Mônica Salmaso lança ‘Senhora das Canções – Um Tributo a Elizeth’, em agosto, pela Biscoito Fino
- Alex Gonçalves Varela

- há 6 dias
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Show chega a Belo Horizonte (15/08, no Sesc Palladium)
e Porto Alegre (23/08, no Teatro Bourbon)

Duas intérpretes. O mesmo amor pelo ofício. Mônica Salmaso e Elizeth Cardoso. Quem as vê no palco tão serenas – parafraseando ‘Faxineira das Canções’ (Joyce Moreno) – crê ser simples aquilo que nasce de um rigor e dedicação incansáveis à música. Repertório que jamais busca a fórmula do sucesso, respeito aos compositores e músicos que as acompanham. Devoção ao público. Voz que silencia tudo ao redor. Separadas por décadas, unidas pelo tempo que embaralha e unifica passado, presente e futuro. Esse encontro finalmente se corporifica em ‘Senhora das canções – um tributo a Elizeth’, que será lançado em agosto, pela Biscoito Fino.
O álbum foi gravado ao vivo em estúdio em um único dia, durante a temporada do show homônimo, no Rio de Janeiro, em 2025. “Achamos que seria bonito entrarmos no estúdio, concentrados, com o show "quentinho" e fazer um registro do trabalho. No dia anterior ao último show, fomos ao estúdio da Biscoito Fino e gravamos o disco inteiro ao vivo. As 16 canções. Foi uma sessão de gravação das mais lindas que eu já participei”, celebra Mônica.
A ideia inicial era homenagear Elizeth por ocasião do seu centenário, em 2020, mas a pandemia adiou os planos e o show só estreou em 2022, no Rio de Janeiro, passando por São Paulo e com nova temporada no Rio, m 2025, quando finalmente foi gravado. Mônica foi para o estúdio acompanhada pelos músicos que estavam com ela desde o nascimento do projeto: Luciana Rabello (cavaquinho), Mauricio Carrilho (violão de 7 cordas), Paulo Aragão (violão, direção musical e arranjos), Aquiles Moraes (trompete e flugelhorn), Magno Julio (percussão), Marcus Thadeu (percussão). Teco Cardoso (flautas) e Nailor Proveta (clarinete) participaram da apresentação em São Paulo e da gravação do álbum.
“Na última temporada no Rio, a formação era somente com o Aquiles, mas a gente tinha arranjos lindos do Paulo Aragão para os três sopros, então achamos que era legal ter no disco, e depois na turnê, o time completo. O Teco e o Proveta foram ao Rio e gravamos a cobertura dos instrumentos deles”, explica.

A homenagem surgiu de uma visita de Mônica Salmaso à Casa do Choro, no Rio de Janeiro, e do encontro com Luciana Rabello (cavaquinho) e Mauricio Carrilho (violão de 7 cordas), não por acaso músicos que atuaram ao lado de Elizeth, na década de 1980. Garimpeira das canções, Mônica há muito conhecia a obra de Elizeth, mas alcançou a dimensão da ‘Divina’, quando mergulhou no projeto. “Lembro de ter assistido a um programa Chico e Caetano onde ela foi convidada. Ela era de outra geração e sua presença no programa me chamou a atenção. Era uma dama reverenciada com muito respeito. E o olhar dela para todos era simples, concentrado e feliz. Só entendi de verdade o tamanho da Elizeth quando fui fazer a pesquisa de repertório para nossa homenagem. Ali, me dei conta do tamanho da discografia desta cantora”, explica. Mônica elenca outras qualidades de Elizeth que a tocam: “a beleza do canto, a dignidade, o respeito pelo trabalho e pelos colegas e o profissionalismo vocal e de comportamento”.

