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REVISTA DO VILLA

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Enquanto o fim da escala 6x1 segue parado no Senado, atriz Isabele Brum protagoniza curta que mostra o impacto da jornada na vida de uma mãe solo

"Me Desculpa Nathan", dirigido por Kauã Pereira, já mobilizou personalidades como Erika Hilton, Sonia Guajajara, Leci Brandão, Luiz Antonio Simas e Chico Felitti


Atriz Isabele Brum. Foto Priscila Nicheli.
Atriz Isabele Brum. Foto Priscila Nicheli.

Enquanto o debate sobre o fim da escala 6x1 continua mobilizando trabalhadores, sindicatos e parlamentares, uma obra independente dá rosto às consequências dessa jornada exaustiva. Protagonizado pela atriz Isabele Brum, o curta-metragem "Me Desculpa Nathan", dirigido por Kauã Pereira, acompanha a rotina de Thamires, uma mãe negra, solo e periférica que tenta equilibrar trabalho, sobrevivência e maternidade, pagando um preço alto pela falta de tempo.


Disponível gratuitamente no YouTube, o filme estreou nos cinemas Estação Net Rio e Ponto Cine e vem ampliando seu alcance por meio de exibições e debates em diferentes espaços culturais, a ponto de receber uma Moção de Aplausos pela Câmara Municipal de Niterói. A repercussão também chegou a personalidades como Erika Hilton. Nas redes sociais, Sonia Guajajara, Leci Brandão, Luiz Antonio Simas e Chico Felitti compartilharam o projeto espontaneamente, ampliando a discussão sobre os impactos sociais da escala 6x1. Professores também têm procurado a equipe para exibir o curta em sala de aula.


Para Isabele Brum, o contato com a personagem transformou sua percepção sobre o tema. "Quero que esse filme seja um furacão na luta pelo fim da escala 6x1. Depois desse trabalho fiquei ainda mais inquieta, com vontade de gerar movimento e dar visibilidade ao filme para que ele provoque debates e reflexões entre as pessoas."

Sem nunca ter vivido a escala 6x1 pessoalmente, Isabele conta que a primeira coisa que chamou a atenção no roteiro foi a temática atual e urgente.  “Pensei na dor dessa mãe e em como deve ser difícil seguir em frente sem o direito de acompanhar um filho crescer. Fiquei pensando no peso do corpo, nas pernas cansadas e no impacto na saúde mental”.

Isabele Brum - Foto: Priscila Nicheli.
Isabele Brum - Foto: Priscila Nicheli.

A atriz chegou ao papel por acaso, através das redes sociais, mas o que a fez continuar até o set, para além da oportunidade de discutir o tema, foi também a origem do projeto, idealizado por formandos da Faetec Adolpho Bloch, única instituição pública do Rio de Janeiro com formação técnica em audiovisual.

Um dos momentos mais marcantes do processo, segundo Isabele, foi filmar dentro de um mercado em funcionamento, cercada por funcionárias reais que exercem a mesma rotina da personagem. “eu estava cercada de várias 'Thamires' da vida real. As funcionárias do estabelecimento não sabiam a história do filme, mas nos ajudaram com as caixas, a placa de piso molhado, foram maravilhosas, gostaria muito que elas assistissem”, comenta.


A preparação para o papel também cruzou o próprio corpo da atriz com o da personagem: os dois meses de gravação coincidiram com uma crise de insônia que Isabele enfrentava na época. Em vez de esconder o cansaço, ela optou por emprestá-lo a Thamires. “A privação de sono me deixou com muita dificuldade para trabalhar e realizar as tarefas do dia a dia. Em várias cenas eu estava exausta, com tontura e isso acabou me aproximando, ainda que de forma muito diferente, da exaustão física e emocional que eu imaginava para uma mãe negra, solo, periférica e submetida à escala 6x1”.


Atualmente em cartaz no Sesc Tijuca com o espetáculo infantil “Ibejis”, Isabele Brum propõe uma reflexão contundente sobre a barreira imposta pela escala 6x1 ao acesso à cultura e ao lazer. Ela questiona como as "Thamires" e os "Nathans" da vida real conseguem desfrutar de momentos lúdicos de afeto diante de uma rotina tão massacrante, defendendo que o verdadeiro papel da arte é atuar tanto na denúncia quanto no acolhimento social.


Bastidores do Curta Me Desculpa Nathan. Foto: Arquivo pessoal.
Bastidores do Curta Me Desculpa Nathan. Foto: Arquivo pessoal.

" Como artista, busco usar minha arte para provocar debates urgentes, como no curta Me desculpa Nathan, mas também para oferecer cura, afeto e imaginação, como neste espetáculo Ibejis. Pensando na minha personagem no cinema, eu me pergunto: como uma mãe solo submetida a essa jornada conseguiria levar o filho para assistir a uma peça de teatro no fim de semana? Na única folga, o cansaço acumulado é tão grande que mal passa pela cabeça priorizar um passeio cultural. O lazer e a cultura são direitos que deveriam ser acessíveis a todos, mas o desafio vai muito além do preço do ingresso; envolve transporte, alimentação e, fundamentalmente, tempo”, defende. 



Marcella Freire


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