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LUSO-BRASILEIRA

REVISTA DO VILLA

Luso-Brasileira

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Artigo 2- Dizer ou rodear: quem é que, afinal, comunica melhor?

Em seu 2º artigo na Revista do Villa. O colunista Pedro Ramos mantém esta jornada de identificar o que distingue portugueses e brasileiros com um olhar provocador.



Se no meu artigo anterior ficou claro que entre portugueses e brasileiros, afinal... não falamos exatamente a mesma língua... agora deixo-lhe aqui uma reflexão um pouco mais desconfortável: Não só não falamos a mesma língua, como não comunicamos da mesma forma. E, pior, tendemos a achar todos que a nossa forma é a certa. 


Portugal gosta de comunicação direta. Ou, pelo menos, gosta de acreditar que sim. 

Há uma valorização do conteúdo, da objetividade, da clareza... ainda que muitas vezes embrulhada em diplomacia. Diz-se sem dizer tudo. Recusa-se sem usar a palavra “não”. Critica-se com subtileza suficiente para manter a elegância intacta. 

É uma comunicação de precisão… mas também de contenção. 


O Brasil joga outro jogo. 

A comunicação é relacional. Antes da mensagem, vem a ligação. Antes do conteúdo, vem o contexto.

O que importa não é apenas o que se diz, mas como se diz; e, sobretudo, como o outro se sente ao ouvir. 

Há mais rodeios? Há. 

Mas também há mais construção de ponte. 


Para um português, isto pode ser rapidamente classificado como falta de objetividade. “Diz logo ao que vais”, pensa. Para um brasileiro, a comunicação portuguesa pode soar fria, abrupta, até desnecessariamente dura. “Custa tanto suavizar?”, questiona. 


E assim nascem os mal-entendidos que ninguém assume. 

O português acha que o brasileiro evita o confronto. O brasileiro acha que o português não sabe cuidar da relação.

Um valoriza a eficiência da mensagem. O outro, a eficácia da ligação. 


Ambos têm razão. 

E ambos falham quando trabalham juntos sem consciência disto. 

Nas organizações, esta diferença não é um detalhe. É estrutural. 


Equipas portuguesas tendem a privilegiar alinhamento racional: objetivos claros, feedback contido, reuniões focadas no “o quê” e no “como”. Equipas brasileiras investem mais no alinhamento emocional: confiança, proximidade, leitura de ambiente, reuniões que começam fora da agenda antes de entrarem nela. 


O problema? Cada lado acha que o outro está a perder tempo ou a perder impacto. 

Um líder português pode sair frustrado de uma reunião no Brasil: “falou-se muito, decidiu-se pouco”. Um líder brasileiro pode sair de uma reunião em Portugal com a sensação oposta: “decidiu-se rápido… mas ninguém parece realmente comprometido”. 

Porque compromisso, para um, nasce da clareza. Para o outro, da conexão. 

E aqui está o ponto que raramente é dito de forma direta (ou relacional): nenhuma destas abordagens é suficiente por si só. 

A comunicação direta sem relação cria execução sem envolvimento. A comunicação relacional sem direção cria envolvimento sem execução. 

Organizações que operam entre Portugal e Brasil - ou que integram pessoas destas culturas - têm aqui um teste de maturidade sério: conseguem integrar estes dois modelos ou vão continuar a escolher um e a criticar o outro? 

Porque a verdade é simples, ainda que incómoda: não se trata de suavizar a comunicação portuguesa nem de “endurecer” a brasileira. 


Trata-se de desenvolver inteligência cultural suficiente para saber quando ser direto… e quando construir caminho até lá. 

  • E isso exige mais do que técnica. 

  • Exige intenção. 

  • Exige escuta. 

  • Exige, sobretudo, a capacidade de reconhecer que comunicar bem não é dizer o que queremos da forma que nos é confortável. 

É garantir que o outro compreendeu e, sobretudo, que está disponível para agir. 

Continuaremos esta viagem de descobrir as diferenças entre portugueses e brasileiros com este olhar de quem “ponte aérea” entre os dois lados do Atlântico. 

 

Pedro Ramos


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