Pedro Ramos: Rumo ao Oriente... uma paragem na Grande Istambul!
- Pedro Ramos

- 23 de jun.
- 3 min de leitura
Há cidades que se visitam. E há cidades que nos visitam. Istambul pertence descaradamente à segunda categoria.

Saí de Lisboa às quatro da manhã. A cidade ainda dormia, mas eu não. Há qualquer coisa de profundamente simbólico em partir antes do mundo acordar, como se a viagem começasse antes do primeiro passo, num território invisível entre o que deixamos e o que ainda não sabemos que vamos encontrar.
Rumo ao Oriente.
Mas o Oriente, como quase tudo na vida, não se alcança de uma só vez. Faz-se de escalas. E a minha tinha nome próprio: Istambul.
Talvez seja pela história que se respira em cada esquina (não apenas aquela história museológica, arrumada e certinha) mas uma história viva, desorganizada, quase caótica, onde impérios ainda parecem sussurrar nas paredes gastas e nas pedras irregulares em todas as esquinas. Talvez sejam as pessoas, que carregam no olhar uma mistura improvável de intensidade e acolhimento. Ou talvez seja a cor da cidade… essa paleta estranhamente familiar que me faz lembrar Lisboa, como se fossem primas afastadas que cresceram em continentes diferentes mas nunca perderam o sotaque comum (Lisboa e Istambul têm a mesma cor, o mesmo clima, os mesmos barcos que tanto passeiam no Tejo como atravessam o Bósforo...).
Istambul não é bonita de forma óbvia. É magnética.
E depois há o Bósforo.
Ah, o Bósforo… essa linha líquida que não separa apenas continentes, mas também estados de espírito. Ali, entre a Europa e a Ásia, tudo parece possível até a ideia de que as fronteiras entre continentes são apenas convenções que insistimos em levar demasiado a sério.
Os barcos cruzam-se de um lado para o outro, lembrando-me inevitavelmente os cacilheiros de Lisboa. Não pela forma apenas, mas pela função quase poética: ligar margens, transportar vidas, encurtar distâncias que, no fundo, nunca foram assim tão grandes.
Fiquei ali algum tempo a observar. Porque há momentos que não pedem fotografia: pedem presença.
Istambul ensina-nos isso sem pedir licença: que o mundo não é linear, que a identidade não é fixa, e que a verdadeira riqueza está, muitas vezes, no cruzamento de culturas, de histórias, de perspetivas. A “catedral” dessa confluência chama-se “Grande Bazar”.
O Grande Bazar em Istambul é uma dessas paragens que não se visitam apenas, atravessam-se com o corpo, com os sentidos e com uma certa disposição para se perder com prazer. É um labirinto histórico no coração da cidade, com milhares de lojas, ruas cobertas e uma energia que mistura comércio, memória e teatro quotidiano. Nunca perco um passeio em estilo “imersão total” a este local mágico.
Há bazares onde se compra. E há bazares onde se entra quase como quem entra numa narrativa. O Grande Bazar pertence a esta segunda espécie: cheira a especiarias, ouro, couro, café e conversa; brilha com cores, texturas e vozes; e parece dizer-nos que negociar também pode ser uma arte, não apenas uma transação.
Talvez seja por isso que gosto tanto desta cidade. Porque ela não tenta resolver as suas contradições. Abraça-as.
E nós? Quantas vezes tentamos ser uma coisa só, quando poderíamos ser muitas?
A viagem continuava. O Oriente chamava. Mas havia já uma certeza silenciosa a instalar-se: às vezes, o destino não é o ponto final. É aquilo que acontece nas paragens inesperadas.
E Istambul… não é uma paragem.
É um convite.
Um convite a viver entre mundos, a pensar sem fronteiras, e sobretudo, a nunca aceitar que o caminho tenha de ser apenas um que leve ao mesmo lugar.
Segui viagem.
Mas, como acontece com as cidades que realmente importam, uma parte de mim ficou ali, suspensa entre dois continentes, a ver barcos passar como quem percebe, finalmente, que talvez o segredo não esteja em chegar.
Mas em o atravessar.
Pedro Ramos

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