Entrevista: Ton Garcia
- Delcio Marinho

- 11 de mai.
- 4 min de leitura




Nesta edição, conversamos com Ton Garcia, artista multifacetado que transita entre teatro, música e produção cultural, com uma abordagem que conecta arte, pensamento e identidade.
Sobre o entrevistado:
Ton Garcia (Everton Lucas Ferreira Garcia)
(Ator, músico, produtor cultural, professor, psicanalista, escritor, turismólogo e internacionalista).
DM: Ton, sua trajetória passa por diferentes linguagens artísticas. Como surgiu essa necessidade de transitar entre teatro, música e produção cultural?
Ton:
Nunca me adaptei bem a fronteiras muito rígidas. Para mim, a arte sempre representou um território de interseções. O teatro proporcionou-me trabalhar o corpo, a música, o tempo; a produção cultural, o mundo. Em determinado momento, compreendi que não fazia sentido optar por uma única linguagem, pois a criação artística emerge justamente no espaço entre elas. Se eu tivesse que sintetizar minha trajetória, diria que não transito entre áreas distintas, visto que habito um estado de fusão.
DM: Sua formação busca integrar diferentes áreas do conhecimento. Como essa construção influencia sua forma de criar e pensar arte?
Ton:
Na minha perspectiva, a formação não se configura como um mero acúmulo de conhecimentos, mas como um deslocamento de paradigmas. Cada área que investigo altera significativamente a minha forma de perceber o mundo, particularmente a minha capacidade de escuta. A arte, para mim, transcende a mera expressão; constitui uma investigação, um método de conceber aquilo que ainda não se materializou. Em sua essência, o ato criativo consiste em dar forma a questionamentos que desafiam a limitação de uma única linguagem.
DM: No teatro, você trabalha corpo, linguagem e presença. Como esses elementos se conectam na sua atuação em cena?
Ton:
O corpo jamais é neutro; ele carrega consigo uma narrativa. A linguagem transcende o vocabulário, manifestando-se no gesto, na pausa, na respiração. A presença, talvez, seja o que perdura quando tudo isso escapa ao controle. Em cena, meu objetivo não é representar, mas estar presente. Afinal, o teatro concretiza-se quando algo é genuíno o suficiente para resistir à explicação.
DM: Você também atua na música e na criação sonora. O que te interessa na relação entre som, imagem e performance?
Ton:
O som, uma força invisível, atravessa os espaços sem pedir permissão. Por essa razão, não o percebo como uma trilha sonora; pelo contrário, como uma tensão, capaz de contradizer, deslocar e abrir fissuras na imagem. Quando som, imagem e corpo se encontram, busco o impacto, não a harmonia. Nesse sentido, criei trilhas sonoras de grande beleza para os desfiles no São Paulo Fashion Week para o estilista Ronaldo Fraga, e para outros também. Resgatei músicas cantadas pela artista Elke Maravilha e as lancei em versão física em CD e em Vinil (além de estarem disponíveis em todas as plataformas de streamings). Atualmente, crio diversas trilhas sonoras para os desfiles da estilista Virgínia Barros, de Belo Horizonte, que me veste com moda autoral. Por isso, prefiro que o público sinta antes de compreender, pois sentir é sempre mais radical. A narrativa do corpo transcende o vocabulário, manifestando-se no gesto, na pausa, na respiração. A presença, talvez, seja o que resta quando tudo escapa ao controle. Em cena, meu objetivo não é representar, mas estar presente. O teatro concretiza-se quando algo é genuíno o suficiente para resistir à explicação.
DM: Seu trabalho dialoga com temas como memória, identidade e política. Qual é o papel da arte nesse processo de reflexão?
Ton:
A memória não constitui um registro estático do passado porque é uma construção contínua. De maneira análoga, a identidade não representa uma essência imutável; mas sim uma narrativa em constante evolução. Ademais, toda narrativa, por sua própria natureza, carrega implicações políticas. É nesse contexto que a arte desempenha seu papel, com o objetivo de desafiar e desorganizar nossas certezas. Acredito firmemente que a arte não altera o mundo de forma direta; ela transforma a maneira como o percebemos, o que, por si só, configura uma forma profunda de mudança.
DM: Além da criação artística, você também atua na produção cultural e na preservação de acervos. Como você enxerga a importância desse trabalho?
Ton:
Todo trabalho com memória suscita uma questão fundamental: o que merece ser preservado? Enquanto a produção artística gera algo novo, a preservação impede que esse legado se perca. No caso de acervos, especialmente de artistas, como Elke Maravilha, lidamos com mais do que simples documentos; lidamos com modos de existência. A preservação desses acervos representa, em certa medida, um cuidado com o futuro, pois aquilo que preservamos hoje define o que será possível recordar amanhã.
DM: Sua pesquisa envolve elementos como psicanálise, musicoterapia e análise discursiva. Como esses campos atravessam sua obra?
Ton:
Esses campos me ensinaram uma lição fundamental: nem tudo que nos atravessa é perceptível, e nem tudo que é perceptível é compreendido. A psicanálise aproximou-me do que escapa à percepção humana, a musicoterapia, do que vibra em nosso interior, e a análise discursiva, do que estrutura inconscientemente nossa fala. Minha obra nasce nesse espaço liminar: entre o que pode ser verbalizado e o que insiste em permanecer silenciado. Talvez a criação seja justamente isso — escutar o que ainda não encontrou sua voz.
Delcio Marinho

Comentários