Quando as telas ocupam o lugar dos pais: há consequências
- Igor Alcantara

- 13 de jul.
- 3 min de leitura
A tecnologia continuará evoluindo, mas a presença, o diálogo e o afeto permanecem insubstituíveis.
Em um mundo cada vez mais conectado, talvez o maior desafio seja fortalecer as conexões que acontecem dentro de casa.

A tecnologia trouxe inúmeros benefícios para o dia a dia, aproximando pessoas e facilitando o acesso à informação e ao entretenimento. No entanto, ela também passou a ocupar um espaço que antes era reservado às relações familiares. Em muitos lares, o tempo de qualidade entre pais e filhos vem sendo substituído pelas telas dos celulares, pelos serviços de streaming, pelos jogos eletrônicos e pelas redes sociais.
A rotina acelerada e as exigências do trabalho fazem com que muitos pais tenham cada vez menos tempo para conversar, brincar, ouvir e participar da vida dos filhos. Como consequência, dispositivos eletrônicos acabam assumindo o papel de companhia constante. Embora ofereçam entretenimento, essas ferramentas não substituem o afeto, o diálogo, a orientação e a presença que apenas a família pode proporcionar.
Essa realidade pode enfraquecer os laços familiares, tornando a convivência mais superficial e distante. Crianças e adolescentes crescem cercados de estímulos digitais, mas, muitas vezes, carentes de atenção, escuta e momentos compartilhados com seus responsáveis. O resultado é uma comunicação cada vez mais limitada, em que cada integrante da família vive conectado ao próprio mundo, mesmo estando sob o mesmo teto.
A autonomia precoce no ambiente digital também exige atenção. Sem o acompanhamento adequado, crianças e adolescentes podem compartilhar informações pessoais, interagir com desconhecidos ou consumir conteúdos inadequados para a idade sem perceber os riscos envolvidos. A internet oferece inúmeras oportunidades para aprender e se conectar, mas, como qualquer ambiente de convivência, também pode ser frequentada por pessoas mal-intencionadas que se aproveitam da ingenuidade ou da vulnerabilidade dos mais jovens.
Outro aspecto que merece atenção é a crescente exposição de crianças e adolescentes em redes sociais por meio de vídeos que reproduzem coreografias, danças e tendências originalmente criadas para o público adulto.
Em algumas situações, menores aparecem dançando músicas com letras de conteúdo sexual ou realizando movimentos sensualizados para obter visualizações e engajamento em plataformas como o TikTok. Especialistas em proteção da infância alertam que essa exposição pode favorecer a sexualização precoce, ampliar a circulação de imagens para públicos desconhecidos e aumentar a vulnerabilidade a abordagens inadequadas. Por isso, a supervisão dos responsáveis e o diálogo sobre o uso consciente das redes sociais são fundamentais.
Os números reforçam a importância desse acompanhamento. Dados da SaferNet Brasil mostram que a exploração sexual de crianças e adolescentes permanece entre as principais denúncias recebidas pelo Canal Nacional de Denúncias. Até o fim de 2024, a entidade contabilizou mais de 2,1 milhões de denúncias relacionadas a links com imagens de abuso e exploração sexual infantil. Já entre janeiro e julho de 2025, foram registradas 49.336 denúncias, o equivalente a 64% de todas as notificações recebidas pela plataforma no período.
O cenário exige atenção, mas não significa que a internet seja, por si só, um ambiente inseguro. Segundo a Childhood Brasil, cerca de 92% das crianças e adolescentes brasileiros, entre 9 e 17 anos, utilizam a internet, o que reforça a necessidade de educação digital e acompanhamento familiar. A entidade também destaca que o Brasil está entre os países com maior número de denúncias de abuso e exploração sexual infantil online, evidenciando a importância de orientar crianças e adolescentes sobre privacidade, exposição de informações pessoais, produção e compartilhamento de conteúdo e interação com desconhecidos.
Mais do que fiscalizar, a presença dos pais representa orientação, diálogo e confiança. Acompanhar os conteúdos que os filhos assistem, as músicas que reproduzem, os desafios dos quais participam e o tipo de exposição nas redes sociais é uma forma de proteger sem impedir o acesso à tecnologia. Quando a família acompanha a vida digital dos filhos e mantém uma comunicação aberta, aumentam as chances de que crianças e adolescentes reconheçam situações de risco, façam escolhas mais conscientes e saibam pedir ajuda sempre que necessário.

Resgatar o convívio familiar não significa abandonar a tecnologia, mas encontrar um equilíbrio.
Reservar momentos sem telas para conversar, fazer refeições juntos, brincar, passear ou simplesmente estar presente fortalece vínculos e cria memórias que nenhum aplicativo é capaz de oferecer.
Afinal, o tempo dedicado aos filhos não é apenas um gesto de carinho, mas um investimento na formação de adultos emocionalmente mais seguros, preparados para lidar com os desafios do mundo real e do universo digital,
e conectados às pessoas que realmente importam.
Ígor Alcantara

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