Entrevista- João Libério: Comunicação, Marketing e Relações Publicas
- João Paulo Penido

- há 5 dias
- 7 min de leitura
Com mais de três décadas de experiência, profissional português relembra momentos marcantes da carreira, fala sobre a comunicação de grandes marcas e revela como nasceu o blog Liberio’s Leisures

João Libério construiu uma trajetória profissional de mais de três décadas ligada principalmente à Comunicação, ao Marketing e às Relações Públicas. Ao longo desse percurso, passou por áreas tão distintas como aviação, rádio, terceiro setor, banca, turismo, moda, marcas internacionais e imprensa.
Licenciado em Ciências da Comunicação pela Universidade Nova de Lisboa e com MBA em Gestão Global, Marketing e Publicidade, iniciou a carreira na TAP Air Portugal. Depois, passou pela TSF/Rádio Energia, AMI, BRISA e BANIF, experiências que contribuíram para a construção de uma visão ampla sobre comunicação e relacionamento com diferentes públicos.

O homem que pôs Lili Caneças no telejornal
Um dos episódios mais marcantes de sua carreira aconteceu em 2001, quando João Libério era Diretor de Comunicação e Marketing da Corporación Dermoestética e participava do lançamento da empresa em Portugal.
Para gerar notoriedade para a marca, idealizou uma ação protagonizada por Lili Caneças, então uma das personalidades mais conhecidas da sociedade portuguesa. A apresentadora e socialite submeteu-se a um peeling químico que provocou uma transformação temporária e bastante visível em sua aparência.
A estratégia transformou um procedimento estético em um acontecimento midiático. A apresentação pública da “nova Lili” despertou enorme curiosidade e chegou aos principais meios de comunicação portugueses, incluindo os telejornais nacionais. Uma revista chegou a dedicar uma reportagem a João Libério com o título “O homem que pôs Lili Caneças no telejornal”.
Das grandes marcas ao universo editorial
Entre 2003 e 2008, João Libério integrou o Grupo Brodheim, onde trabalhou com comunicação e relações públicas de marcas internacionais como Burberry, Tod’s, Furla, Timberland e Longchamp. Nesse período, acompanhou relações com os meios de comunicação, eventos, patrocínios e diferentes ações de comunicação, além de participar da publicação da revista do grupo, a 196 Style.
Depois de uma passagem pela consultoria de comunicação, na Brand Me, integrou a Câmara Municipal de Sintra como Adjunto do Vereador de Turismo, entre 2010 e 2013. Desde 2015, está ligado à F Luxury, revista portuguesa dedicada ao universo premium e ao lifestyle, onde atua nas áreas de Relações Públicas, Marketing e também no segmento editorial.
Liberio’s Leisures: o lado pessoal da escrita

