer que vulnerabilidade não é o oposto da força, mas parte da experiência humana. Cuidar da saúde mental significa desenvolver relações mais saudáveis consigo mesmo, com a família, com os afetos e com a sociedade.
Na comunidade LGBTQIA+, a clínica também ocupa um papel fundamental. Muitas pessoas chegam ao consultório carregando histórias marcadas por preconceito, invisibilidade, violência simbólica ou conflitos relacionados à aceitação da própria identidade. Encontrar um espaço livre de julgamentos pode representar o início de um processo de reconstrução da autoestima e do pertencimento.
É nesse contexto que desenvolvo meu trabalho como psicanalista, com foco no atendimento de homens e da população LGBTQIA+. Também integro a equipe do Instituto da Mente Ricardo Mello, em Campinas (SP), onde participo de um projeto de atendimentos com valores sociais, ampliando o acesso ao cuidado emocional para pessoas de diferentes realidades econômicas.

Os atendimentos on-line também fazem parte dessa proposta de inclusão, permitindo acompanhar pacientes em diversas regiões do Brasil e brasileiros que vivem no exterior. A tecnologia aproxima pessoas, rompe barreiras geográficas e amplia o acesso a um espaço de escuta qualificada.
Além da clínica, compartilho reflexões sobre saúde mental, psicanálise, masculinidades e diversidade no perfil profissional @jgalmeida.psi, acreditando que informação de qualidade também é uma forma de cuidado e prevenção.
Ainda há muito a ser feito para que homens e pessoas LGBTQIA+ sintam que podem buscar ajuda sem medo, vergonha ou preconceito. Promover saúde mental é também promover direitos, inclusão e dignidade. Afinal, toda pessoa merece um lugar onde possa falar de sua história sem precisar esconder quem é.
Mais do que nunca, a escuta deixou de ser apenas um recurso terapêutico. Tornou-se um compromisso social com a construção de comunidades mais humanas, diversas e emocionalmente saudáveis. Porque, quando o silêncio se prolonga, ele deixa de ser apenas ausência de palavras e passa a falar através da dor, da ansiedade, do medo e da solidão. Dar nome a esse sofrimento é o primeiro passo para transformá-lo. É por isso que compreender, acolher e escutar não são apenas gestos de cuidado, mas também de liberdade. Quando o silêncio adoece, a dor que homens e pessoas LGBTQIA+ escondem tem nome e também pode encontrar um caminho de escuta, elaboração e mudança.
Adilson Henrique, José Gabriel

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