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LUSO-BRASILEIRA

REVISTA DO VILLA

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O emprego não vai acabar de uma vez. No Brasil, ele pode ser desmontado por partes

A segunda fase da IA já começou, e seu impacto pode ser mais duro em um país desigual


A segunda fase da inteligência artificial não é só uma evolução do ChatGPT ou das LLMs. É o momento em que a IA deixa de ser uma ferramenta de apoio e começa a fazer sozinha etapas que antes ocupavam parte do dia de uma pessoa: atendimento inicial, triagem, agendamento, relatórios, análise de dados, organização de documentos, prospecção e tarefas administrativas.


No Brasil, esse movimento precisa ser olhado com cuidado. Não somos um país com mercado de trabalho homogêneo, alta qualificação média e empresas igualmente preparadas para a transformação digital. Temos grandes empresas avançando rápido, pequenos negócios tentando se adaptar e milhões de trabalhadores em funções operacionais, administrativas, comerciais e de atendimento.


O impacto social não deve acontecer como nos filmes, com robôs tomando o lugar das pessoas de uma hora para outra. A mudança tende a ser mais silenciosa. Ela aparece na clínica que automatiza agendamentos, na imobiliária que responde interessados pelo WhatsApp, no escritório contábil que organiza documentos, na loja que automatiza cobranças e cadastro de clientes, ou na agência que passa a gerar relatórios e conteúdos operacionais com menos trabalho manual.


Aos poucos, partes do trabalho vão saindo da rotina humana.


No Brasil, a adoção ainda não é majoritária, mas já é relevante. Segundo a pesquisa TIC Empresas 2024, divulgada pelo CGI.br, 13% das empresas brasileiras declararam usar aplicações de inteligência artificial, mesma proporção registrada em 2023 e 2021. O número mostra que o país ainda não vive uma adoção massiva, mas também revela que a IA já entrou no ambiente empresarial formal.


O risco maior recai sobre trabalhadores menos qualificados e cargos de entrada. Muita gente começa no mercado fazendo justamente o que a IA tende a automatizar: atender, cadastrar, conferir, organizar, responder, preencher sistemas e encaminhar demandas.


É nessas tarefas que o jovem aprende a trabalhar. É nelas que a atendente da clínica entende a rotina do negócio, que o auxiliar administrativo ganha experiência, que a pessoa responsável pelo WhatsApp aprende a lidar com clientes e que o analista júnior começa a interpretar dados simples.


O problema não é a tecnologia fazer uma tarefa. O problema é quando aquela tarefa era justamente o começo da carreira de alguém.


Esse ponto pesa mais no Brasil porque nossa base educacional ainda é frágil. Segundo o IBGE, em 2024, apenas 31,3% das pessoas com 25 anos ou mais tinham ensino médio completo, enquanto 20,5% tinham ensino superior completo. Apesar de serem os melhores índices da série, ainda revelam um país com grande parte da população distante dos empregos mais qualificados.


Ao mesmo tempo, o acesso à internet avançou bastante. Segundo o IBGE, em 2024, 93,6% dos domicílios brasileiros tinham internet. Isso mostra que o problema não é mais apenas conexão. A questão passa a ser capacidade de uso, formação digital e preparo para trabalhar com novas ferramentas.


Essa diferença é decisiva. Ter internet no celular não significa estar preparado para usar IA no trabalho. Saber mandar mensagem, assistir vídeo e usar rede social não é a mesma coisa que saber operar sistemas, interpretar dados, configurar automações ou supervisionar ferramentas inteligentes.


A segunda fase da IA também não será coisa apenas de multinacional. Ela vai chegar à padaria, à clínica, à escola, à oficina, ao escritório de contabilidade, à imobiliária, ao comércio local e às pequenas empresas que dependem muito de WhatsApp, agenda online, planilhas, sistemas de cobrança, emissão de nota e atendimento rápido.


Para muitos pequenos negócios, isso pode ser positivo. A IA pode ajudar a fazer mais com menos estrutura, organizar processos, responder clientes com mais velocidade e reduzir falhas operacionais. Mas o outro lado é delicado.


No Brasil, onde muita gente já trabalha na informalidade ou em funções de baixa proteção, esse deslocamento pode ser ainda mais duro. A automação pode não gerar desemprego imediato em todos os casos, mas pode empurrar parte dos trabalhadores para ocupações mais instáveis, mais simples e pior remuneradas.


Quem souber supervisionar sistemas, interpretar dados, redesenhar processos e tomar decisões tende a ganhar produtividade e valor. Quem depender apenas da execução repetitiva ficará mais vulnerável.


A discussão, portanto, não é só tecnológica. É social, educacional e econômica. A segunda fase da IA pode ajudar empresas brasileiras a serem mais eficientes, inclusive pequenos negócios. Mas também pode ampliar desigualdades se escolas, empresas e governos não criarem caminhos rápidos de capacitação profissional.


A questão não é apenas se haverá emprego. A questão é que tipo de emprego restará para quem não conseguir acompanhar essa mudança.


O emprego talvez não desapareça de uma vez. Mas, em um país desigual como o Brasil, ele pode ser desmontado em silêncio, tarefa por tarefa, antes que muita gente tenha tempo de se preparar.


André Aguiar


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