Crítica - “Ele Adorava as Aulas de Ciências”
Estreou “Frankinh@ – uma história em pedacinhos” no teatro do Centro Cultural Banco do Brasil 1
(CCBB RIO). Realização e Produção do Coletivo Gompa.

O texto de Camila Bauer e Marco Catalão é ficcional; voltado para o público infanto-juvenil; relaciona teatro e literatura, uma vez que é inspirado nas personagens e situações da obra Frankenstein, de Mary Shelley; utiliza linguagem acessível; poético; lúdico; musicado; crítico ao não reconhecimento das diferenças; valoriza as ciências e o uso do conhecimento científico; valoriza a amizade, o afeto e o carinho entre os seres humanos; anti-solidão; humanista; une teatro, voz, gesto, expressões corporais, e objetos visuais; contemporâneo.
O texto narra o dia a dia de um menino (Victor Frankenstein) considerado esquisito e solitário. Para superar a falta de companhia e vida solitária que levava, ele resolve costurar partes que mais aprecia de um conjunto de manequins que colecionava, e colocou-as numa estufa. Como resultado gerou uma criatura, a qual deu o nome de Frankinh@, que passou a conviver com o jovem cientista.

Ele então inicia todo um processo de criação da sua invenção, e os cuidados necessários para ela não se afastar dele e se perder no mundo. Contudo, a Criatura não saiu exatamente como ele desejava, uma vez que possui vontades próprias e é bem diferente do que ele Imaginava. Respeitadas as diferenças, os dois vivem juntos momentos felizes e passam a se transformar e a aceitar suas características próprias.
O texto ressalta o poder da ciência e a capacidade do conhecimento científico gerar vida humana. Sublinha a importância de reconhecermos as diferenças, que não somos iguais, e temos cada um características, vontades e desejos próprios. E, por fim, reforça os laços de amizade, afeto, carinho e coletividade. Não construímos nada sozinhos. Tudo é produto de um esforço coletivo.
O elenco é constituído por Fabiane Severo, Liane Venturella e Thiago Ruffoni. Eles estão unidos, entrosados, afinados, pulsantes, e vibrantes. Eles interpretam de forma refinada, e emocionam. Liane Venturella faz a narradora do texto, apresentando o quotidiano solitário do menino Victor e o seu jeito esquisito de ser. Ela domina o texto, narrando com clareza, possui uma boa retórica, e utiliza uma linguagem acessível e de fácil entendimento. Por sua vez, Tiago Ruffoni faz o menino Victor Frankenstein se utilizando basicamente de gestos, expressões corporais, e movimentação intensa. A fala é registrada em alguns momentos. Por sua vez, Fabiane Severo faz a criatura, a invenção do jovem cientista, Frankinh@, que também se utiliza de gestos e expressões corporais. Eles dominam o palco, se movimentando intensamente e preenchendo todos os espaços. Portanto, uma atuação de qualidade e merecedora de elogios.
A encenação utiliza inúmeros objetos, como esqueletos, potes de plásticos, cabeças de bonecos, placas, telas com ilustrações de anatomia humana, livros grandiosos, entre outros, materiais que auxiliam na narrativa do texto.
O som do piano tocado por Simone Rasslan confere ao espetáculo uma sonoridade poética e melodiosa.
A direção de Camila Bauer é sensível, cuidadosa, dedicada, autêntica, e emocionante, com marcações precisas que tornam o espetáculo dinâmico, e bem conduzido, potencializando a qualidade das interpretações do elenco.
Os figurinos criados por Daniel de Lion são originais, de bom gosto e facilitam a locomoção dos atores pelo palco. Ganha destaque o figurino da criatura (Frankinh@) em tom vermelho.

A cenografia criada por Elcio Rossini é criativa, bem solucionada, e disposta pelo palco. Ganha destaque um conjunto de placas, em tom vermelho e prata, que são removíveis e reutilizadas pelos atores ao longo de todo o espetáculo. Há uma mesa de rodinhas de alumínio que serve de mesa para os experimentos de Victor, bem como local onde nasce a criatura. No fundo há uma tela azul, e por trás telas com imagens de anatomia humana.
A iluminação criada por Ricardo Vivian apresenta um desenho de luz que contribui para realçar a interpretação dos atores. A variação luminosa acompanha o contexto das cenas, criando ritmo, dinamismo e complementando as falas.
Carlota Albuquerque, responsável pela direção de movimento, imprimiu uma dinâmica intensa à encenação, com todo um conjunto de movimentos coreográficos e expressões corporais.
“Frankinh@ – uma história em pedacinhos” é um espetáculo de teatro infanto-juvenil que prega o respeito às diferenças, e o valor da amizade, afeto e carinho entre os seres humanos; apresenta um elenco entrosado e de qualidade; e figurinos e cenografia criativos e originais.
Alex Varela


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