Entrevista: Professor Dr. Ely Paiva
- Delcio Marinho

- 24 de dez. de 2025
- 3 min de leitura
Professor Dr. Ely Paiva
Historiador, escritor e pesquisador das relações políticas da Primeira República

DM – Para começarmos, qual é seu nome completo e como costuma assinar profissionalmente? Poderia também destacar sua formação e trajetória acadêmica?
ELY PAIVA:
Meu nome completo é Ely Carneiro de Paiva, mas profissionalmente assino como Ely Paiva.
Nasci em Uberlândia, em 1965, e atualmente sou professor da Unicamp, na Faculdade de Engenharia Mecânica (FEM). Sou formado em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), doutor pela Unicamp e pós-doutor pela Polytechnique Montréal, no Canadá.
Sou também associado correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul (IHGMS) e autor de dois outros livros.
DM – O que motivou a escrita deste novo livro? E por que a inauguração do Palácio do Catete se tornou um capítulo especial?
ELY PAIVA:
Sou apaixonado por História e, em 2012, escrevi um livro sobre um estelionatário famoso no Rio de Janeiro em 1897. A partir dessa pesquisa, aprofundei-me na história política conturbada daquele ano — marcado por Canudos, atentados e grande instabilidade — e isso me levou a desenvolver este novo trabalho.
O Palácio do Catete foi inaugurado pelo vice-presidente Manoel Vitorino, em fevereiro de 1897, durante os quatro meses em que Prudente de Morais esteve afastado por questões médicas.
Vitorino, acreditando que Prudente talvez não retornasse, realizou uma reforma caríssima e promoveu uma festa grandiosa, com quase mil convidados. Ele era um homem vaidoso, apaixonado por holofotes e cerimônias, ao contrário do discreto Prudente.
Consegui reunir detalhes preciosos sobre essa inauguração analisando jornais da época — informações que não aparecem em outros livros sobre o Catete. Curiosamente, o mesmo Manoel Vitorino seria posteriormente acusado de envolvimento no atentado contra Prudente, ocorrido em dezembro daquele mesmo ano.
DM – Como foi o processo de pesquisa histórica? Houve descobertas marcantes ou revelações inesperadas ao longo desses anos?
ELY PAIVA:
Pesquisei durante dez anos, principalmente em fontes primárias como jornais e documentos oficiais.
Entre as descobertas mais relevantes, localizei um depoimento inédito de Prudente de Morais, aparentemente desconhecido da historiografia. Nele, o presidente fala sobre aquele momento de polarização da República. Esse material foi publicado em novembro de 1901 em dois jornais distintos — um paulista e outro carioca.
O jornalista Carlos de Laet acusou Prudente de ter as “mãos sujas de sangue” por não ter reprimido atentados cometidos contra monarquistas no início de 1897, o que teria culminado no ataque à sua própria vida. Prudente respondeu com quatro justificativas, que depois foram contestadas uma a uma por Laet — e tudo isso está analisado no livro.
Outra surpresa foi o comportamento ambíguo de Bernardino de Campos, que alternava apoio entre republicanos radicais e moderados. Embora fosse ministro de Prudente, repassava informações aos jacobinos e evitou a condenação de radicais envolvidos na morte de um jornalista monarquista.
E permanece ainda um mistério o real nível de envolvimento do vice-presidente Manoel Vitorino no atentado — se foi conivente, cúmplice ou participante direto.
DM – O que o público pode esperar do lançamento no Rio de Janeiro? Haverá programação especial?
ELY PAIVA:
Espero um público interessado em política, história e no fascinante universo do Rio Antigo. O livro traz muitas passagens sobre a vida na cidade no final do século XIX, incluindo um capítulo curioso sobre o “fantasma das Laranjeiras” — um episódio que mobilizou multidões após ser divulgado nos jornais, tornou-se assunto nacional e até tema de Carnaval.
Haverá sessão de autógrafos na Livraria da Travessa, em março, no Rio de Janeiro, em um lançamento duplo com outro título da nossa editora Ayran. Provavelmente teremos também um bate-papo com os leitores.
Já realizamos um pré-lançamento em Campinas, no dia 15 de novembro.
DM – Como escritor e professor, que mensagem deixa para quem deseja compreender melhor a história do Brasil por meio da literatura?
ELY PAIVA:

Existem muitos paralelos entre os conflitos políticos da Primeira República e acontecimentos recentes do país. O livro, escrito em linguagem leve e jornalística, ajuda a compreender a polarização ainda presente entre conservadores e progressistas.
Também permite entender o quanto foi longa e difícil a construção de uma verdadeira República, marcada por preconceito contra indígenas, ex-escravizados, sertanejos e tantos outros grupos excluídos. Naquele período, mulheres e analfabetos — que representavam 85% da população — sequer podiam votar.
Prudente de Morais foi o primeiro presidente civil, mas a democracia ainda estava longe de ser plena. O livro contribui para refletirmos sobre essa trajetória e sobre episódios pouco conhecidos, como o atentado frustrado contra o presidente, que resultou na morte do marechal Bittencourt.
Créditos
Entrevista: Delcio Marinho (DM)
Entrevistado: Prof. Dr. Ely Carneiro de Paiva – Unicamp
Criação de Conteúdo Digital: ChatGPT
Crédito Fotográfico Antoninho Perri – Jornal da Unicamp
Delcio Marinho

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