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Estreia “Boca de Ouro” – investigação sobre a obra de Nelson Rodrigues, a guerra de narrativas e as tragédias cariocas, dia 29 de outubro, no Sesc Copacabana.

há 7 horas
9 min de leitura

Tuca Andrada protagoniza montagem de Sergio Módena para clássico de Nelson Rodrigues. O espetáculo também traz no elenco Gustavo Wabner, Maria Clara Aquino, Ana Velloso, Jessé Scarpellini, Antonio Gonzalez e Cássia Sanches.


Crédito fotográfico - Claudia Ribeiro
Crédito fotográfico - Claudia Ribeiro

Escrita em 1959, a peça Boca de Ouro, de Nelson Rodrigues (1912-1980), ganha uma nova montagem dirigida e idealizada por Sergio Módena e protagonizada por Tuca Andrada, com estreia prevista para 29 de outubro na Arena do Sesc Copacabana onde fica em cartaz até 22 de novembro.


A inspiração para escrever a peça, segundo relato do jornalista e biografo Ruy Castro, veio de um motorista da linha do ônibus que Nelson pegava na Central do Brasil quando ia visitar sua mãe diariamente, um pernambucano que quando chegava no ponto final, em Laranjeiras, gostava de ostentar os 27 dentes de ouro que tinha na boca, dizendo, “Pode contar, um por um! E não é coroa, é maciço! Ouro 24!” Nelson combinou este com outro personagem real do submundo carioca, o bicheiro Arlindo Pimenta, e com esse material, escreveu Boca de Ouro. Aproveitou para mais uma vez fazer sua crítica à imprensa sensacionalista da época e questionar a moral burguesa e as condições de pobreza e violência à que estão submetidos os moradores dos subúrbios cariocas.


“Nelson Rodrigues é o grande modernizador do Teatro Brasileiro no século XX. Foi o primeiro autor brasileiro a subverter a relação de tempo versus espaço nos palcos nacionais e escancarar as relações familiares, dissecando as classes média e pobre do país com uma crueza nunca antes vista”, afirma Tuca, que interpretou o personagem Pedro na montagem comemorativa dos 50 anos de Vestido de Noiva dirigida por Luiz Arthur Nunes com Malu Mader no papel de Alaíde, em 1993, há 33 anos atrás!  


Ao lado de Tuca Andrada, os atores Gustavo Wabner, Maria Clara Aquino, Ana Velloso, Jessé Scarpellini, Antonio Gonzalez e Cássia Sanches compõem o universo de Boca de Ouro.

Nesta montagem de Boca de Ouro, Sergio Módena aprofunda sua investigação cênica sobre a obra de Nelson Rodrigues, iniciada na recente montagem que dirigiu de A Falecida, com Camila Morgado, no papel da protagonista Zulmira (2023-2025). A atriz circulou com o espetáculo por várias cidades de Norte a Sul do país, em sessões sempre lotadas. Ambas as peças de Nelson Rodrigues foram classificadas pelo crítico Sábato Magaldi como “tragédias cariocas”. De certa forma, podemos dizer que Zulmira e Boca de Ouro são anti-heróis suburbanos.

“Em Boca de Ouro, Nelson Rodrigues constrói ainda um personagem que representa, em última instância, a divinização do dinheiro e do poder, em torno dos quais todos os demais personagens gravitam. À medida que a trama avança, percebemos que ninguém está imune à sedução do dinheiro e à promessa de transformação da própria realidade. Princípios, valores e convicções morais tornam-se frágeis diante da possibilidade de ascensão social e dos benefícios que o poder pode oferecer.” (Sergio Módena)


Sobre a peça

Nelson conta a história do bicheiro Boca de Ouro, uma figura mítica pertencente ao mundo da contravenção – o “Drácula de Madureira”, como propagandeava a imprensa. 