A partir de um mergulho na extensa discografia, nasceu o repertório com um passeio pelos muitos caminhos musicais percorridos por Elizeth: sambas gravados nas décadas de 50 (‘Seresteiro’, de Raul Moreno, Renato Lima e Zé Keti); sambas-canções de discos antológicos como ‘Canção do amor demais’ e ‘Elizeth interpreta Vinícius’, clássicos que ela visitou (‘Violão Vadio’, de Baden Powell e Paulo César Pinheiro, ‘Sei lá, Mangueira’, de Paulinho da Viola e Hermínio Bello de Carvalho), pérolas esquecidas (‘A mentira acaba’, de Rui de Almeida e Arnô Provenzano) e até mesmo uma rara composição da cantora (‘Se as estrelas falassem’).
A escolha do repertório foi tarefa árdua diante da grandiosidade da discografia da Elizeth. “Tem muito material. Canções icônicas, descobertas, lançamentos e aquelas escondidas que a gente ama encontrar, vários estilos de música diferentes.
Primeiro, escutei tudo o que há disponível e fiz uma lista grande de possibilidades que me interessaram. Depois, fui decupando e trocando figurinhas com o Paulo Aragão que assina a produção musical”, detalha Mônica, que acrescenta: “não fico preocupada em cantar canções mais ou menos conhecidas. Elas ficam com “peso igual” e quem manda é a sensação de que eu tenho o que dizer cantando as canções escolhidas do repertório dela”.
O álbum traz canções não gravadas por Elizeth, mas que dialogam com seu universo: ‘Nossa Senhora do Silêncio’ (Mauricio Carrilho/Paulo César Pinheiro) e ‘De Bem Com o Amor’ (Luciana Rabello/Paulo César Pinheiro). “A Luciana Rabello e o Mauricio Carrilho tocaram com a Elizeth por anos, foram muito próximos dela e são compositores incríveis. Achei bonito colocar no repertório músicas deles, inclusive pensando que Elizeth amaria cantá-las”, pontua Mônica.

A cantora abriu ainda uma terceira “janela”: ‘Deixa pra Lá’ (Dino e Meira), do repertório de Izaurinha Garcia, que descobriu em um cd de preciosidades presenteado por Cristina Buarque. Foi uma oportunidade para homenagear também o centenário de Izaurinha Garcia, celebrado em 2023. ‘Carta de Poeta’ (Baden Powell / Paulo César Pinheiro) quase ficou de fora do álbum e traz uma história curiosa, que reafirma o respeito que Mônica e Elizeth têm por seu trabalho e como suas escolhas estão imbuídas de verdade e coerência. “O show tem uma canção muito difícil, ‘Valsa sem nome’. Estava na passagem de som do 2º show do “Terças no Ipanema”, quando comentei que era preciso coragem sempre pra cantá-la. Aí a Luciana e o Maurício disseram que, em shows, a Elizeth evitava cantar essa e ‘Carta de Poeta’. Dizia que “às vezes saia, outras vezes não” (risos). Não conhecia ‘Carta de Poeta’, eles me mostraram e caí de amores. É escandalosamente linda!
E a gravação da Elizeth é primorosa. Fiquei “mordida” pela ideia de cantá-la. Aprendi e fizemos na passagem de som da terceira noite. No show não fiz, estava tomando coragem. Quando tínhamos terminado a gravação das músicas escolhidas para o cd no estúdio, no calor e na felicidade daquela sessão de gravação mágica, pedi pra gente gravar ‘Carta de Poeta’. E assim foi. Ela entrou no último show do “Terças no Ipanema” e veio pra ficar. Agora eu que lute, porque vale a pena!”.
Mônica e Elizeth. Estava escrito.
A Divina
"Divina", "Enluarada", "A Magnífica" - os epítetos colecionados por Elizeth Cardoso ao longo de mais de cinco décadas de carreira dão mostras de sua versatilidade e de sua importância na cena musical popular brasileira no século XX. Elizeth começou no rádio, nos anos 40, atuou intensamente na cena fonográfica dos anos 60 e 70, participou de importantes espetáculos musicais, cantou até o fim da vida, em 1990. Brilhou no choro, no samba, no samba-canção, na música romântica, teve papel importante nos primórdios da bossa nova. Fixou clássicos da nossa música, lançou diversos jovens compositores, atuou com a mesma desenvoltura ao lado de conjuntos regionais, de trios de jazz e de grandes orquestras. Senhora das Canções.
Alex Varela

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