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Revista do Villa

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“Os meus heterónimos vivem todos na mesma casa”, disse escritor português durante entrevista à revista árabe

Imagem: João Morgado, escritor/divulgação


O escritor português João Morgado é o protagonista de uma extensa entrevista conduzida pela jornalista e romancista egípcia Nesrein El-Bakhshawangy para a prestigiada revista Al Majalla, publicação de referência dirigida ao público árabe. A conversa aprofunda os diferentes géneros literários, temáticas e estilos que caracterizam a obra multifacetada do autor.


“Os meus heterónimos vivem todos na mesma casa e olham o mundo da mesma varanda”. É desta forma que João Morgado define o seu percurso literário. Com uma trajetória profissional que passou pela indústria têxtil, jornalismo, marketing, política e escrita de guiões, o autor transporta para a literatura essa multiplicidade de experiências. Romance histórico, narrativa intimista, literatura infantil, poesia e teatro coexistem na sua bibliografia sem hierarquias.


“A identidade literária não precisa de ser una para ser autêntica”, afirmou.


Heróis humanizados: a História sem pedestais


Na linha de Alexandre Herculano, mas com uma abordagem mais crítica e menos alinhada com versões oficiais, João Morgado dedica-se a retratar figuras históricas nas suas dimensões humanas – virtudes e falhas incluídas. Na sua Trilogia dos Navegantes (Índias / Dust in the Gale, Vera Cruz e Fernão de Magalhães e a Ave-do-Paraíso), Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral e Fernão de Magalhães emergem como homens de carne e osso, confrontados com dilemas morais, ambições desmedidas e decisões impossíveis.


“Ser herói de um povo não é o mesmo que ser santo", escreveu o autor, rejeitando tanto a deificação como o julgamento anacrónico.


A opção por humanizar personagens históricas nem sempre é consensual, mas Morgado defende que “o debate literário saudável enriquece a compreensão histórica”.


Da epopeia à intimidade: explorar o não dito


Se nos romances históricos João Morgado recupera os grandes movimentos marítimos dos séculos XV e XVI, na Trilogia da Intimidade (Diário dos Infelizes, Diário dos Imperfeitos, Diário dos Infiéis) mergulha no território oposto: o desgaste do quotidiano, o envelhecimento, a desilusão.


“E se a vida não cumprir a promessa do 'felizes para sempre'?", questionou. São narrativas que começam onde outras terminam – depois da paixão, no silêncio da imperfeição.


Sobre João Morgado


Autor de uma vasta obra que inclui romance, conto, poesia, teatro e crónica, João Morgado tem-se destacado pela capacidade de transitar entre géneros e registos com absoluta naturalidade. Entre os seus trabalhos contam-se também um romance biográfico sobre Camões e Praia di Bunitas, livro infantil com passagens em crioulo cabo-verdiano que aborda a preservação dos oceanos e foi oferecido a escolas em Cabo Verde.


“Uma literatura viva não deve confortar certezas, mas despertar questões”, comenta Morgado, definindo a frase como o lema que atravessa toda a sua produção literária.


Ígor Lopes


 
 
 

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