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Revista do Villa

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Entrevista: Erika Rettl - Diretora do espetáculo Alumbramentos

1-   Como surgiu o projeto do espetáculo Alumbramentos?


Tudo começou quando recebi o texto Alumbramentos, da autora Nathercia Lacerda. Logo na primeira leitura, fiquei encantada com sua potência poética e com as imagens de um realismo fantástico que transbordavam das páginas e se delineavam diante da minha retina.


Algum tempo depois, ao realizar uma leitura do texto com integrantes do Núcleo de Pesquisa do Grupo Moitará — pouco antes da pandemia — começamos a vislumbrar o desejo de desenvolver uma investigação prático-teórica a partir das personagens da obra: seres que se transmutavam em bichos, gentes-bichos, bichos-gentes.


Friccionando as peles dessas personagens com as nossas próprias peles, passamos a experimentar práticas cênicas e reflexões sobre as questões que o texto nos despertava, sobretudo a percepção de que somos parte integrante da Natureza.


Foi um processo longo e atravessado por interrupções, pausas e retomadas. Vivemos a pandemia, os encontros online e, depois, a retomada presencial. Diante de tantas transformações no mundo — e em cada um dos que persistiram em continuar a pesquisa — tornou-se inevitável lançar novos olhares sobre a pesquisa de Alumbramentos.

Passamos então a nos perguntar por que temos tanta dificuldade em restabelecer a interconectividade com a Natureza evocada pelo texto de Nathercia. A partir daí, outras questões atravessaram o processo: a crise climática, os efeitos da exploração ambiental desenfreada, a falta de empatia diante do diferente, a desconexão com saberes ancestrais e o modo como tudo isso vai minando o estado de alumbramento em nossas vidas.


Já na etapa de montagem do espetáculo, incorporamos também a pesquisa em acessibilidade cultural e artística em Libras, desenvolvida junto ao Ponto de Cultura Palavras Visíveis, coordenado pelo Grupo Moitará desde 2008 — um programa voltado à capacitação artística de artistas surdos e à troca cultural entre surdos e ouvintes no campo das artes cênicas.


Alumbramentos é, portanto, o resultado de um processo coletivo, que foi se transformando ao longo de suas diferentes etapas e que escolheu se alumbrar por meio da artesania do fazer teatral.


2-   Qual a temática do espetáculo?


Alumbramentos reúne fragmentos da memória estilhaçada de uma comunidade ribeirinha atravessada por um desastre ambiental. Entre disputas, afetos e presságios, o espetáculo acompanha o desmanche de um modo de existência e busca, por meio de lampejos poéticos, resgatar o desejo de uma conexão mais profunda com a vida e com a Natureza.


 

3-    Qual a linguagem teatral que se faz presente no espetáculo?


O Grupo Moitará é conhecido por sua pesquisa com a linguagem da máscara teatral. Em Alumbramentos, porém, não utilizamos diretamente o objeto máscara em cena, embora os atores tenham trabalhado com essa linguagem ao longo do processo de investigação desenvolvido no Núcleo de Pesquisa.


Mais do que a escolha de uma linguagem teatral específica, o que norteou a criação do espetáculo foi o conceito de ‘escombros’. Assim como uma memória fragmentada após um desastre, as narrativas surgem em pedaços: nada se define com total nitidez, e o público entra em contato com fragmentos de personagens, histórias, afetos e paisagens. A encenação se constrói justamente a partir dessas fissuras e sobreposições, transitando entre o real e o poético.


Além disso, o espetáculo integra a acessibilidade cultural voltada à comunidade surda como elemento constitutivo da cena. Os intérpretes de Libras também utilizam o Visual Vernacular, linguagem artística própria da cultura surda, incorporada à dramaturgia do espetáculo.


 

4-   Como se deu a criação do Grupo Moitará?  Qual sua proposta? Quais são as atividades que realiza?


O Grupo Moitará surgiu em 1988, quando eu e Venício Fonseca nos unimos pelo interesse comum em aprofundar a pesquisa sobre a máscara teatral.


Desde então, o Moitará tem na linguagem da máscara o seu principal veículo de interlocução artística, desenvolvendo uma pesquisa continuada sobre a dramaturgia do ator / atriz a partir dessa prática. Ao longo de sua trajetória, o Grupo vem realizando projetos artísticos e formativos em diferentes regiões do país, por meio de espetáculos, oficinas, exposições, consultorias sobre a linguagem da máscara teatral e sobre dramaturgia de atores, palestras-espetáculo e ações pedagógicas.


A partir de 2008, o Grupo passa também a coordenar o Ponto de Cultura Palavras Visíveis, um projeto bilíngue (Libras e português) e bicultural, criado com o propósito de promover a capacitação técnica de artistas surdos e fomentar o intercâmbio artístico entre surdos e ouvintes. O projeto busca fortalecer e ampliar a produção artística da comunidade surda, promovendo encontros entre diferentes experiências e culturas no campo das artes cênicas.

Assim, os trabalhos do Grupo Moitará são atravessados por essas linguagens, que se entrelaçam e criam uma simbiose entre criação artística, pesquisa, formação e acessibilidade em suas ações pedagógicas e produções cênicas. 

 

Alex Varela


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