Pedro Ramos: Turistando na Minha Cidade
- Pedro Ramos

- 11 de jul.
- 2 min de leitura
Em um fim de semana de sol, o colunista redescobre Lisboa como se fosse um destino inédito e mostra que, por vezes, a viagem mais transformadora acontece no lugar que sempre chamamos de casa.

Viajo com frequência. Por trabalho, por curiosidade, por paixão. Já caminhei por cidades que nos esmagam pela sua dimensão e por outras que nos conquistam pela subtileza. De Luanda a São Paulo, do Rio de Janeiro a Maputo, há um fio invisível que me liga a cada uma delas: a língua, a cultura, a forma como habitamos os lugares.
Mas, curiosamente, foi em Lisboa (a minha cidade!) que decidi, neste fim de semana de sol pleno, fazer
uma das viagens mais inesperadas: olhar para ela como se fosse a primeira vez.
Saí de casa cedo neste sábado, com o mesmo espírito com que chego a qualquer destino novo. Sem pressa. Com atenção. Com abertura. Subi as colinas de sempre, mas com um olhar diferente. Alfama, Mouraria, Castelo... nomes familiares, quase íntimos, revelaram-se como territórios a descobrir.

Há algo de profundamente lusófono em Lisboa. Não apenas na língua que se escuta, mas na forma como o tempo acontece. Uma cadência própria, um equilíbrio entre intensidade e contemplação que reconheço noutras geografias que também são minhas.
Lisboa não é apenas europeia. Lisboa é uma gigante ponte.
E talvez por isso, ao percorrer as suas ruas estreitas, senti ecos de outras cidades que já vivi. Nos azulejos, nas cores gastas pelo tempo, nos sons que se cruzam entre o tradicional e o contemporâneo, há uma familiaridade que transcende fronteiras.
Os cheiros trouxeram-me memórias. O café forte, o pão quente, o peixe grelhado; tão nossos, tão partilhados. Há uma identidade sensorial que une o mundo lusófono e que, em Lisboa, ganha uma expressão única.
E depois, as pessoas. Sempre as Pessoas...
Enquanto viajante, aprendi que são sempre as pessoas que definem um lugar. Em Lisboa, encontrei aquilo que tantas vezes procuro noutras cidades: autenticidade. Um sorriso genuíno, uma conversa que começa sem esforço, uma hospitalidade que não é encenada.
No Castelo de São Jorge, parei. Como já parei em tantos miradouros pelo mundo. Mas este é diferente. Talvez por ser meu.Lá de cima, o Tejo impõe-se com uma serenidade que nos obriga a desacelerar. Olhei para a cidade e, por momentos, vi-a como vejo qualquer outro destino: com curiosidade, respeito e encantamento.
s depois reconheci-me nela.
Foto: Pedro Ramos
Ser turista na minha Lisboa foi mais do que um exercício de observação. Foi um reencontro. Um lembrete de que, mesmo para quem viaja tanto, há viagens que só acontecem quando paramos.
Neste fim de semana de sol, calor e cores, percebi que Lisboa continua a ensinar-me, não como ponto de partida, mas como lugar de regresso.
E talvez seja isso que a torna tão especial.
Lisboa não é apenas a cidade de onde parto.
É, cada vez mais, a cidade à qual volto com um novo olhar.
Pedro Ramos

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