Boca de Ouro foi parido num reservado de gafieira e seu primeiro berço foi uma pia de banheiro onde a mãe o deixou, sob a torneira aberta, num batismo cruel e pagão. O menino cresce e se torna bicheiro temido e respeitado – uma figura quase mitológica na comunidade onde vive. Boca manda arrancar todos os dentes e implanta novos, feitos de ouro, daí o seu “nome”. Acreditava que seria enterrado em um caixão todo de ouro. Diziam que ficava com as mulheres de homens casados e derretia suas alianças para fazer o tal caixão. Poderoso e carismático, mantinha o autocontrole desde que não falassem de sua mãe e de como nasceu numa pia de gafieira. Tem um fim trágico: Boca de Ouro é assassinado e encontrado na sarjeta, sem os seus dentes de ouro.

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O jornalista Caveirinha, ao apurar o caso para o jornal “O Sol”, procura uma ex-amante do criminoso, Dona Gugui, em busca de um “furo” de reportagem, um “crime bacana” do contraventor para sair na primeira página. Boca de Ouro é então descrito por Dona Gugui através de três relatos diferentes, que refletem seu estado emocional.

“A obra mostra-se absolutamente atual ao questionar a própria noção de verdade, cada vez mais sujeita a interpretações, distorções e manipulações de acordo com interesses, convicções e ideologias. Afinal, somos todos criadores e recriadores da realidade quando recordamos e narramos os acontecimentos.” (Sergio Módena)

 

No primeiro momento, sem saber que Boca de Ouro está morto, Dona Guigui o descreve como um homem cruel e insensível, capaz de matar um pobre diabo, o inofensivo e covarde, Leleco, para lhe tomar a mulher Celeste, menina sonhadora, fiel ao marido. 

Ao saber que o ex-amante está morto, Dona Guigui chora e passa a elogiá-lo. Passa a falar dele como um homem rigoroso que mata, mas não sem motivo, ao mesmo tempo em que despreza seu atual marido, incomparavelmente inferior ao “Boca”. Conta a mesma história, mas, desta vez, revela uma Celeste nada fiel e um Leleco não tão inofensivo e viciado em jogo, capaz de vender a própria mulher. A forma elogiosa como Dona Guigui passa a tratar o Boca de Ouro irrita o marido, que faz as malas e decide deixar a casa.


Com a interferência do repórter Caveirinha, que se sente responsável pela separação, os dois se reconciliam. Dona Guigui conta, então, uma terceira versão da mesma história do casal Leleco e Celeste e revela não só o poder e crueldade do ex-amante, mas também suas inseguranças e vulnerabilidades. Na terceira versão há um conflito entre Celeste e uma ex-colega dos tempos de escola, a grã-fina Maria Luísa que visitava Boca de Ouro com frequência, em busca de donativos para os filhos dos cancerosos, e via nele figura exótica, irreverente, uma espécie de “Deus Asteca”.


“Em Boca de Ouro, Nelson Rodrigues nos lembra que a ideia de uma verdade absoluta é uma invenção. Todos nós somos vistos, avaliados e julgados a partir da subjetividade do olhar de quem nos observa. Ao narrar a trajetória do mítico Boca de Ouro, o autor apresenta ao público três versões de um mesmo personagem, contraditórias, porém igualmente possíveis, construídas a partir dos sentimentos de uma narradora cuja percepção se transforma ao longo da ação. Assim, as diferentes facetas de um mesmo homem se revelam, se sobrepõem e se confundem.” (Sergio Módena)

Embora o diretor Sergio Módena reconheça traços fortes do universo suburbano em Boca de Ouro, a montagem não reproduz realisticamente a Madureira do final da década de 50.  Segundo o diretor, a encenação propõe uma estética atemporal. O cenário de Aurora dos Campos e a iluminação de Tomás Ribas criam um ambiente asséptico, uma espécie de antessala da morte, onde é preciso continuamente limpar o sangue e guardar cadáveres. É neste espaço que os diversos planos da ação se estabelecem. 


