O diabo veste likes
- Cláudia Felício

- 14 de mai.
- 2 min de leitura

Se você acompanha moda, sabe que a edição de setembro da Vogue americana não era só uma revista, era uma bíblia grossa que levava meses de trabalho. A revista para nós, brasileiras, era um objeto de desejo e sempre pedíamos para amigos que fossem viajar trazerem. Você também é dessa época? A Vogue definia . capaz tendências e comportamentos durante o ano todo. Mas o mundo mudou; em O diabo veste Prada 2, há até uma piada dizendo que a edição ficou tão fina que poderia servir como fio dental. E talvez seja justamente aí que o filme encontre sua discussão mais interessante: a morte lenta do jornalismo impresso e a transformação louca da informação em métrica digital.
Dirigido por David Frankel, o filme tem aquelas transições de trocas de roupas que a gente adora, e quanta roupa linda. Na verdade, não é só roupa, moda é poder, linguagem e controle narrativo. Meryl Streep está, claro, maravilhosa como Miranda Priestly, e quero destacar os diálogos afiados escritos por Aline Brosh McKenna, fantásticos! Anne Hathaway retorna mais madura como Andy Sachs, enquanto Stanley Tucci segue sendo o coração emocional da trama, um fofo.

O longa também escancara algo muito atual: o jornalismo perdeu profundidade porque perdeu tempo de atenção. No impresso, uma matéria podia ser lida lentamente, absorvida como experiência. Hoje, o digital tem que ter velocidade, imagens maiores, manchetes agressivas, cliques, compartilhamentos, retenção de audiência, aquele assassinato da informação que você tem três segundos para pescar o leitor antes que ele role a tela, sabe? Antes, o impacto de uma reportagem era medido por prestígio, repercussão cultural ou cartas de leitores. Agora, mede-se por likes, engajamento, o que, na minha modesta opinião, piorou muito a experiência.
O filme também toca na influência crescente de bilionários e conglomerados sobre revistas e marcas de luxo. O problema é que o roteiro não acompanha direito essa discussão. Achei raso, chato, repetitivo e só ganha força real nos dez minutos finais. Ainda assim, O diabo veste Prada 2 permanece atual justamente porque fala de um mundo onde a imagem passou a valer mais do que o conteúdo, infelizmente, no nosso mundo.

Cláudia Felício (roteirista, autora best-seller e crítica especializada em cinema)

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