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LUSO-BRASILEIRA

REVISTA DO VILLA

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Hospitalidade: o acolhimento em tempos de hostilidade

Quando nos hospedamos em um hotel, esperamos ser recebidos com cordialidade, ao procurar um hospital, confiamos que seremos acolhidos com cuidado.



Poucas palavras carregam uma história tão rica quanto hospitalidade. Da mesma raiz latina (hospes), derivam termos como hospital, hotel, hóspede, hospedeiro e até hospício. Embora hoje possuam significados distintos, todas conservam um elemento comum, a ideia de acolher quem chega. Em todas elas existe a expectativa de que alguém encontre abrigo, cuidado ou, ao menos, seja reconhecido em sua humanidade.


A hospitalidade nasce exatamente dessa promessa, abrir espaço para o outro sem que sua presença seja percebida como uma ameaça. No entanto, o filósofo Jacques Derrida chamou a atenção para uma tensão permanente entre a hospitalidade ideal e a hospitalidade praticada, em que a primeira é incondicional, acolhe o outro simplesmente porque ele é outro e a  segunda é cercada por normas, exigências e reservas e é justamente nesse momento que surge uma questão inquietante, quando o acolhimento passa a depender de condições, a hospitalidade começa, pouco a pouco, a transformar-se em hostilidade.


Isso acontece em situações aparentemente banais, um convite para entrar em uma casa deixa de ser plenamente acolhedor quando vem acompanhado de uma sucessão de exigências que fazem o convidado sentir-se permanentemente vigiado ou deslocado, o mesmo ocorre nas instituições. Um hospital existe para cuidar, mas não raramente o paciente encontra filas intermináveis, burocracias, indiferença ou uma linguagem que o reduz a um número, não se trata de responsabilizar os profissionais, frequentemente submetidos às mesmas dificuldades estruturais, mas de perceber como uma instituição criada para acolher pode produzir experiências de hostilidade.


Talvez essa seja uma das grandes contradições da civilização contemporânea. Criamos hotéis para receber, hospitais para cuidar, fronteiras para organizar e leis para regular a convivência. Contudo, à medida que multiplicamos condições para admitir a presença do outro, corremos o risco de produzir mais hostilidade do que hospitalidade, o estranho deixa de ser alguém a ser recebido e passa a ser alguém de quem é preciso defender-se. 


Essa lógica ultrapassa as relações entre pessoas e alcança a maneira como tratamos migrantes, refugiados e visitantes, mas também como nos relacionamos com o próprio planeta, a natureza, os animais e os ecossistemas são frequentemente tratados como recursos disponíveis, e não como dimensões da existência com as quais compartilhamos uma casa comum. Agimos, muitas vezes, como se fôssemos proprietários absolutos do mundo, quando, na verdade, somos apenas hóspedes temporários dele.


Talvez o maior desafio ético do nosso tempo seja recuperar o sentido originário da hospitalidade, que é reconhecer que o outro não precisa conquistar previamente o direito de ser tratado com dignidade e quanto mais condicionamos o acolhimento, mais nos aproximamos da hostilidade. 


Em uma sociedade que se acostuma a ser hostil dificilmente conseguirá construir relações verdadeiramente humanas.


No fim, a hospitalidade não consiste apenas em abrir uma porta. Ela consiste em abrir uma disposição interior para reconhecer que dividimos a mesma condição humana e habitamos a mesma casa, aTerra e Talvez sejamos mais hospitaleiros quando compreendermos que, antes de donos de qualquer lugar, somos todos hóspedes do mundo.


Gê Coelho


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