O subúrbio pode ser identificado mais pela condição de pobreza, exclusão, abandono, violência e frustração em que se movem as personagens do que pela composição realista presente em alguns filmes baseados na peça. Mesmo tendo sido escrita no final dos anos 1950, Boca de Ouro continua atual em um país ainda regido pela falsa moralidade e hipocrisia que alimentam a violência, a pobreza, a exclusão e a manipulação do pensamento nas periferias das grandes cidades. 


“Para mim Boca de Ouro é antes de tudo um estudo sobre o que é a "verdade". Qual é a "verdade" que mais nos interessa quando somos personagens daquela história? Qual é a "verdade" que lemos numa notícia da imprensa? É uma "verdade" ou só está servindo aos interesses de alguém? Num mundo esfacelado e de pós-verdades me parece uma discussão bastante oportuna.”, adverte Tuca Andrada ao falar sobre a peça.


Também a memória humana é apresentada na montagem como um campo em contínua reconstrução, sujeita às vivências que vão se somando e transformando a visão que se tem sobre o passado, quer se trate de memória individual ou coletiva. Os figurinos de Karen Brusttolin não buscam a reprodução histórica da década de 50. Ao contrário, parecem apenas evocar um tempo passado esmaecido e impreciso na memória. A trilha sonora, composta por Guilherme Gila, explora o conflito, a temperatura emocional e por vezes o tom melodramático das cenas.

“Boca de Ouro me parece um personagem extremamente difícil porque o autor não dá ao público dados concretos sobre ele. Você assiste o personagem sendo modificado pelo estímulo emocional de outro personagem, que é quem narra a história, e esse relato toma formas diferentes ao longo da peça. É um texto com muitas armadilhas para qualquer ator.”, conclui Tuca Andrada, ao falar sobre seu personagem.


Sobre Nelson Rodrigues

Nelson Rodrigues foi jornalista, cronista, romancista e um dos maiores dramaturgos brasileiros. Nascido no Recife, Pernambuco, mudou-se em 1916 para a cidade do Rio de Janeiro. Quando maior, trabalhou no jornal A Manhã, de propriedade de seu pai, Mário Rodrigues. Foi repórter policial durante longos anos, de onde acumulou uma vasta experiência para escrever suas peças a respeito da sociedade. 

Sua primeira peça foi A Mulher sem Pecado, que lhe deu os primeiros sinais de prestígio dentro do cenário teatral. O sucesso veio com Vestido de Noiva, que trazia, em matéria de teatro, uma renovação nunca vista nos palcos brasileiros. Com seus três planos simultâneos (realidade, memória e alucinação), as inovações estéticas da peça iniciaram o processo de modernização do teatro brasileiro. A consagração seguiu com vários outros sucessos, transformando-o no maior dramaturgo brasileiro do século XX. 

Em 1962, começou a escrever crônicas esportivas, deixando transparecer toda a sua paixão por futebol. Grandes atores e encenadores continuam a revisitar suas obras, visto que esta parece jamais se esgotar e permanece relevante ainda hoje. Nelson morreu no Rio de Janeiro no ano de 1980, deixando um legado literário reconhecido internacionalmente.


Sobre Sergio Módena

Bacharel em Artes Cênicas pela Unicamp é também formado pela École Philipe Gaulier em Londres, onde realizou especializações em Shakespeare, Tchecov e Melodrama. Seus trabalhos mais recentes como diretor são “Piaf – Eu não me arrependo”, de Newton Moreno e Alessandro Toller, “Olhos nos Olhos”, dramaturgia e direção de Sergio Modena, “A Falecida”, de Nelson Rodrigues “Longa Jornada Noite Adentro, de Eugene O’Neill, “As Cangaceiras Guerreiras do Sertão”, de Newton Moreno, “Diários do Abismo” (com Maria Padilha) e “O Musical da Bossa Nova” (Aventura Entretenimentos) “Os Vilões de Shakespeare”, de Steven Bercoff (com Marcelo Serrado), “Estes Fantasmas!” de Eduardo De Filippo, “Esse Vazio”, de Juan Pablo Gomez, “Como Me Tornei Estúpido”, adaptação da obra de Martin Page feita por Pedro Kosovski, "O Último Lutador”, de Marcos Nauer e Tereza Frota, “Janis”, de Diogo Liberano, “Ricardo III” de William Shakespeare, “A Arte da Comédia”, de Eduardo De Filippo, “Politicamente Incorretos”, “Forró Miudinho” “Bossa Novinha- A Festa do Pijama” e “Sambinha”, musicais de Ana Velloso, “A Revista do Ano - O Olimpo Carioca”, de Tânia Brandão, “As Mimosas da Praça Tiradentes”, de Gustavo Gasparani e Eduardo Rieche e o show “Paletó de Lamê – os grandes sucessos (dos outros)”. Seus espetáculos receberam mais de trinta indicações e treze prêmios nas principais premiações do Rio de Janeiro e São Paulo.


