O inventor Dr. Pellico Portella.
- Flavio Santos

- há 5 dias
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Da medicina militar às invenções que desafiaram seu tempo, a trajetória de Sylvio Pellico Portella atravessou alguns dos principais capítulos da história do Brasil.

O baiano Sylvio Pellico Portella foi um médico, militar e inventor brasileiro. Nasceu na cidade de Salvador, no dia 20 de dezembro de 1863. Após completar os estudos primários e secundários, prestou os exames preparatórios para a Faculdade de Medicina da Bahia, em 1880. Foi aprovado no exame prático, em novembro, e no teórico, em dezembro de 1882. Defendeu sua tese de doutorado em novembro de 1886. Na cerimônia de colação de grau, o paraninfo foi o Barão de Itapuã.

Entrou para o corpo de saúde do exército Brasileiro em 22 de março de 1891. No mesmo ano, foi nomeado médico adjunto do corpo de saúde no Rio Grande do Sul. A vida de militar graduado é a de um nômade. Passou por várias províncias imperiais no seu tempo de serviço. Em junho daquele ano, prestou concurso para o posto de médico de 4.ª classe do corpo sanitário da corporação. Dos 25 inscritos, apenas cinco foram nomeados, incluindo Portella.
No âmbito da Revolta da Armada (1891-1894), no Recife, também foram cometidas violências contra civis e militares, fuzilamentos e deportações para Fernando de Noronha. Em novembro de 1893, um sargento e quatro marinheiros da corveta “Parnahyba” foram acusados de conspiração e julgados sumariamente, sem instância recursal, por confessos. Apenas um parecia ser inocente. Foram fuzilados e o jovem doutor Portella serviu como médico de confirmação da consumação do ato.


Portella casou-se com a sobrinha do também médico e militar, Dr. Brasílio Luz, a jovem Dona Rita Ferreira do Amaral, em setembro de 1894. Em dezembro de 1895, assumiu a direção do serviço médico militar do estado do Espírito Santo, ainda como capitão médico de 4.ª classe.
Durante o episódio violento da história nacional chamado de Revolução Federalista (1893-1895), ocorrida no Rio Grande do Sul, que colocou em campos opostos os grupos federalista e republicano, Portella se colocou a favor deste grupo, contra o dos federalistas, que eram parlamentaristas e defendiam a monarquia.

A facção monarquista era liderada por Gaspar Silveira Martins, figura eminente do Império Brasileiro. Portella foi um dos signatários de uma moção, em solidariedade ao outro partido, do Clube Militar do Rio de Janeiro, expressando a preocupação das classes militares com uma suposta restauração monárquica e pela aparente tibieza do governo Prudente de Morais (1894-1898).

Portella participou também, em outubro de 1897, da campanha infame contra o Arraial de Canudos. Não há mais detalhes de sua participação nesse triste episódio da história do Brasil.

Uma das preocupações médicas do doutor era a utilização das estâncias minerais como locais de recuperação de militares enfermos, conforme se acreditava na época. Em 1901, como comissionado, viajou para Minas Gerais, onde escolheria, dentre as estações de águas minerais, qual seria o melhor lugar para estabelecer uma enfermaria para oficiais do Exército Brasileiro. No mesmo ano, ele lança o “Formulário Farmacêutico” e apresenta ao General Chefe do Corpo de Saúde do Exército, pensando em substituir o antigo manual, datado de 1867. Neste formulário, ele reforça a ideia de tratamento de doenças com águas termais e minerais. Anos após, em março de 1907, lançou seu livro sobre as águas minerais do estado de Minas Gerais e enfermarias militares. As cidades-alvo eram as de Caxambú, Poços de Caldas, ou a cidade paulista de Campos do Jordão, sob influência dos estabelecimentos similares nas cidades de Vichy e Amelie les Bains-Palalda, para tratamentos médicos.

No ano de 1908, o doutor começa uma série de viagens para aprimorar seus estudos na França. O Rio de Janeiro foi acometido por uma epidemia de varíola naquele ano. O Dr. Portella tinha sete filhos. Possivelmente, ele mesmo levou a enfermidade para o interior de sua casa, sem culpa. Três de seus filhos se contaminaram. Os maiores faziam parte de uma banda ensaiada com esmero por seu pai e que se apresentava em festas cívicas: Mário, Almiro e Ondina eram os solistas, acompanhados pelos irmãos, Sylvia e Mário. Dois deles sucumbiram após dois dias de internação. Um repórter do jornal “O Paiz" encontrou o doutor no mês de junho daquele ano. O médico se preparava para viajar e fez uma visita de cortesia. Estava abatido, bigode esbranquiçado e olhos esmaecidos.