Paralelamente à carreira profissional, João Libério mantém há mais de 15 anos o Liberio’s Leisures, projeto pessoal que nasceu do gosto pela escrita e pela partilha.
O blog reúne temas como lifestyle, moda, publicidade, viagens, cultura, sociedade, memórias e histórias pessoais. Para Libério, o espaço representa uma possibilidade de escrever com maior liberdade, sem estar condicionado por uma marca ou por uma linha editorial específica.
Nos últimos anos, ele também acrescentou uma nova frente profissional ao iniciar uma colaboração com a Brightman Group, agência de real estate premium. A atividade recupera competências presentes em diferentes momentos de sua trajetória, como relacionamento pessoal, comunicação, negociação, conhecimento do cliente e capacidade de apresentar histórias e estilos de vida associados a cada propriedade.
ENTREVISTA
Você construiu um percurso profissional de mais de três décadas. Como essa trajetória se relaciona com a Comunicação, o Marketing e as Relações Públicas?
Olhando para trás, percebo que meu percurso foi sendo construído muito pela curiosidade e pelas oportunidades que fui encontrando. Comecei profissionalmente na TAP, em 1989, ainda antes de terminar a licenciatura em Ciências da Comunicação, na Universidade Nova de Lisboa.
Depois, enquanto continuava a estudar, tive a experiência da rádio, com a TSF/Rádio Energia. Depois de me formar, vieram a AMI, a BRISA, a banca, com o BANIF, e diferentes experiências que me permitiram conhecer a comunicação a partir de realidades muito distintas.
Como costumo dizer, um bom cozinheiro fará sempre um bom prato, independentemente dos ingredientes que tiver à sua disposição. Na comunicação acontece o mesmo: não importa tanto a área em que trabalhamos, mas as ferramentas que temos e a forma como sabemos utilizá-las. Um bom comunicador saberá sempre comunicar.
A Comunicação, o Marketing e as Relações Públicas acabaram por ser o fio condutor de tudo. Trabalhei no terceiro setor, em grandes empresas, com marcas internacionais, no turismo, na administração pública, na imprensa e no universo do lifestyle.
Mais tarde, fiz também um MBA em Gestão Global, Marketing e Publicidade, que me deu outras ferramentas para complementar aquilo que ia aprendendo no terreno.
Sempre gostei muito do contato com as pessoas e de perceber como uma ideia pode ser transformada numa história capaz de despertar interesse. Talvez seja isso que me tenha mantido ligado à comunicação durante tantos anos.
Hoje, na F Luxury, continuo a trabalhar em comunicação, marketing, relações públicas, eventos e também na área editorial, enquanto desenvolvo paralelamente outros projetos, incluindo o imobiliário.
E continuo a aprender. No final de 2025, por exemplo, fiz a Formação Pedagógica Inicial de Formadores e obtive o Certificado de Competências Pedagógicas. Depois de tantos anos a comunicar, pareceu-me interessante adquirir também ferramentas para transmitir aos outros algum do conhecimento que fui acumulando.
Um dos momentos mais marcantes da sua carreira foi a ação que levou Lili Caneças aos telejornais portugueses. Como surgiu essa ideia e o que esse episódio representa para a sociedade portuguesa?
Esse foi, sem dúvida, um dos momentos mais marcantes da minha carreira.
Em 2001, era Diretor de Comunicação e Marketing da Corporación Dermoestética, uma multinacional espanhola, e estávamos a lançar a empresa em Portugal. Precisávamos de notoriedade e eu queria encontrar uma forma de comunicar que ultrapassasse a publicidade convencional.
Foi então que surgiu a ideia de convidar Lili Caneças para fazer um peeling químico de fenol e transformar esse momento numa ação de comunicação. Lili já era uma personalidade incontornável da sociedade portuguesa, com enorme exposição mediática, conhecida inclusive pela “má pele” que tinha devido ao excesso de exposição solar. Ela teve também a coragem de aceitar uma proposta que implicava mostrar publicamente uma transformação do seu rosto.
O resultado ultrapassou largamente aquilo que poderíamos imaginar. O assunto saiu das páginas sociais e chegou aos principais órgãos de comunicação, como jornais nacionais e news magazines portugueses, entre eles Visão, Sábado e Expresso, além dos telejornais dos grandes canais de televisão.
Houve diretos televisivos, imprensa generalista, revistas e uma curiosidade enorme em torno da apresentação do resultado. Recordo-me até de uma reportagem sobre mim que tinha como título “O homem que pôs Lili Caneças no telejornal”.
Vinte e cinco anos depois, continuo a olhar para esse episódio com carinho e algum orgulho profissional, sobretudo porque aconteceu numa época em que não existiam redes sociais como hoje. Uma história tinha de conquistar verdadeiramente o interesse dos jornalistas para ganhar aquela dimensão. E eu consegui fazê-lo!