Ficha Técnica

Texto: Nelson Rodrigues

Direção: Sergio Módena

Elenco: Tuca Andrada, Gustavo Wabner, Maria Clara Aquino, Ana Velloso, Jessé Scarpellini, Antonio Gonzalez e Cássia Sanches 

Direção Musical: Guilherme Gila

Cenário: Aurora dos Campos

Iluminação: Tomás Ribas

Figurino: Karen Brusttolin

Preparação Corporal: Toni Rodrigues

Programação Visual: Gustavo Wabner

Fotos: Claudia Ribeiro

Assessoria de Imprensa: Alessandra Costa

Coordenação de Redes Sociais: Fernanda Portela

Assistentes de Produção: Clara Rente e Tiago Lobão 

Produção Executiva: Ana Velloso e Vera Novello

Direção de Produção: Lúdico Produções Artísticas

Produtores Associados: Lúdico Produções e Trupe Fabulosa

Realização: SESC


Sinopse 

O temido e lendário bicheiro de Madureira, Boca de Ouro é assassinado e encontrado morto na sarjeta.  O Jornal O Sol envia seus repórteres para apurar o crime. Caveirinha vai entrevistar a ex-amante de Boca de Ouro, Dona Guigui para tentar descobrir um crime “bacana” do bicheiro, um furo de reportagem para estampar na primeira página. Dona Guigui apresenta três versões contraditórias sobre um crime cometido por “Boca”. Na primeira versão, sem saber ainda da morte do ex-amante e movida pelo rancor de ter sido abandonada, ela descreve Boca de Ouro como um bandido cruel e violento. Ao descobrir que o bicheiro foi morto, ela sofre e passa a falar dele como um amante extraordinário e um homem generoso, revelando o quanto ainda o ama. Na terceira versão, Dona Guigui fala em traição, ciúmes e em uma mistura de sentimentos, procurando preservar o casamento com Agenor, o marido que a acolheu quando Boca de Ouro a “chutou”. A obra faz uma crítica à imprensa sensacionalista e estimula uma reflexão sobre a impossibilidade de uma verdade absoluta. O mito e a realidade se fundem em função de falhas morais, de desejos frustrados e da fragilidade da memória humana.  


Serviço:

Boca de Ouro, de Nelson Rodrigues, com direção de Sergio Módena

Temporada: de 29 de outubro a 22 de novembro

Dias e horários: quintas e sextas – às 20hs; sábados e domingos – 19hs

Local: Arena do Sesc Copacabana 

Ingressos na bilheteria do Teatro ou pelo site ingresso.com

 R$ 40 (inteira); R$36 (conveniados), R$31 (conveniados empresários), R$28 (credencial plena Sesc); R$ 20 (meia entrada); Gratuito (público PCG)

Endereço: Rua Dias Ferreira, 160 – Copacabana – Rio de Janeiro, RJ

Informações: (21) 3180-5226

Bilheteria - Horário de funcionamento:

Terça a sexta - das 9h às 20h;

Sábados, domingos e feriados - das 13h às 19h.

Classificação indicativa: 16 anos

Capacidade: 250 lugares]

Acessibilidade: A peça terá acessibilidade em Libras e Audiodescrição.

O Teatro é acessível a cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida na plateia

Duração: 90 minutos




Alex Varela

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