Em 1909, em sua estadia na França, ele visitou o Dr. Paul Georges Dieulafoy. O Dr. Portella voltou com uma de suas primeiras invenções, uma viatura-ambulância, fabricada na Casa Lefebvre, de Paris. Um outro modelo, também de invenção de Portella, sofreu uma batida, em 1914, na Avenida do Mangue. Ela chegou ao Rio quatro dias antes.

Todos conhecem o famoso caso do afundamento do navio da White Star Line, o RMS Titanic, em 12 de outubro de 1912. A tragédia comoveu o mundo, e o agora major Portella aprimorou uma ideia antiga, um içador de navios naufragados. Ainda na França, realizou um teste de seu aparelho no parque Magic City, em Paris, em uma piscina, impedindo a submersão de um protótipo de navio. O aparelho funcionava basicamente com o enchimento de imensas boias de borracha com ar.



No Brasil, o local onde eram apresentadas essas invenções era oficialmente o Clube de Engenharia do Rio de Janeiro. Os membros da instituição analisavam e emitiam pareceres técnicos sobre a viabilidade ou não de um projeto. No dia 12 de setembro de 1916 foi a data escolhida para a apresentação do aparelho batizado de “Salva-Navios”. Segundo os jornais da época, já existiam empresas dispostas a custear o invento. Portella falava de empresários interessados em emergir os navios Orion, naufragado na Ilha do Macuco, em Santa Catarina, em 1912, o Príncipe das Astúrias, na costa da Ilha Bela, São Paulo, o Aquidabã, em Angra dos Reis, em 1906, e o Wilhelmina, na baía da Guanabara, meses antes.
[foto 8 e 9]


O projeto foi declarado viável pela comissão do Clube de Engenharia. Começaria uma batalha para angariar recursos públicos e financiamentos privados. Quem acompanha os textos deste articulista sabe qual é o final dessa saga. Nem precisa de alerta de spoiler. Portela fez mais uma de suas apresentações, dessa vez no Rio Tietê, em São Paulo. O vapor “Brasil" foi içado em 1.º de julho de 1919. Foi feito um filme de demonstração, tendo sido exibido no Cinema Central daquela capital. Após o êxito, Portella gritou, cumprimentando a multidão com o boné: “Viva o governo brasileiro, que dá apreço aos inventores! Viva!”. Foi cumprimentado por autoridades e pelo presidente da República. Os jornais espalharam o boato de que já existia uma empresa paulista interessada em aplicar um capital de 200 contos na fabricação da engenhoca.
Em outra frente de trabalho, existia uma proposição da Câmara dos Deputados, de n.º 173, do ano de 1920, para conceder um prêmio de 330 contos de réis para construir o seu aparelho. Foi aprovada no Senado em 1922. Não há relato de que o projeto teve interesse de algum empresário. Uma década se passou e o único registro de tentativa de uso da invenção foi o requerimento endereçado ao ministro da Fazenda para o salvamento do vapor “São Paulo”, afundado perto da Ilha do Mocanguê, baía da Guanabara. Foi indeferido. O mesmo resultado aconteceu com o navio do Lloyd Brasileiro, o “Itaberá”, afundado no porto de Salvador, na Bahia, em 1933.
Na vida militar, o coronel tentou reverter uma reforma compulsória que o governo impôs a ele, em 2 de janeiro de 1922. Conseguiu reverter a situação, sendo promovido ao posto de general de brigada em 1823, mas o governo provisório, na Ditadura Vargas, reconheceu seus serviços ao país, reformando o médico como general de divisão.

Portella faleceu em 4 de julho de 1934, na sua residência, na rua Doutor Gabizo, 149, bairro da Tijuca, Rio de Janeiro. Deixou a viúva e suas filhas Celina, Sylvia, Dulce, Íris e Ondina. Além dos filhos Lauro e Rubens.
Flavio Santos

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