E Lili teve um papel fundamental. Independentemente das opiniões que possa suscitar, é uma figura que marcou a sociedade e a televisão portuguesas e que sempre soube compreender muito bem os meios de comunicação. Aquela ação resultou também porque ela percebeu a ideia, confiou nela e teve a ousadia de a concretizar.
Como foi a experiência de trabalhar com grandes marcas internacionais e de fazer a transição para o universo editorial?
A minha passagem pelo Grupo Brodheim, entre 2003 e 2008, foi particularmente importante nesse sentido. Trabalhei na comunicação e relações públicas de marcas internacionais como Burberry, Tod’s, Furla, Timberland e Longchamp, entre outras, acompanhando a relação com os meios de comunicação, eventos, patrocínios e diferentes ações de comunicação. Estive também envolvido na publicação da revista do grupo, a 196 Style.
Foi uma excelente escola. Trabalhar com marcas com uma identidade tão forte ensina-nos que comunicar não é apenas conseguir visibilidade. É preciso compreender profundamente o universo da marca, aquilo que ela representa e a forma como pretende ser percebida.
Essa experiência acabou também por criar uma ponte natural para o universo editorial. Há 11 anos que colaboro com a F Luxury, onde cruzo muitas das áreas que fui desenvolvendo ao longo da minha carreira: relações públicas, marketing, eventos, contato com marcas e agências e, simultaneamente, escrita e produção de conteúdos para a edição impressa e digital.
Importa referir que alimento um blog há mais de 15 anos, o Liberio’s Leisures. Talvez uma das coisas de que mais gosto no meu percurso seja precisamente não ter ficado fechado numa única área. Comunicação, moda, lifestyle, turismo, cultura, eventos e universo editorial foram-se cruzando e enriquecendo mutuamente.
Como nasceu o Liberio’s Leisures e como está atualmente esse projeto pessoal?
A escrita sempre esteve presente na minha vida profissional. Sou formado em Ciências da Comunicação e passei por assessoria de imprensa, comunicação institucional e produção editorial. Portanto, escrever nunca me foi estranho, muito pelo contrário.
Mas sentia falta de um espaço onde pudesse escrever sem estar condicionado por uma marca, uma empresa ou uma linha editorial.
Foi assim que nasceu o Liberio’s Leisures, há mais de 15 anos. É um blog de lifestyle, mas nunca quis fechá-lo numa definição demasiado rígida. Escrevo sobre aquilo que me desperta curiosidade: moda, viagens, publicidade, cultura, sociedade, pessoas, memórias ou episódios da minha própria vida.
Aliás, foi no blog que, em 2011, decidi recuperar a história do peeling de Lili Caneças, dez anos depois de toda aquela repercussão. Gosto dessa possibilidade de revisitar histórias e de deixar um registro do tempo que vivemos.
Hoje, o universo digital mudou completamente. Quando comecei, os blogs tinham um peso e uma dinâmica muito diferentes; entretanto, chegaram o Instagram e tantas outras plataformas. Mas o Liberio’s Leisures continua a fazer sentido para mim precisamente porque é meu.
Não nasceu como uma obrigação profissional nem depende de uma agenda comercial. É um espaço de liberdade e de partilha e talvez por isso tenha conseguido acompanhar-me durante tantos anos.
Depois de tantos anos de carreira, que mensagem gostaria de deixar aos leitores da Revista do Villa?
Se tivesse de retirar uma mensagem daquela história, diria que devemos ter coragem para acreditar numa boa ideia, mesmo quando ela parece improvável.
Quando pensei naquela ação com Lili Caneças, não existiam, como referi anteriormente, redes sociais, influenciadores ou a possibilidade de tornar um conteúdo viral com um simples clique. Existiam uma ideia, que surgiu da minha cabeça, uma personalidade extraordinariamente mediática, uma estratégia e a convicção de que aquilo poderia despertar interesse. E despertou muito mais do que alguma vez poderíamos prever.
Mas há outra coisa que os anos me ensinaram: não podemos viver eternamente de um sucesso passado. Tenho muito carinho por aquele episódio e orgulho-me de ter feito parte dele, mas passaram 25 anos e continuei a trabalhar, a escrever, a descobrir outras áreas e, sobretudo, a aprender.
Aos 55 anos, decidi até voltar à formação e obter a certificação como formador. Continuo a aceitar novos desafios e a descobrir novos caminhos.
Por isso, aos leitores da Revista do Villa, deixaria sobretudo esta ideia: mantenham a curiosidade e não tenham medo de se reinventar. Uma carreira, tal como uma vida, não precisa de seguir uma linha reta. Podemos mudar, começar novamente, aprender aos 20, aos 40 ou aos 50. E, de vez em quando, uma ideia em que realmente acreditamos pode levar-nos muito mais longe.
João Liberio
João Paulo Penido

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