Pedro Ramos: "Gosto de conjugar o Verbo IR!"
- Pedro Ramos

- 24 de jun.
- 2 min de leitura
Há verbos que se dizem. E há verbos que se vivem. “Ir” pertence à segunda categoria: é movimento, inquietação, curiosidade e, acima de tudo, uma recusa elegante de ficar preso ao mesmo mapa interior durante demasiado tempo.

Conjugar o verbo ir é um prazer porque nos tira da loucura da rotina. Obriga-nos a sair da zona de conforto, esse lugar tão sedutor onde tudo é previsível, mas onde também tudo tende a encolher. Quando vamos, quando partimos, quando nos expomos ao que não conhecemos, deixamos de ser apenas espectadores da nossa própria vida e passamos a ser aprendizes do mundo.
E é precisamente isso que estou a fazer nesta viagem rumo ao Oriente: partir para partilhar experiências, conhecimentos e, sobretudo, para trazer comigo novas aprendizagens.
Porque viajar, para mim, nunca é apenas deslocar-me. É voltar mais rico em perspetivas, mais atento às diferenças, mais disponível para compreender o que o mundo ainda tem para ensinar.
Viajar, conhecer novas pessoas, entrar em novas organizações, provar novos sabores, ouvir novos sotaques (“accents”), observar outras formas de trabalhar, de liderar, de viver e de pensar, tudo isso nos confronta com uma verdade simples: o mundo é muito maior do que os nossos hábitos. E isso, longe de nos diminuir, amplia-nos.
Porque o desconforto bem vivido não enfraquece; educa-nos (e muito!).
Há um enorme prazer em perceber que cada viagem nos desarruma um pouco. Que cada encontro nos desafia.
Que cada cidade nos obriga a ajustar o olhar. Que cada cultura nos pede humildade. E a humildade, neste contexto, não é submissão; é inteligência. É aceitar que aprender exige aceitar não saber. Que crescer exige alguma fricção. Que amadurecer implica, muitas vezes, sair do sofá mental onde nos instalámos sem dar por isso.
A zona de conforto é útil para descansar. Mas perigosa para viver em permanência. Porque aquilo que não nos desafia começa lentamente a repetir-nos. E o pior que nos pode acontecer não é errar num lugar novo; é deixar de nos surpreender. Viajar devolve-nos essa surpresa. Faz-nos reaprender a escutar, a observar, a adaptar-nos.
E essa capacidade de adaptação é uma das competências mais valiosas da vida.
No fundo, ir é muito mais do que deslocar-se. É aceitar o convite para ser mais amplo e amplificado, mais disponível, mais vivo. É perceber que o desconforto não é um inimigo a evitar, mas muitas vezes a porta de entrada para uma versão melhor de nós próprios.
Por isso, gosto do verbo “ir”. Porque ir é partir, mas também é crescer. É sair, mas também é voltar diferente.
É atravessar fronteiras externas para ampliar fronteiras internas.
E talvez seja precisamente aí que mora o verdadeiro prazer: no ponto exato em que o conforto termina e a vida, finalmente, começa.
Pedro Ramos

Comentários