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Revista do Villa

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Portugal e Brasil. Falamos a mesma língua… ou andamos só a fingir?

'Falamos a mesma língua, sim. Mas vivemo-la de formas diferentes.' - Por Pedro Ramos



Potugal e Brasil. Somos tão próximos na história, tão íntimos na língua… e, ainda assim, tantas vezes estranhos uns para os outros. E talvez seja inevitável começar pelo óbvio que, afinal, não é assim tão óbvio: a língua.

Dizemos, com uma convicção quase preguiçosa, que falamos a mesma língua. Português. Ponto final.

Mas será mesmo?

Basta deixar a teoria e entrar na prática! Em Portugal, pedimos para ir à “casa de banho”.

No Brasil, procuramos o “banheiro”. Em Portugal começamos o dia com “pequeno-almoço”.

No Brasil, com “café da manhã”. Em Portugal atendemos o “telemóvel”. No Brasil, o “celular”.

Até aqui, tudo parece “folclore linguístico”, curioso, até simpático.

Mas não nos enganemos: não são apenas palavras diferentes. São formas diferentes de organizar a realidade.

O português tende a descrever as coisas com uma precisão funcional, muitas vezes mais literal.

O brasileiro pinta a linguagem com mais contexto, mais imagem, mais proximidade ao uso vivido.

Um simplifica. O outro aproxima.

E depois chegam as subtilezas; aquelas que verdadeiramente criam ruído.


Em Portugal, despedimo-nos com um “cumprimentos” ou, num registo mais próximo, “beijinhos”.

Há medida, há controlo, há dose certa de proximidade. No Brasil, alguém pode terminar uma conversa profissional com um caloro “um cheiro” - especialmente no Nordeste - carregado de afeto, de cultura, de identidade.

Para um português, pode soar excessivo. Para um brasileiro, é simplesmente humano.

E é aqui que a questão deixa de ser linguística e passa a ser cultural.


Porque quando um português ouve mais emoção, pode desconfiar de falta de rigor. Quando um brasileiro ouve mais contenção, pode interpretar distância ou frieza. E ambos estão, silenciosamente, a julgar o outro… sem perceber que estão apenas a traduzir mal.

Voltamos então às expressões que parecem inocentes, mas não são.

“Logo vemos”, em Portugal, pode ser um elegante “não”. “A gente vê isso”, no Brasil, pode ser um compromisso real ou, simplesmente, uma forma diplomática de não fechar a porta. “Se calhar” carrega ponderação; “imagina” carrega empatia. “Pois” (essa obra-prima portuguesa!) pode significar tudo… e o seu contrário.

O problema não está na língua que falamos.

Está na ilusão de que não precisamos de a interpretar.


E enquanto continuarmos a confundir vocabulário com entendimento, vamos continuar a ter equipas desalinhadas, lideranças frustradas e relações profissionais cheias de ruído invisível.

Este é o primeiro ponto desta jornada sobre Pessoas entre Portugal e Brasil: a comunicação não falha por falta de palavras.

Falha por excesso de pressupostos.


E talvez esteja na altura de deixarmos de assumir que nos entendemos… só porque reconhecemos as palavras.

Porque, no fim do dia, o verdadeiro desafio nunca foi falar português.

Foi (e continua a ser!) entender o que o outro realmente quis dizer.



Colunista: Pedro Ramos

Gestor, Professor, Autor e Palestrante Internacional. Doutorado em Economia e apaixonado por Pessoas. Especialista em Liderança e Gestão de Pessoas na Lusofonia


 

Pedro Ramos

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