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LUSO-BRASILEIRA

REVISTA DO VILLA

Luso-Brasileira

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Quando cuidar também é resistir. 

Ao longo desta coluna, tenho escrito sobre os diferentes universos que atravessam a vida das mulheres. Desta vez, o olhar se volta para as mães atípicas, que transformam o cuidado diário em resistência e mostram que inclusão também começa quando suas histórias são contadas. 


 Foto: Arquivo pessoal / Bruna Moreira
Foto: Arquivo pessoal / Bruna Moreira

Julho é um convite para olhar para as mulheres negras em toda a sua potência, mas também para os desafios que ainda enfrentam. No mês em que se celebra o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, histórias de resistência ajudam a compreender como raça, gênero e maternidade ainda atravessam a vida de milhares de brasileiras.


Entre tantas trajetórias possíveis, existe uma que merece ser contada. A de Bruna Moreira, mulher negra, jornalista, escritora e mãe atípica, que transformou a própria experiência em um movimento de acolhimento, inclusão e defesa de direitos.


Há histórias que começam onde a maioria das pessoas desvia o olhar. A de Bruna começou nos sinais de trânsito, vendendo doces ainda criança. Cresceu conhecendo de perto a desigualdade, a invisibilidade e a necessidade de amadurecer antes do tempo.


Sua trajetória revela que o protagonismo nem sempre nasce das oportunidades, mas da coragem de transformar a dor em propósito.

Anos depois, já mãe de Rauan, sua vida ganhou um novo rumo com a chegada de Calleb, seu filho adotivo, uma criança com deficiência.


O ponto de virada aconteceu quando tentou matricular Calleb em uma escola da rede privada e teve a matrícula recusada pelo fato de ele utilizar cadeira de rodas.

O que poderia ter sido apenas mais um episódio de discriminação tornou-se o início de uma transformação.

Ao perceber que tantas outras mães viviam situações semelhantes, Bruna criou o Voz Atípica, um projeto de comunicação voltado ao acolhimento de famílias, à disseminação de informação e à defesa dos direitos das pessoas com deficiência.


Imagem: Bruna Moreira - Foto: Divulgação
Imagem: Bruna Moreira - Foto: Divulgação

"Ser uma mulher negra, mãe atípica e comunicadora me ensinou que ocupar espaços também é um ato de resistência. Cada conquista minha carrega a responsabilidade de abrir caminho para que outras mulheres sejam vistas, ouvidas e respeitadas", afirma Bruna.


A iniciativa nasceu de uma experiência pessoal, mas dialoga com uma realidade muito maior.

Dados debatidos com base em levantamentos do IBGE apontam que aproximadamente 2,4 milhões de mulheres brasileiras cuidam de filhos com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Um levantamento histórico do Instituto Baresi revela ainda que cerca de 78% dos pais abandonam o lar antes de a criança completar cinco anos, fazendo com que grande parte dessas mulheres assuma sozinha o cuidado, a renda e toda a rotina familiar. 


Além da sobrecarga física e emocional, muitas convivem diariamente com a escassez de centros públicos especializados, longas filas para terapias, burocracia para acessar direitos e dificuldades para permanecer no mercado de trabalho. Não são poucas as que reduzem a jornada profissional ou até abandonam suas carreiras para garantir o desenvolvimento e a qualidade de vida dos filhos.


Foi justamente da necessidade de dar voz a essa realidade que Bruna decidiu cursar Jornalismo. A comunicação tornou-se sua principal ferramenta de transformação social.

Além de fundar o Voz Atípica, ela é autora do livro Dando Voz com Propósito: A Jornada de uma Mãe Atípica e apresenta o podcast Agora Me Conta, espaços onde amplia o debate sobre inclusão, pertencimento e direitos.


Sua trajetória ganha um novo capítulo no próximo dia 5 de agosto, quando participa da Rio Innovation Week, levando ao público uma reflexão sobre convivência, acessibilidade e a construção de uma sociedade verdadeiramente inclusiva.

As mães atípicas não precisam ser tratadas como heroínas. Precisam ser reconhecidas como mulheres que têm direito ao acolhimento, a políticas públicas efetivas e a uma rede de apoio capaz de dividir um cuidado que nunca deveria ser solitário.

E quando essa mulher também é negra, as barreiras costumam ser ainda maiores. Por isso, histórias como a de Bruna Moreira ultrapassam a experiência individual. Elas revelam a força de mulheres que transformam a própria vivência em ferramenta de mudança e nos lembram que inclusão, equidade e pertencimento não podem ser privilégios, mas direitos garantidos a todas.



Ana Paula de Deus

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